Em 2016 a cantora Aíla lançou o disco Em Cada Verso um Contra-Ataque, segundo da carreira, e tornou-se um importante nome da música brasileira.

No álbum aparece a faixa “#Nãovoucalar” e ela acabou de ganhar um clipe oficial onde Aíla aparece, junto à dançarina Ciça de Cecília, no meio de escombros de uma antiga fábrica de São Paulo inaugurada nos anos 1920 e que já foi a maior produtora de cimento da América Latina.

Além de trazer a estreia do clipe por aqui, nós também conversamos com a artista que vem da Terra Firme, bairro da periferia de Belém no Pará, a respeito da mensagem do clipe, seu trabalho, futuro e mais.

Você pode ver tudo logo abaixo.

TMDQA!: A ideia do clipe é falar sobre os abusos sofridos por mulheres no transporte público mas você não quis usar cenas desses abusos em si, procurando outra abordagem. Qual foi a sua ideia para o clipe e como ela se relaciona com a execução final que podemos assistir no vídeo?

Aíla: Fiz essa música especialmente pro disco Em Cada Verso Um Contra-Ataque, em 2015, mesmo ano que me mudei pra São Paulo. E partiu de uma urgência de discutir o tema. Assédios, abusos, nós mulheres, sofremos todos os dias, em todos os cantos, de várias maneiras. Mas me chocou demais ver a quantidade de casos diários de abuso sexual nos metrôs. Sentir na pele o medo, a repulsa, a agonia de enfrentar as lotações na hora do rush.

Em contraponto, não queríamos replicar cenas de abuso no clipe, tinha uma vontade de usar a dança como protagonista, uma dança que fosse como um grito, uma dança de libertação.
Decidimos gravar em um espaço abandonado, vazio. Um caminho contrário às lotações, ônibus e metrôs lotados em que todos os dias centenas de mulheres são abusadas. Filmar ali também simboliza o abandono e o descaso sistemático do Estado diante da situação, o mesmo Estado que que deveria nos proteger

TMDQA!: O clipe foi gravado em São Paulo e há algum tempo você, que não é da capital paulista, está morando lá. Como se deu e tem sido essa mudança e como entende que a paisagem de uma locação cheia de história ligada ao concreto se conectou com a sua canção?

Aíla: São Paulo é o mundo todo. Mudar pra cá foi arrebatador pra mim, inspiração latente, aqui comecei a compor minhas próprias músicas, a me conectar com compositorxs do resto do Brasil, a circular mais o meu trabalho. Comecei a escrever pro meu disco 2 já morando em São Paulo, e elas refletem muito do cotidiano acelerado da cidade, desde a velocidade frenética da vida, das relações, até as intolerâncias e abusos sofridos diariamente.

“#NãoVouCalar” saiu dessa safra, é um grito necessário, um grito coletivo. Já tinha um tempo que queria fazer o clipe dessa música, e não podia ter sido melhor do que sair agora, nesse tempo político conturbado que vivemos. O clipe foi gravado todo em São Paulo, nas ruínas de uma fábrica de cimento inaugurada na década de 20, e que inclusive foi a maior fábrica de cimento da América Latina, responsável pelas construções dos primeiros edifícios da capital paulista. As primeiras greves da classe operária vieram daí também, o espaço carrega muitas histórias de luta. A conexão foi imediata com a temática de “grito” do clipe. Além de que descobrimos que passava um trem por dentro dessa fábrica, outra relação forte.

TMDQA!: Estamos vivendo um período em que invertem-se os valores e as lutas das minorias por direitos iguais têm sido tratadas como uma busca por privilégios para que as classes dominantes continuem dominando. Como você enxerga o papel da arte nesses anos tão turbulentos que passamos e que ainda estão por vir? Como você encara a sua música e a estética que a acompanha politicamente falando?

Aíla: Arte é revolução. O maior sentido de fazer arte hoje, pra mim, é transformar o agora, é mover, fazer refletir, cutucar, contra-atacar. Somos responsáveis pela construção de espaços de debates. Apesar de vivermos em um mundo controlado pelo medo, pelo capital, pela repressão, nossa arte precisa ser um sopro de resistência e liberdade. Eu sempre acreditei que a arte pode criar pontes, mudar percepções. E a música, cada vez mais, é um canal de diálogo importante com o grande público.

Esse segundo disco, Em Cada Verso Um Contra-Ataque, reflete muito dos meus anseios, minhas inquietações, minha vontade de mostrar um Pará mais político, mais ARTivista, que faz dançar, que é pop, mas que é reflexivo também, e conectado com as urgências do agora. Falo sobre questões de gênero, feminismo, resistência. E no final de tudo, só quero falar mesmo é de liberdade.

TMDQA!: “#Nãovoucalar” aparece no seu último disco, “Em Cada Verso um Contra-Ataque”, lançado em 2016. Quando podemos esperar por material inédito?

Aíla: No meio das urgências e velocidade do mercado, um disco não dura mais tanto assim, né? (risos).
Porém ainda estamos circulando a turnê por estados que ainda não tínhamos chegado, acabamos de sair de uma circulação no Centro-Oeste que foi incrível, passamos por Brasília, Goiânia e Chapada dos Veadeiros com shows lotados, foi demais mesmo. E semestre que vem ainda quero fazer uma circulação pela América Latina e Europa, estamos articulando. Em paralelo a tudo isso, comecei a compor para o próximo álbum, as parcerias e músicas novas estão surgindo. Em 2019 sai coisa nova! ;)

   
 
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