As melhores trilhas sonoras das séries de TV, incluindo Atlanta
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Uma série de TV utiliza vários elementos para prender a atenção dos espectadores do primeiro ao último episódio. Um deles é a trilha sonora, que acaba sendo mais importante do que muitos de nós julgamos.

A trilha é muito importante porque influencia na forma como a mensagem chega na nossa casa, utilizando o potencial das músicas e de todos os efeitos sonoros que compõem a narrativa para sensibilizar o público. Por meio dos sons dos ambientes é possível manipular as sensações dos fãs e, dependendo da produção, jogar a pessoa num poço de melancolia ou levantar os ânimos como em uma final de campeonato.

Muitas séries dominam esse controle sobre os espectadores e acabam eternizadas pelos efeitos que incluem milimetricamente no decorrer dos seus episódios. Veja (e ouça) algumas delas logo abaixo.

Referência a Choque de Cultura ironizando trilhas sonoras

The Get Down

Nada mais natural que a lista comece por uma série sobre a origem do hip-hop em plena Nova York em crise nos anos 70. Apesar de cancelada, The Get Down foi um sucesso entre os assinantes da Netflix.

E até o próprio cancelamento não foi por falta de qualidade: o diretor, roteirista e mente criativa por trás do programa, Baz Luhmann, tomou a decisão por estar com dificuldades de conciliar sua agenda com o cinema, sua ocupação principal. Uma pena para o público, que teve que se contentar com apenas uma temporada, dividida em duas partes.

Quanto à trilha em si, Luhmann declarou se tratar de uma mistura de músicas contemporâneas com clássicos de uma época muito fértil criativamente, que representam uma ligação entre o passado e o presente do hip-hop. Esse respeito à cultura negra norte-americana se comprova com a presença de NAS, Grandmaster Flash e Kurtis Blow, por exemplo, como produtores da série.

Atlanta

Outra série que mostra grande respeito pela cultura negra dos Estados Unidos é Atlanta, produzida por Donald Glover. O programa consegue ser uma boa comédia ao mesmo tempo que explora aspectos sociais da cultura norte-americana pelo ponto de vista de Earn Marks (Glover), um produtor musical negro que passa por grandes dificuldades financeiras.

A história está inserida no meio musical da cidade de Atlanta, por isso são várias as referências ao rap atual. Os consultores musicais da série, Jen Malone e Fam Rothstein, declararam que a seleção das músicas é simples, pois são apenas aquilo que eles e a equipe costumam ouvir no dia-a-dia. Vários episódios contam com artistas do estado da Georgia, como Young Thug e Lil Yatchy, além de outros mais antigos como Bill Withers. Também aparecem em participações especiais nomes como o grupo Migos e os cantores Lil Zane e Lloyd.

Mas lembre-se que Atlanta vai muito além do que apenas o retrato do hip-hop, tratando do racismo estrutural na cultura dos EUA.

Big Little Lies

A capacidade de Big Little Lies contar histórias perfeitamente ilustradas pelas músicas que compõem a série foi reconhecida até pelo Emmy. Tem de tudo aqui: Alabama Shakes, Sufjan Stevens, PJ Harvey, Fleetwood Mac, Neil Young, Elvis Presley, Flaming Lips, Jefferson Airplane… Como as personagens principais são muito diferentes entre si, o background musical que as acompanha é igualmente heterogêneo.

Não é exagero dizer que Big Little Lies é uma das melhores séries da atualidade, considerando os oito Emmy, quatro Globos de Ouro, dois SAG, um TCA e quatro Critics’ Choice recebidos – entre premiações pela produção e pelos desempenhos individuais do seu elenco. Criada por David E. Kelley e dirigida por Jean-Marc Vallée, a série da HBO acompanha a vida de três mulheres que se aproximam quando seus filhos começam a estudar juntos, mas a aparente vida perfeita de toda a vizinhança começa a mostrar seu lado mais pérfido conforme a convivência se intensifica.

E se serve de incentivo, Maryl Streep vai se juntar ao já estrelado elenco da série na segunda temporada. Vale muito a pena assistir!

The Handmaid’s Tale

Assim como Big Little Lies, a trilha de The Handmaid’s Tale contribui demais para a imersão do público na série. Aqui, especificamente, o trabalho ainda é mais difícil porque a série do serviço de streaming Hulu se passa em um futuro distópico. Algumas das músicas, porém, são bastante conhecidas do público e funcionam como um elemento ao qual podemos nos apegar naquela realidade totalitária futurista.

Além disso, as letras das canções contextualizam o momento bizarro vivido pelas mulheres da história, que têm que submeter a um regime autoritário e sufocante. “I’m a Believer”, do The Monkees, por exemplo, traz no próprio título a esperança de resistência; “You Don’t Owe Me”, de Leslie Gore, é tocada logo nos créditos do primeiro episódio, mostrando qual será o tom dos episódios subsequentes, e por aí vai.

True Detective

Falando especificamente da primeira temporada de True Detective, a produção da HBO conseguiu dar um gás novo às séries policiais, que se repetiam nas fórmulas já utilizadas há décadas na TV norte-americana. Em vez das movimentadas Miami, Nova York ou Las Vegas, o cenário muda para a Louisiana, os protagonistas são dois policiais problemáticos e os casos investigados têm uma pitada quase sobrenatural.

É aí que entra a “mágica” da trilha sonora. Independente do ponto de vista que se observa a história, ela sempre vai parecer sombria. Em vez de apenas ouvir uma história macabra, o espectador sente um gelo na espinha por causa da ambientação que a trilha ajuda a construir. Ao lado das atuações excelentes de Matthew McCounaghey e Woody Harrelson e da fotografia fria e melancólica, as músicas contribuem para a manutenção do clima horripilante não apenas do crime principal, mas também da vida pessoal dos protagonistas.

A antologia está indo para a terceira temporada, que será estrelada pelo ganhador do Oscar Mahershala Ali – clique aqui para assistir ao trailer.

Stranger Things

Se o assunto é imersão, Stranger Things dá uma aula. Ambientada nos anos 80 e protagonizada por pré-adolescentes, a série original da Netflix se preocupa bastante em passar a sensação de que o espectador está de volta àquela época. Por um lado é difícil mexer com o gosto pessoal de tantas pessoas, remetendo a clássicos do cinema e da música, porém, fica mais fácil se considerarmos que os anos 80 foram muito ricos na produção cultural.

Os compositores da trilha foram Michael Stein e Kyle Dixon, responsáveis por aproximar a série dos clássicos de terror e por dar à cidade de Hawkins uma atmosfera tensa, de ameaça constante. Mas a base de Stranger Things pode ser classificada pelo gênero synthwave, caracterizado pela utilização dos sintetizadores – e o crédito por esse rumo é dos criadores da série, os irmãos Duffer. O objetivo, segundo eles próprios, é diferenciar a obra dos clássicos juvenis de Spielberg (alguma coisa tinha que ser diferente, né?), aproximando-se mais de Stephen King e John Carpenter.

Já os hits oitentistas de bandas famosas até hoje no cenário pop e rock são praticamente personagens com identidade própria. The Clash, Jefferson Airplane, Dolly Parton, Toto, Echo & the Bunnymen, New Order… tem de tudo!

Dark

Para fechar, a série alemã Dark, que é comparada em vários níveis a Stranger Things mas, na verdade, não tem muito em comum – a não ser pela temática investigativa e pelo desaparecimento de uma criança. A trilha até se aproxima do synthwave hollywoodiano, mas é muito mais sombria e tensa porque… bom, são alemães. O roteiro que caminha para a ficção científica e se arrisca com a utilização de narrativas em diferentes épocas também contribui.

Apesar de um ou outro nome mais conhecido por aqui, como Tears For Fears e A Flock of Seagulls, o diferencial de Dark fica por conta da mistura com artistas alemães dos anos 80 (como Nena e a sensacional “Irgendwie, irgendwo, irgendwann”) e uma pitada de indie contemporâneo (como Apparat e seu impressionante tema de abertura, “Goodbye”).