Marcelo D2 e Skunk em
Foto: Reprodução / Youtube
 

Criar uma banda não é fácil. Encontrar os integrantes certos, compor canções, gastar dinheiro com ensaios e instrumentos… Muitas bandas e artistas, no início da carreira, costumam passar por perrengues. Não foi diferente com o grupo carioca Planet Hemp.

Com o objetivo de contar o início da história da banda, foi produzido o filme Legalize Já: Amizade Nunca Morre. Após um longo período de espera, o filme finalmente foi lançado nos cinemas. Com Renato Góes no papel de Marcelo D2 e Ícaro Silva interpretando Skunk, o filme foca na história de amizade da dupla, desde o primeiro contato até o lançamento do icônico primeiro álbum de estúdio, Usuário.

 

Quase 10 anos de produção

Retratar com fidelidade a história de um grupo importante não é tarefa fácil. Foram quase 10 anos de espera até a produção do filme encontrar o resultado ideal. Oito versões foram feitas até o corte final.

O longa foi dirigido pela dupla Johnny Araújo e Gustavo Bonafé. A princípio, Araújo assinaria a direção sozinho, mas dividiu o cargo com Bonafé por sua participação dedicada durante todo o processo de montagem do filme.

Nem o título do filme ficou a salvo de mudanças. Originalmente, o longa se chamaria Anjos da Lapa, em homenagem ao bairro onde aconteceu a história toda. Depois, decidiu-se o nome Meu Tempo É Agora. O nome final, uma referência a um dos maiores sucessos do grupo, surgiu depois da finalização das gravações.

 

O retrato do centro do Rio no início dos anos 90

O bairro da Lapa em Legalize Já
Arcos da Lapa. Foto: Reprodução / Youtube

A história toda se passa no boêmio bairro da Lapa em 1993, na cidade do Rio de Janeiro. Foi lá onde a história toda começa e termina: o início do contato entre D2 e Skunk, os problemas financeiros de D2, a questão do aborto…

Além de ter sido o local original da história, o bairro em si, cujo principal ponto de referência são os famosos arcos, representa muito do que o filme prega. Ao falar sobre o preconceito e a desigualdade social que assola não só o Brasil, como também o mundo, a Lapa, e especialmente quem a frequenta, retrata muito bem tudo isso. O bairro é famoso por juntar todas as classes e idades. São pobres, ricos, crianças e idosos frequentando o mesmo espaço. Em situações como essa, muitas vezes, é que conseguimos enxergar melhor a desigualdade social. E Legalize Já mostra isso de forma clara.

O filme, colorizado com uma paleta de cores mais frias e pasteis, dá esse aspecto de “antigo” ao centro da Cidade Maravilhosa. Mas a cor diz mais do que simplesmente voltar pouco mais de 20 anos na nossa história. Aliás, o Rio de Janeiro no qual Skunk e D2 cresceram não é a cidade colorida e serelepe que os filmes costumam mostrar.

 

“Rap, rock ‘n roll, psicodelia, hardcore e ragga”

Renato Góes como Marcelo D2 e Ícaro Silva como Skunk, em Legalize Já
Renato Góes como Marcelo D2 e Ícaro Silva como Skunk. Foto: Reprodução / Youtube

O maior acerto do filme é o jeito delicado e sincero de apresentar seus personagens. Enquanto Silva mostra um Skunk divertido, sonhador e ao mesmo tempo preocupado, Góes dá vida à personalidade de D2 que tanto admiramos: um rapaz com bondade, sincero, e que corre atrás do que quer.

Outro ponto interessante é que, por mais que conheçamos pelo menos parte da trajetória de D2, muitos podem desconhecer um dos personagens mais importantes para o legado do Planet Hemp, Skunk. Morto em decorrência de complicações da AIDS em 1994, ele acabou ficando fora do álbum de estreia do grupo e de seus shows. O filme mostra no personagem de Silva um grande músico e crítico dos problemas da sociedade, que foi o principal motor para a construção do grupo.

Mais do que isso, a sintonia entre os personagens principais mostra com calma o desenvolvimento da amizade que levaria ao início do Planet Hemp. Além dos problemas pessoais, Skunk e D2 (na época atendendo por seu “careta” primeiro nome de Marcelo) se veem unidos também por conta de interesses musicais semelhantes. As bases de Skunk, somadas às letras de D2, dão origem a músicas que chamariam atenção de todos no Rio de Janeiro (incluindo autoridades) e, em breve, no Brasil. É a origem detalhada da mistura entre “rap, rock ‘n roll, psicodelia, hardcore e ragga” que caracteriza o grupo, segundo o próprio personagem de Ícaro Silva.

A cena musical da época também foi bem retratada. Os personagens criticam a indústria musical brasileira do momento. Marcelo se mostra indignado ao ver que nas televisões são sempre reproduzidas as mesmas músicas, todas sem nenhum cunho crítico.

No mais, o filme também mostra de forma delicada os problemas enfrentados pelos integrantes. Enquanto Marcelo enfrenta uma gravidez inesperada de sua parceira Sônia (interpretada por Marina Provenzzano), Skunk resiste ao tratamento da AIDS, e vê na música sua única felicidade.

 

“A gente precisa desse discurso”

Além de todos os méritos dessa cinebiografia, vale reforçar que seu discurso sobre a desigualdade e a injustiça ainda se mostra válido, mesmo passados mais de 20 anos. Isso porque as letras do Planet Hemp, versando sobre política e problemas sociais e tendo uma visão aberta sobre o consumo de drogas, lembram de alguns tabus ainda não superados.

Em entrevista ao Adoro Cinema, os atores principais falaram sobre o momento. “Esse filme procura olhar para um lugar de libertação da própria voz,” diz Ícaro Silva. Renato Góes também deixou sua opinião:

Quando a gente pensava que o filme era atual, era da pior maneira possível. É um baita discurso para o momento, mas infelizmente a gente precisa desse discurso.

Legalize Já está disponível nos cinemas desde o último dia 18, e não é recomendado para menos de 16 anos.