Lenny Kravitz - Raise Vibration
 

Resenha por Nathália Pandeló Corrêa

Muito além das baladas que povoam as trilhas sonoras de novelas, Lenny Kravitz faz uma música grooveada baseada tanto nas guitarras de Jimi Hendrix quanto no funk e R&B da Motown, passando pelo pop de Prince. O resultado é uma carreira que culmina hoje no lançamento de seu 11º disco, Raise Vibration.

Do alto de seus 54 anos, Lenny Kravitz consegue ousar sem pisar uma linha fora da carreira que vem construindo pelos últimos 30. Lá em 1989, quando lançou Let Love Rule, ele já mirava nas mesmas referências e abordava os mesmos assuntos. Ainda assim, Raise Vibration repagina todas essas inspirações sem cair no piegas e no clichê, potencializando as maiores forças de Kravitz: letras intimistas, riffs poderosos, uma bateria marcante e muitos metais.

Impossível ignorar que Lenny Kravitz faz tudo isso praticamente sozinho. Como uma banda de um homem só, há anos ele se tranca em seu estúdio caseiro, nas Bahamas, e compõe, grava vocal e quase todos os instrumentos – exceção para os sopros e a guitarra cativa de Craig Ross, que o acompanha pela carreira toda. Ao vivo, a conversa é outra: além do próprio Ross, Cindy Blackman retorna à bateria – após se ausentar para tocar o próprio projeto de jazz e acompanhar o marido Carlos Santana – e Gail Ann Dorsey traz o seu brilhantismo ao baixo, construído ao acompanhar David Bowie por muitos anos. Essa é a base da sua banda que atualmente está em turnê e deve aportar no Brasil no próximo Lollapalooza.

O controle sobre cada faixa é absoluto e sentido ao longo de todos os discos de Lenny Kravitz. Seja nas músicas mais intensas – como “The Majesty of Love”, percussiva e dançante – ou nas mais minimalistas – como “Low”, completamente embasada na bateria -, Kravitz é ao mesmo tempo um artista ímpar no cenário atual e o resultado claro de suas influências. Do dia que viu o Jackson 5 no Madison Square Garden aos seis anos até agora, ele exibe os ídolos com orgulho em cada acorde. Nunca tentou ser Hendrix, Lennon, Brown – mas canaliza abertamente suas influências musicais e estéticas. Dessa colcha de retalhos, o resultado é uma sonoridade impossível de classificar em um só gênero.

Talvez por ser o 11º disco, Raise Vibration não tem pressa. São 12 músicas, a mais curta delas (a última, “I’ll always be inside your soul”), com 3:58; a mais longa (“It’s Enough”), com 7:55, permeadas por uma sucessão de músicas de quase seis minutos. Baladas melancólicas quase não têm espaço em meio à psicodelia de “We Can Get it All Together” e da faixa-título, ao pop de “5 More Days Til Summer”, ao saudosismo de Johnny Cash.

Na primeira parte do álbum, Kravitz surge provocador. Dividido entre a pergunta – “Who Really Are The Monsters?” – e a resposta – “We Can Get It All Together” -, ele se vê em um segundo momento refletindo sobre espiritualidade em Raise Vibration, falando de amor em “Here To Love” até desembocar em “It’s Enough”, uma canção grandiosa sobre ganância por dinheiro e poder, racismo e a destruição do que nos torna humanos. “5 More Days Till Summer” e “The Majesty of Love” retomam o otimismo, enquanto as canções finais remetem ao lado mais introspectivo do trabalho de Kravitz.

O novo álbum é uma progressão natural em uma discografia inteira construída entre a dualidade das histórias e memórias pessoais e temas universais como amor, fé, identidade. Lenny segue cantando sobre ser um homem negro, como já fazia em “Mr. Cab Driver” e “Black and White America”; sobre a perda de sua mãe, como fez em “Thinking of You”; sobre acreditar que podemos ser melhores do que somos agora, remetendo a “Believe”.

O que não mudou do artista quase andrógino de Mama Said, para o psicodélico na capa de Are You Gonna Go My Way e Circus, para um retorno às raízes presente em It Is Time For a Love Revolution foi, certamente, a constante busca por recriar o passado e ser uma voz de seu tempo. E nesse quesito, Lenny Kravitz segue acertando.

Ouça o novo disco do The Who!    
 
REVIEW GERAL
Nota
8.5
Compartilhar