Barral Lima, produtor e músico mineiro, é uma figura que tive o prazer de conhecer nos últimos anos por conta das idas e vindas da música no Brasil em conferências e festivais.

Tendo produzido discos de nomes como Lô Borges e participado de bandas como Radar Tantã, o cara acumula anos de experiência na música e hoje é CEO do Grupo UN Music, onde dirige selo, produtora e editora.

É dele a idealização do festival Palco Ultra em Belo Horizonte, que vimos de perto esse ano e onde aprendemos com uma verdadeira aula de música na rua, além de eventos como M.AR.T.E, HipHop.Doc e Circuito Instrumental.

Em seu currículo, Barral produziu e gravou mais de 100 álbuns e trabalhou com artistas como Flávio Venturini, Toninho Horta, Samuel Rosa, Milton Nascimento, Beto Guedes, Fernanda Takai, Marku Ribas e mais.

Hoje nós batemos um papo com ele a respeito dos 10 discos que mudaram a sua vida de uma forma ou de outra, e lembramos que no dia 08/12, um Sábado, haverá uma Noite Palco Ultra em São Paulo, como parte da programação da SIM SP.

Barral Lima

Certamente não são os discos que mais ouço hoje e também podem não ser os melhores discos já lançados. Alguns deles não ouço há anos. Mas são os álbuns que em algum momento fizeram uma grande diferença na minha vida, foi a trilha sonora daqueles anos e que foram responsáveis por alguma mudança significativa na maneira de pensar, tocar, compor, produzir ou de ouvir música. Tiveram dezenas de outros além desses, mas como o desafio é dividir em 10, tentei pontuar os mais significativos. Pra quem ouve centenas de discos por ano é uma tarefa árdua. Mas é muito prazeroso e emocionante relembrar o poder da música em nossa vida. Espero que seja inspirador! Obrigado Tony.

 

Milton Nascimento – Minas (1975)

Milton Nascimento - Minas

É muito difícil ser um músico mineiro (ou até mesmo brasileiro) nascido na década de 1960 e escolher qual o disco do Milton foi mais importante na sua história. Mas acho que o álbum Minas resume um pouco daquele momento. Pura poesia e uma qualidade nas composições que impressiona muito ainda nas audições atuais.

Lembro de ficar ouvindo por horas repetidamente as canções desse disco e depois tentar aprendê-las no violão. Era um desafio das galáxias! E depois ficava pensando … “de onde esses caras tiraram isso???” Era a intrincada harmonia da música mineira que eu estava descobrindo.

 

Iron Maiden – The Number of The Beast (1982)

Além de ser o álbum que me abriu as portas para o Heavy Metal foi também o que me levou ao meu primeiro grande festival; Rock in Rio 1985. Imagina você ver a sua banda favorita na sua frente, ao vivo, com mais 100 mil pessoas. Essa foi uma experiência única e que me levou também a ter certeza que a música tomaria conta de todo o meu tempo na vida. A partir desse momento eu procurei uma escola de música e comecei a levar a coisa a sério. Tocar um violãozinho para os amigos ou ter uma bandinha no bairro já era passado.

Depois de ter ouvido todas as bandas de Rock que existiam, ter visto algumas ao vivo, como o Iron e o Queen, agora era hora de ter a minha primeira banda profissional. Queria aprender tudo e não parei até hoje. Não é por acaso que em minha data de nascimento tem três “números 6”: 6/5/66.

 

Caetano Veloso – Estrangeiro (1989)

Caetano Veloso - Estrangeiro

Claro que temos várias obras primas como Transa, Araçá Azul, Cores, Nomes e mais, mas o álbum Estrangeiro, apesar de passar quase batido pela crítica, pra mim é um momento em que o Caetano chega mais junto a David Bowie, Peter Gabriel e outros tão ousados como ele, misturando a música brasileira aos experimentalismos eletrônicos, samplers, ruídos e tudo mais.

Produzido por Peter Scherer e Arto Lindsay (o músico americano mais brasileiro que nós), o álbum foi gravado em 1989 em Nova York, misturando músicos brasileiros e americanos com uma sonoridade que atravessará séculos. Foi a primeira vez também que vi Caetano ao vivo reproduzindo aquele álbum com uma banda maravilhosa. Um momento inesquecível e um grande incentivo na minha carreira.

 

R.E.M. – Automatic For The People (1992)

R.E.M. - Automatic For The People

Difícil tarefa escolher apenas um álbum de uma banda como essa. Mas esse disco, oitavo da carreira do R.E.M, é um curso inteiro de composição pop. Um disco que você vai ouvir por toda a vida sem nunca cansar, ainda mais a extraordinária balada “Everybody Hurts”. Essa me emociona mais a cada nova audição. Ainda tem as cordas escritas por John Paul Jones (Led Zeppelin), que são de cortar os pulsos.

Em resumo, é a infinita beleza subjetiva da simplicidade e do extremo bom gosto. Uma banda que me inspira sempre e que me faz não sentir falta de quase nada quando se trata de bandas de Rock.

 

Sinéad O’Connor – Am I Not Your Girl? (1992)

Sinéad O'Connor - Am I Not Your Girl?

Terceiro álbum de estúdio da cantora, foi lançado em 1992 com co-produção do mestre Phil Ramone, ganhador de 14 Grammys, falecido em março de 2013 e que trabalhou com os maiores artistas da música mundial de 1960 até a sua morte.

Mais uma grande aula de produção musical. Nesse álbum a cantora interpreta vários standards de Jazz, e inclusive com uma versão maravilhosa de “How Insensitive” (Tom Jobim, Vinicius e Norman Gimbel).

Arranjos, execução, gravação, mixagem, tudo de primeiríssima qualidade. Um disco emocionante onde Sinéad está em seu auge e mostra que é uma cantora fora do comum, do Rock ao Clássico, apesar da crítica não ter dado muita bola por ter sido lançado logo após o estrondoso sucesso do álbum I Don’t Want What I Have com a música “Nothing
Compares 2 U”.

Mostra a coragem de uma artista de sair de um sucesso pop mundial e produzir um trabalho sofisticadíssimo, orquestrado sem se preocupar com o mercado.

 

Beck – Odelay (1996)

Acho que esse álbum foi definitivo na minha formação como produtor musical. Na época eu estava começando minhas primeiras produções fonográficas em estúdio e esse álbum abriu a minha mente para a criação de ambientes sonoros, experimentações e um leque de possibilidades.

Aqui, Beck mostra que tudo é possível a favor da boa canção, com extremo bom gosto e autenticidade. A mistura do acústico com o eletrônico é precisa e o resultado é incrível. Não é a toa que esse álbum, considerado de Rock alternativo, levou dois Grammys para casa.

Só pra registrar, o brasileiro Mario Caldato, Jr. estava nessa encrenca aí como um dos produtores.

 

Radiohead – OK Computer (1997)

Ok, Beck já tinha mostrado um caminho com a canção e os eletrônicos e uma nova sonoridade para a música Pop. Daí vem OK Computer, simplesmente destruidor!

Um cara chamado Nigel Godrich, que depois veio a ser o produtor definitivo da banda e dezenas de outros grandes artistas, foi um dos corresponsáveis por essa sonoridade, mais uma vez misturando tudo; guitarras distorcidas, cordas sampleadas, Eletro-harmônicos, violões e uma interpretação excepcional do vocalista Thom Yorke.

Uma banda que se tornou gigante no mainstream, mas pra mim, nunca mais fez um disco como esse, apesar dos seguintes serem fantásticos também.

Foi esse disco que me fez a voltar a ouvir Rock novamente, um novo Rock.

 

Radar Tantã – Na Dúvida, Atire! (2002)

No inicio da década de 1990, ter uma banda era uma grande chance de se tornar um rock star. Pelo menos a gente achava que era (risos).

Bom, eu era fã da banda Virna Lisi e quando soube que ela tinha acabado, fui logo convidar o vocalista César Maurício e o guitarrista Ronaldo Gino para uma nova empreitada. Os dois toparam e montamos o Radar Tantã.

Logo gravamos algumas demos e daí surgiu o primeiro álbum. Com co-produção de Edgar Scandurra em duas faixas e alguns belos videoclipes, aproveitando a grande fase da MTV Brasil e conseguimos emplacar um prêmio no VMB de melhor Demo clipe.

Esse disco tem uma grande importância porque foi uma forte experiência com uma banda de Rock numa década riquíssima da música brasileira, quando conheci vários artistas e produtores e que me abriu várias outras portas para a produção musical e uma maior compreensão de mercado.

Ah, e foi ai o meu primeiro contato com o produtor Carlos Eduardo Miranda, com quem alguns anos depois fiz várias parcerias em produções importantes e nos tornamos grandes amigos, como dois irmãos.

 

Lô Borges – Bhanda (2006)

Lô Borges - Bhanda

E essa foi uma das portas abertas pós Radar. Esse foi o primeiro álbum da trilogia que produzi para o Lô. Um cara que fui fã por toda a vida, e que, quando comecei a tocar as suas músicas nos bares de BH, nunca imaginaria que um dia ao menos viria a conhecê-lo.

De repente lá estava eu produzindo, tocando, trocando ideias e saboreando todo aquele talento e toda aquela autenticidade.

No álbum Bhanda pude experimentar todos os aprendizados de uma vida. Misturando sonoridades, abusando dos teclados e samplers e ele sempre gostando de tudo. Lô sempre esteve à frente de seu tempo, diferente de alguns outros artistas do Clube. Isso me instiga sempre a trabalhar com ele.

Todo esse trabalho de experimentar me levou a ir também com ela para a estrada, tocando Pianos, Teclados, Hammond e disparando samples nos shows, além de voltar a produzir mais dois álbuns de estúdio, uma coletânea e participar do DVD.

Bhanda é um daqueles discos que ainda vai ser ouvido.

 

Giovani Cidreira – Japanese Food (2017)

Giovani Cidreira - Japanese Food

A última vez que tinha ouvido algo parecido foi com Vitor Ramil nos anos de 1980. Eu já não esperava mais ouvir canções tão bem construídas, poética-melódica-harmonicamente sendo ao mesmo tempo ousadas e dilacerantes.

Não que as belas canções não existam mais, claro que não. Estamos a cada dia com outras dezenas de lindas canções sendo compostas e inundando o mundo. Mas Japanese Food me
parece um retro às canções viscerais meio raio X. Aquelas que nascem prontas, de tão perfeitas que são. E me transporta muito para o ambiente mineiro dos anos de 1970, de álbuns como Geraes (Milton), Via Láctea do Lô, aquelas coisas loucas e sensacionais da época. É preciso ouvir alguns vezes para entender e depois não parar mais de ouvir.