Liniker no Pipoca Festival
Foto: Natalia Capeans
 

Era o início de uma noite tranquila de sábado. Por volta das 20h, uma movimentação grande começou perto do bondinho do Morro da Urca. Eram pessoas, das mais diversas, querendo subir o Morro. Começava a aglomeração do primeiro Pipoca Festival, que aconteceu no último dia 29.

Para subir, os pagantes foram “obrigados” a curtir a incrível vista de um dos cartões postais da cidade. No desembarque, tapetes de “Bem-vindo(a)” traçavam o caminho até a entrada do evento, desencadeando em um painel com o nome do evento e uma vista linda para o iluminado Cristo Redentor. Era apenas a recepção da organização do Pipoca para seu cada vez maior público. O melhor ainda estava por vir.

 

Do samba ao funk, com vista para o Cristo Redentor

Entrada do Festival Pipoca
Foto: Natalia Capeans

No espaço, comidas diversas, uma vista exuberante e, acima de tudo, música boa. A música nacional foi a prioridade do evento, cujas playlists foram desde Adoniran Barbosa até Mahmundi. Tratou-se de uma exaltação à nossa riquíssima cultura musical.

A proposta foi seguida pelas apresentações iniciais do evento. O grupo instrumental Bondesom apresentou criativas versões para músicas consagradas de MPB, como “Nossa Gente (Avisa Lá)” de Caetano Veloso e “Anunciação” de Alceu Valença. Logo depois, o DJ Eppinghaus ousou ao pegar artistas consagrados como Alcione e colocá-los lado a lado com expoentes da atual música br, como o BaianaSystem.

O DJ Mellow, responsável também pela organização do festival, teve destaque ao se apresentar diversas vezes ao longo da noite, indo desde a atual cena do rap nacional, com Rincon Sapiência e Baco Exu do Blues, até clássicos de Claudinho & Buchecha e MC Leozinho, passeando por toda a história do funk e do hip-hop brasileiro.

 

Liniker ao vivo: uma aula de talento

Mas os holofotes estavam na aguardadíssima apresentação principal da noite: Liniker e os Caramelows. O grupo deu a seu público, em uma hora e meia de show, um espetáculo de talento, danças e mensagens emocionantes. A líder Liniker deu ainda uma verdadeira aula de humanidade aos presentes. Ela parou o show para ouvir depoimentos de outras pessoas, além de discursar a favor do bem estar dos presentes. Até autorizou a subida de alguns fãs ao palco.

A setlist da apresentação passeou pelas músicas de seu primeiro álbum cheio, o Remonta, de 2016. Mas também teve outras, como a novaLava” e “Flutua“, parceria entre Johnny Hooker e Liniker, presente no álbum Coração. Mas, além da setlist, o show em si foi um ato de posicionamento político. Uma aula de empatia e de luz, por assim dizer.

 

“Quem faz arte, faz política”

Liniker e os Caramelows no Pipoca Festival
Foto: Natalia Capeans

Para quem não associou a data em questão, vale lembrar o evento aconteceu no mesmo dia que as manifestações pró e contra o presidenciável Jair Bolsonaro.

Dentre os vários discursos sociais, a favor da aceitação das diferenças de gênero, ouviu-se, ao longo do show, diversos gritos de “Ele Não”, não só como uma forma de repúdio a Bolsonaro, mas também como uma crítica ao machismo que permeia a nossa sociedade como um todo. Liniker é um dos nomes mais importantes da atual cena LGBT da música brasileira e, diante da proposta do evento, foi uma inteligentíssima escolha para headliner.

Ao longo da segunda música do repertório, a dançante “Louise Du Brésil“, o grupo deu uma pausa, cujo silêncio foi logo quebrado pelo próprio público, que começou a gritar “Ele Não!”. Pouco tempo depois, Liniker foi aos microfones para concluir seu pensamento ao dizer que “Quem faz arte, faz política”.

As críticas ao machismo continuaram quando, após uma confusão com seguranças, duas fãs da cantora subiram ao palco. Liniker deu a elas e microfone e, com isso, a oportunidade de que elas contassem seus relatos e lutas pessoais. O emocionante momento culminou com Liniker as abraçando, enquanto o público propunha as “hashtags” ElaSim e TravestiSim. A cantora ainda chamou atenção da organização do evento, pedindo para que os seguranças não abusassem de seu poder e que não atrapalhassem a experiência da apresentação.

Vale lembrar que ela, por si só, representa uma luta. O reconhecimento de uma cantora negra e trans na sociedade em que vivemos é muito importante e encorajador para uma série de pessoas que enfrentam preconceitos diariamente. Como ela mesma disse, Liniker faz política em seus shows e, convenhamos, uma baita política.

O show em si foi uma mensagem de amor e carinho com o próximo. Não só da parte de Liniker, mas de todos os seus colegas. Renata Éssis, a carismática segunda voz da banda, roubou aplausos da plateia ao cantar um trecho da clássica “Feeling Good“. A impecável parte instrumental também foi responsável por uma apresentação tão imersiva e emocionante.

Confira abaixo a setlist da apresentação do grupo Liniker e os Caramelows e algumas fotos do evento.

Aguardamos ansiosamente a próxima edição do Pipoca Festival!

Liniker e os Caramelows:

1. “Remonta”
2. “Louise Du Brésil”
3. “Lava”
4. “Lina X”
5. “Você Fez Merda”
6. “Zero”
7. “Sem Nome, Mas Com Endereço”
8. “Ralador de Pia”
9. “Tua”
10. “Boxokê”
11. “Caeu”
12. “Flutua”
13. “Prendedor de Varal”