Povo contra a ditadura militar
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Os momentos que vivemos atualmente não são os mais prósperos. Uma grande divisão política e disputas de ideais nos encaminham para um futuro de incertezas. Muitos não sabem como reagir. Muitos não sabem em quem votar. Muitos estão com medo do dia de amanhã.

O cenário ainda é passível de comparações com a época da ditadura militar. Muitos falam em fascismo, em repressão e, principalmente, em retrocesso. Aliás, há exatamente 50 anos vivíamos um delicado e assustador momento da nossa história política. Não por acaso, a mais conhecida música de resistência da história musical brasileira completou recentemente a mesma idade. Estamos falando de “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” do compositor paraibano Geraldo Vandré.

 

1968

Em 1968, muitos foram censurados e torturados. O imprevisível ano ainda terminou com o decreto do Ato Institucional Número Cinco, que resultou na suspensão de garantias constitucionais, além da perda do mandato de parlamentares contrários ao regime vigente. Entretanto, desde antes disso, a situação já se mostrava caótica e causava a revolta de muitos, especialmente da jovem classe artística.

Em paralelo, no campo da música, vivíamos o ápice da chamada Era dos Festivais, em que concursos para eleger a melhor música de determinado ano eram exibidos pela televisão e chamavam a atenção de todo o país. Foi em um desses festivais, inclusive, que nasceu a Tropicália, em 1967. Foi um espaço muito bem aproveitado pelas vanguardas musicais brasileiras, que traziam novos discursos para o público.

Mas o ponto alto, talvez o mais emblemático da Era dos Festivais quando o assunto é política, foi a terceira edição do Festival Internacional da Canção, da TV Globo. Aconteceu há exatos 50 anos, e foi quando a canção de Vandré, também conhecida como “Caminhando“, ficou entre as finalistas do evento.

A música foi ovacionada pela plateia do festival. Aliás, apareceu em um momento que pedia uma composição do tipo. Não dava para fingir que estava tudo bem no Brasil de 1968. Vandré teve a coragem que muitos artistas não tiveram de assumir o microfone, usando sua posição de prestígio como artista, para falar o que muitos queriam ouvir. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, cantou para o inconformado público.

No final das contas, Vandré acabou como segundo colocado. O júri concedeu a vitória a “Sabiá“, composição de Chico Buarque e Tom Jobim. O público vaiou a escolha, acreditando que “Caminhando” merecia mais a vitória. Em sua autobiografia lançada mais de 20 anos depois do ocorrido, o então diretor da Globo Walter Clark revelou que a emissora havia recebido ordens do Exército para que a canção, claramente crítica ao regime, não ganhasse.

O mesmo festival ficou famoso por outro posicionamento político, dessa vez de Caetano Veloso. Ainda na fase eliminatória, Caetano cantou, acompanhado do grupo Os Mutantes, “É Proibido Proibir”, acompanhado de um discurso que entrou para a história, criticando a plateia e o júri. A canção foi desclassificada e não chegou às finais. Em seu discurso, o cantor reclamou:

Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? […] A mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! […] Se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!

 

Repercussão

Apesar de não ter ganhado o festival, “Caminhando” conseguiu se projetar melhor do que “Sabiá” no tempo, tornando-se uma canção, de fato, atemporal. Além de crítica, ela traz consigo uma mensagem de esperança.

A música virou uma espécie de hino de resistência do movimento de oposição à ditadura. Criticava a violência, a repressão, e exaltava o posicionamento e a iniciativa do povo diante dos tempos difíceis que eram vividos. Chegou até a ser censurada pelo regime na época, tendo sua reprodução proibida nas rádios.

A composição de Vandré é lembrada e associada sempre a movimentos políticos de inconformidade e resistência, como aconteceu com os movimentos a favor do impeachment de Fernando Collor e, mais recentemente, com a série de manifestações que tomaram o Brasil em 2013.

Vários artistas, de diferentes estilos e épocas, já inseriram a canção em algum momento em seus repertórios, homenageando o grande hino. Uma versão foi lançada pelo Charlie Brown Jr., que a reimaginou para o álbum Imunidade Musical, de 2005. Emicida e Rael também já fizeram uma versão ao vivo, com direito a versos improvisados sobre o tema.

 

E Vandré?

Apesar do emblemático sucesso de “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, a carreira de Vandré já era reconhecida antes. O compositor, nascido na Paraíba, dividiu a primeira colocação do Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com Chico Buarque, em 1966. Vandré concorreu com a música “Disparada“, enquanto Chico defendia “A Banda“. Um ano após isso, Gilberto Gil e Caetano se consagrariam no mesmo festival.

O maior alcance projetado por seu nome veio só dois anos depois, com o episódio ao qual nos referimos acima. “Caminhando” conquistou o amor dos que eram contra a ditadura, ao mesmo tempo que chamou a atenção dos militares. Pouco tempo após o Festival de 68, Vandré se exilou no Chile, e de lá foi para a Europa. Voltou apenas em 1973, mudado, para a surpresa de muitos fãs.

O então “homem mais corajoso da MPB” decidiu que faria apenas canções de amor a partir daquele momento. Foi o caso também de “Fabiana“, que especula-se ser uma homenagem à Força Aérea Brasileira. Boatos da época diziam que ele foi torturado e que estava louco. Naquela altura, Vandré já não fazia mais canções de revolta.

Em 2010, durante uma entrevista para a GloboNews, o cantor negou ter sido torturado, e demonstrou descaso em relação a canções de protesto. Ele disse na ocasião: “Eu não faço canção de protesto. Eu faço, fazia, música brasileira, canções brasileiras”. O que aconteceu de fato durante esse exílio, no entanto, só o próprio Vandré sabe. Hoje, ele se encontra em seus 83 anos de idade.

 

2018: acreditar nas flores vencendo o canhão

“Caminhando” mostra que correr atrás de seus próprios direitos também é um direito. Aliás, “esperar não é saber”. Deve-se lutar contra o preconceito, contra a violência e contra o ódio.

Não é só o pensamento de Vandré, mas também o de vários artistas atuais. A canção de protesto ainda persiste, talvez mais forte do que nunca. Recentemente, por exemplo, fomos contemplados pela incrível canção “Boca de Lobo“, do Criolo, em que o cantor não poupa críticas à atual situação política do país. Mas isso não é realidade só no cenário do hip-hop. Reivindicações, tanto políticas quanto sociais, têm se desenvolvido também no rock e até no pop. Aliás, quem não lembra da cena do rock brasileiro dos anos 80, com bandas como Capital Inicial, Legião Urbana, Barão Vermelho e mais criticando o cenário político da época da redemocratização pós-ditadura?

Essas canções não servem apenas como uma forma de demonstrar indignação. Elas pedem respeito, aceitação e sonham nobremente com um mundo melhor onde as pessoas possam exercer livremente os seus direitos. Acreditemos nas flores vencendo o canhão, já dizia o compositor.

Torcemos por dias melhores para todos.