Death Cab For Cutie 2018
Foto: Divulgação
 

Por Nathália Pandeló Corrêa

Parece que foi ontem que o Death Cab For Cutie conquistou os corações indie com “The New Year”, “Soul Meets Body”, “Crooked Teeth” e “I Will Follow You Into the Dark” — pra citar só algumas de seus discos mais elogiados, Transatlanticism (2003) e Plans (2005).

Mas já se vão 21 anos desde a primeira demo, e de lá pra cá a banda de Seattle teve lançamentos que foram sucesso de crítica e topo da Billboard… e outros nem tanto, como Codes and Keys (2011), recentemente escolhido pelo próprio Ben Gibbard como o disco menos legal do DCFC.

Isso porque desde então, o Death Cab passou a lidar com algumas mudanças fundamentais. Em Codes and Keys, por exemplo, Gibbard trocou de guitarra, perdeu o ânimo de tocar e foi compor no piano ou no computador. Kintsugi (2015) coincidiu com o divórcio do cantor e compositor e com a saída de Chris Walla, um de seus membros fundadores e produtor dos discos até ali. Foi quando o Death Cab se aliou a Rich Costey (Fiona Apple, Franz Ferdinand, Muse) e, a Gibbard, Nick Harmer e Jason McGerr se juntaram os músicos Dave Depper (Menomena, Fruit Bats, Corin Tucker, Ray Lamontagne) e Zac Rae (My Brightest Diamond, Fiona Apple, Lana Del Rey, Gnarls Barkley), que serviram de apoio na última turnê.

Agora o Death Cab olha pra frente com o lançamento de Thank You for Today, um disco que remete à sua melhor fase sem abrir mão de inovar. Coroando esse nono trabalho, a banda finalmente vem ao Brasil atender um antigo pedido dos fãs e se apresenta no Popload Festival em São Paulo. O show acontece no dia 15 de Novembro, e os ingressos estão à venda aqui.

Conversamos por telefone com o baixista Nick Harmer sobre esse novo momento do Death Cab For Cutie.

Confira depois do player!

TMDQA!: Oi Nick, obrigada por seu tempo. Estamos empolgados que vocês estão vindo ao Brasil, mas antes eu queria falar rapidinho sobre o disco novo. Eu sei que o Ben disse que as músicas falam de como somos afetados pelos lugares que habitamos, o que está ao nosso redor e isso foi muito inspirado pela gentrificação de Seattle e tudo mais… Mas o Death Cab sempre fez música sobre “verdades universais”, certo? Sobre amor, morte e as grandes questões da vida, e com isso todo mundo pode se identificar, morador de Seattle ou não. Mas à medida que o tempo passa e vocês ficam mais velhos e experientes, ficou mais fácil escrever canções sobre temas complicados assim?

Nick: Não sei… Quer dizer, não falaria que fica mais fácil. Mas acho que à medida que você vai envelhecendo, a sua perspectiva das coisas muda um pouco. Com a experiência vem um pouco mais de sabedoria. E nas nossas músicas a gente tenta abordar coisas pessoais e detalhes, mesmo. Gostamos de falar com as pessoas sobre a vida, sobre a nossa jornada pelo mundo, e acho que todos podemos nos relacionar com isso de uma forma ou outra. Acredito que as melhores músicas são as que sabem explorar isso, pegam coisas pequenas e as transformam em algo mais abrangente… Verdades universais, como você disse. Eu penso que quando você vai ficando mais velho, a forma como se relaciona com certas coisas muda, sabe? Às vezes algo que importava pra você quando era jovem não importa mais, e por outro lado, coisas que eram super importantes agora perderam impacto. Estamos sempre tentando entender melhor nossos sentimentos e de certa forma é isso que buscamos colocar nas nossas músicas.

TMDQA!: Vou te contar: eu já tinha ouvido Death Cab, mas eu vi vocês pela primeira vez num episódio de The OC! E era isso que se fazia pra divulgar um disco, mas aí pula uns 15 anos e já mudou tudo — tanto na música quanto na TV — então eu não espero necessariamente ver vocês numa sitcom, não importa o quão legal isso possa parecer!

Nick: Sim, com certeza seria! (risos)

TMDQA!: Mas então, vocês ainda vão ao Late Show e tudo mais, só que o jogo mudou. Significa que você conversa com pessoas como eu, que criam conteúdo ao redor do mundo, e não só com o New York Times. Vocês estão nessa já tem um tempo, então dá pra equilibrar o que o mercado e a mídia pedem de vocês, pra manter o status de “fama” da banda, mas ainda assim focar no que gostam? Tem algo nesse processo todo que te faz dizer, “ok, estamos ficando velhos demais pra isso”? (Risos)

Nick: Na verdade, não. Nós temos uma carreira que foi construída bem aos poucos, tudo foi acontecendo muito gradualmente pra gente. É fácil de administrar o nível de expectativas — tanto as nossas quanto das outras pessoas — quando não se é alguém extremamente famoso. Nós não somos o tipo de banda que tem um nome de super apelo e reconhecido, então isso não mexeu muito com as nossas vidas. Quer dizer, eu ando na rua sem ser reconhecido, não tenho um segurança igual pessoas muito famosas. Então a gente foca só no que gostamos de fazer mesmo, que é música. O perfil da banda é de manter as nossas responsabilidades, manter as coisas fluindo pra que possamos continuar fazendo nosso trabalho. Mas fora isso, é bem tranquilo.

TMDQA!: Ainda sobre o disco novo, eu estava ouvindo mais uma vez agorinha mesmo e lembrei que o site te entrevistou na época que saiu o Kintsugi. O Rich Costey foi bem essencial pra vocês chegarem no som certo naquele trabalho, então como foi voltar a gravar junto agora com mais experiência e sem ter de lidar com todas as mudanças que a banda estava passando naquela época?

Nick: Sim, fez toda a diferença. Pra gente foi muito importante trabalhar com o Rich, porque ele chegou a produzir a gente quando o Chris ainda estava na banda. Então ele sabia muito bem como era a nossa essência, e acabou acompanhando todo esse processo de definirmos a nova formação e tudo mais. Nós precisávamos dele pra garantir que iríamos nos manter focados em quem somos de verdade, e nunca perder isso de vista. Ele nos ajudou a passar por esse processo de transição mesmo, de buscar a sonoridade que queríamos com outros integrantes em estúdio. E estou bem orgulhoso desse disco, sabe? Acho de longe uma das melhores coisas que fizemos nos últimos anos, porque ele nos permitiu olhar pra frente sem perder as nossas referências. Conseguimos fazer algo alinhado com o que nos interessa musicalmente, no atual momento, que é relevante para quem somos agora. Estamos muito felizes com o resultado e empolgados que as pessoas estão ouvindo.

TMDQA!: Entre uma coisa e outra, vocês lançaram uma música sobre o Trump antes das eleições de 2016. Sinto que a banda ainda está um pouco preocupada com o rumo da administração dele, tanto que dedicou um show a Christine Ford [que acusa o indicado à Suprema Corte, Brett Kavanaugh, de tentativa de estupro]. Vocês pensam em escrever mais canções com esse teor, sobre o clima político na América, ou preferem fazer da música um refúgio e um espaço de conforto pra momentos assim?

Nick: Acho que pra gente, não faz muito sentido tentar se posicionar em uma direção ou outra, tem que acontecer de forma natural. O Ben, como compositor, tem esse desafio de ter disciplina de se manter sempre aberto. Ele precisa estar muito em contato com o que o move, seus sentimentos, as pessoas à sua volta e bem, a vida em geral. Se ele olha pra dentro e decide que tem que se manifestar sobre algo que está acontecendo no mundo, vamos fazer isso. Mas acho que não combina muito com a gente decidir sentar e escrever uma música política, sabe? Não é algo que fazemos mesmo. É importante que seja algo real e não artificial. Há muitas emoções atualmente… Não só nos EUA, mas no mundo. O nosso país está muito dividido, e é normal as pessoas falarem sobre isso. Muitos de nós acabam ficando nervosos e isso não é necessariamente bom. Outros só ficam tristes mesmo e bebem, como nós (risos). Não sei bem o que essa música significou dentro da nossa trajetória, mas ela fez sentido naquele ponto e é importante falar sobre esse momento que estamos passando.

TMDQA!: Falando em caos político… vocês finalmente vêm ao Brasil! Cara, não dá nem pra lembrar todas as vezes que ouvimos boatos sobre isso. É meio triste pra mim, porque não estarei lá, mas…

Nick: Poxa, que pena!

TMDQA!: Pois é! Mas os fãs de São Paulo certamente vão comparecer, e eu espero que você não se importe porque a gente canta alto mesmo (risos). Considerando que esse show tá uns 15 anos atrasado, queria saber se vocês planejam alguma surpresinha no repertório, se vão dar aos fãs a chance de ouvir algumas músicas das antigas que nunca viram ao vivo.

Nick: Com certeza. A gente sempre tenta buscar lá atrás no catálogo pra incluir o máximo possível nos shows, músicas de cada fase ao longo dos anos. Sei que algumas bandas ficam mais focadas em tocar material novo, mas no nosso caso gostamos de explorar o maior número possível de músicas que fizemos até aqui. Claro que não vai dar pra ficarmos lá tocando por três horas seguidas, porque os eventos têm hora pra acabar (risos), mas vamos mostrar algumas novas e muitas coisas antigas também. Estamos de olho nas redes sociais e vendo o que os fãs estão dizendo que querem ouvir e com certeza vamos levar isso em consideração na hora de montar o repertório. Vai ser a nossa primeira vez na América do Sul, e sabemos que estamos atrasados, então queremos realmente fazer algo especial pra vocês. Todos os nossos amigos de bandas que tocam aí falam que são países incríveis, não só pela cultura, comida e tudo mais, mas pelas pessoas e pelos fãs que cantam tudo. Estamos animados! Quem sabe o pessoal gosta e isso não motiva mais shows em outras cidades?

TMDQA!: Certamente vocês vão sentir um pouco do nosso calor humano! E já vou deixar aqui o meu pedido para o Rio!

Nick: Pois é, tá todo mundo perguntando pra gente por que não vamos ao Rio, mas eu realmente não sei dizer… Tem algo a ver com a promoção dos shows, mas nós vamos voltar ainda. E mil desculpas pela demora, queríamos ter ido aí bem antes.

TMDQA!: E só pra encerrar, a gente sempre pergunta aos músicos com quem conversamos sobre o que vêm ouvindo — o nome do nosso site tem muito a ver com essa relação próxima com a música, nos bons e maus momentos! Como já estamos em outubro, quais você diria que são os discos do ano, até aqui?

Nick: Nossa, essa é uma pergunta bem difícil (risos)! Eu diria que o disco que foi mais impactante pra mim esse ano foi o novo do Low, Double Negative, que saiu pela Subpop. Eu sou muito fã deles, acho que são uma banda muito consistente com tudo que lançaram ao longo dos anos e acredito que lançaram esse ano uma das melhores coisas da sua discografia. Vamos ver, o que mais… Tem também o novo disco do Jon Hopkins, Singularity, que é excelente. Mas se tiver que citar um só, pra mim seria o do Low, no primeiro lugar.

TMDQA!: Já tá ótimo. Obrigada, Nick. Sei que vocês têm show logo mais, então não vou te segurar. Espero que goste do Brasil e voltem em breve!

Nick: Sim, eu também. E obrigado pela entrevista!