Assim como boa parte do Brasil, São Paulo tem vivido dias de bastante frio nos últimos meses, e era de se imaginar que o tempo continuaria assim no último final de semana quando o Coala Festival tomou o Memorial da América Latina, na Barra Funda, para dois dias de shows grandiosos.

Acontece que foi só o Sábado amanhecer com um Sol daqueles dignos de nota para perceber que as apresentações aconteceriam sobre um calor intenso que foi tomando conta da multidão que chegou cedo para ver as primeiras atrações do festival.

Em 2018 o Coala Festival resolveu expandir o seu formato e ao invés de apresentar tudo em um dia só, dividiu o interessante line-up em um fim de semana inteira, e o primeiro dia foi aberto com chave de ouro pela Francisco, el Hombre, que tem hoje um dos melhores shows do país.

A banda que está em uma fase de transição gravando seu próximo disco não deu muitas pistas do que vem por aí no álbum e apresentou um show baseado em Soltasbruxa, o ótimo álbum que foi ganhando vida na estrada com um show que alterna momentos de intensidade, interações com a plateia, recados políticos e muita emoção com a sempre marcante “Triste, Louca ou Má”.

Com o Sol batendo em cheio no palco e no público, ficou claro que o grupo tem domínio do que faz no palco e, não à toa, foi colocado como atração de abertura para fortalecer uma tática que tem rolado em festivais de fazer com que o público chegue mais cedo para ver um dos principais shows. Se é válido eu ainda não sei, porque muita gente durante o dia lamentou que perdeu o show, mas é uma abordagem interessante que pode ganhar força em outros eventos Brasil afora.

Francisco El Hombre no Coala 2018
Foto: Stephanie Hahne

Seguindo essa linha logo depois tivemos o ÀTTOOXXÁ, grupo que mistura pagode baiano, música eletrônica e até guitarras inspiradas no Heavy Metal para promover uma verdadeira festa.

O show dos caras é um dos mais requisitados no país atualmente e rende uma verdadeira festa pra quem está por ali se acabar dançando na pista ao som dos riffs, das batidas e dos graves.

Menos impactante do que uma apresentação à noite, a performance do ÀTTOOXXÁ no Coala Festival ainda mostrou por que o nome do grupo é tão falado e celebrado no circuito de festivais pelo Brasil: muita entrega no palco, energia e a clara percepção de que os músicos ali no palco estão se divertindo muito ao divertirem quem está à frente deles.

A festa no Coala continuou com o show da Academia da Berlinda que teve a companhia mais do que especial de Lula Lira, filha de Chico Science, e inundou o palco de alegria antes da apresentação de outro nome que vem chamando a atenção nos festivais do país.

Xênia França subiu ao palco com uma presença incrível e parecia bastante à vontade brincando com seu cabelão enquanto entoava as canções do setlist e também falava bastante sobre empoderamento feminino, questões sociais e políticas e interagia com os outros músicos de sua banda.

Xênia França no Coala 2018
Foto: Stephanie Hahne

Durante o show ela teve diversos problemas técnicos que claramente a deixaram desconfortável em alguns momentos e também fizeram com que o som que viesse ao público tivesse chiados e microfonias, e Xênia fez questão de falar sobre como entendeu tudo isso como uma espécie de “aula” para superar momentos difíceis em um post no Instagram.

Ela pode ficar tranquila porque mesmo com tudo isso, foi um prazer ver alguém que claramente ama tanto a música e a possibilidade de estar ao microfone para passar mensagens tão importantes.

Quem veio depois foi o bombadíssimo Baco Exú do Blues, baiano que ganhou o coração de crítica e público com Esú, seu disco de estreia lançado em 2017.

Com um show extremamente animado e usando uma camiseta do Black Sabbath, o rapper foi acompanhado de banda e do músico Xan Luango, e levantou a plateia após o show mais calmo de Xênia. Baco pedia a todo momento que seus fãs dançassem, pulassem e cantassem os versos de suas canções.

E falando nelas, faixas como “Abre Caminho”, “Esú”, “Banho de Sol” e mais estavam no repertório. Fechando a apresentação enérgica estava o hit “Te Amo Disgraça”, que ganhou a internet no ano passado e virou até meme.

O responsável por fechar o primeiro dia do Coala foi o sempre ótimo Gilberto Gil. Acompanhado de sua banda composta por músicos incríveis — e onde três deles são seus filhos — o cantor lendário mostrou disposição e satisfação em estar ali.

Já no começo do show, Gil se derreteu em agradecimentos para quem esperou por sua apresentação embaixo do sol escaldante que tomou conta da tarde no festival. E a galera estava empolgada! Dali do pit de fotógrafos, era possível ouvir a todo momento fãs gritando “Lindo! Gostoso!” para um Gil que se divertia.

Gilberto Gil no Coala 2018
Foto: Stephanie Hahne

No setlist do show, aberto com “Tempo Rei”, o cantor fez espaço também para covers de Bob Marley, cantados a plenos pulmões pelo público. Gil tocou também “Andar com Fé”, “Aquele Abraço”, “Back in Bahia” e novas do disco Ok, Ok, Ok, lançado neste ano, e muito bem recebidas. Em determinado momento, ao discutir política, o cantor foi embalado em um coro de “Fora, Temer” e “Lula Livre”, demonstrando seu apoio ao ex-presidente.

Com muita animação e gratidão, Gilberto Gil encerrou o primeiro dia do evento com um show belíssimo, recompensando o perrengue que o calor fez seus fãs passar ao longo do dia.

Segundo Dia

O segundo dia do Coala Festival 2018 começou com Johnny Hooker, mais Sol, mais calor e muita gente cantando as músicas de um dos músicos mais performáticos do país.

Ao se apresentar e passear pelo palco, ele fez caras, bocas, mandou ver em um beijão de língua no guitarrista da sua banda e brincou dizendo que estava ali para uma matinê, com “Johnny Hooker só para crianças viadas”.

De forma bastante singular e impactante, Hooker faz um show que mistura elementos diversos da música brasileira, principalmente nordestina, com traços latinos e música contemporânea.

Começando a todo vapor, com o público ao seu lado, Johnny deu uma desacelerada no meio do show antes de encerrar com “Flutua”, parceria com Liniker que foi cantada pela maioria dos presentes.

Johnny Hooker no Coala 2018
Foto: Stephanie Hahne

O carioca Rubel deve estar acostumado com o Sol, e subiu ao palco do Coala quando o astro-rei ainda castigava os presentes, apresentando sua mistura de nova MPB com folk cheio de traços do indie e encantando o público com suas letras.

Com todos os moldes de um show intimista, a apresentação perdeu um pouco do impacto em um palco gigantesco no meio da tarde, mas ainda assim mostrou por que, divulgando um dos grandes discos nacionais de 2018, Rubel é requisitado pela maioria dos festivais brasileiros de hoje em dia.

Na sequência tivemos Mano Brown e seu show voltado ao funk com o projeto Boogie Naipe, e não dá pra negar: a festa está garantida quando o rapper conhecido pelo trabalho nos Racionais sobe ao palco ao lado de sua trupe de talentosos instrumentistas e cantores.

O show tem boas vibes do início ao fim, mas poderia usar pelo menos um pouco mais das habilidades de Mano Brown como um dos rappers mais influentes e talentosos da história do país. A gente entende que a proposta é outra e que, claramente o músico estava se divertindo no palco, mas uma pitada do trabalho que o consolidou para o público brasileiro cairia muito bem no meio da apresentação que ele leva aos palcos com Boogie Naipe.

Mano Brown no Coala 2018
Foto: Stephanie Hahne

Outra artista que está começando a aparecer nos line-ups de quase todos os festivais Brasil afora é Luedji Luna, e a gente não tem medo de dizer que ela fez o melhor show do Coala Festival.

Com uma voz incrível e uma presença de palco hipnotizante, suas roupas verdes combinaram com o belíssimo palco do Coala e todas as suas samambaias, e transformaram tudo em uma grande mostra de talento.

Com um time de mulheres nos instrumentos de sopro, Luedji percorreu seu set com a maestria de uma artista consolidada, mesmo estando em evidência há pouco tempo.

Luedji Luna no Coala 2018
Foto: Stephanie Hahne

Se em 2017 ela nos apresentou ao seu trabalho com Um Corpo No Mundo, os próximos meses definitivamente reservam coisas ainda mais grandiosas para uma artista que você deveria acompanhar de perto.

A organização do Coala Festival reservou colaborações interessantíssimas para o seu encerramento, e a primeira veio quando o grupo Ilú Obá de Min apresentou o seu trabalho voltado à cultura afro e recebeu as incríveis Juçara Marçal e Elza Soares para participações especiais.

Elza Soares no Coala 2018-5
Foto: Stephanie Hahne

Sempre presente de forma incrível no palco, Elza entrou para cantar algumas músicas do seu disco mais recente, como “Banho, que tem participação do grupo na versão de estúdio, e a imponente “Exú nas Escolas”, que teve ainda mais impacto ao vivo quando acompanhada pelo Ilú Obá de Min.

A outra dobradinha da noite veio para encerrar o Coala Festival 2018 quando Milton Nascimento recebeu Criolo e proporcionou grandes momentos no palco.

Antes de receber o rapper paulistano, ele cantou verdadeiros clássicos como “Para Lennon & McCartney”, “Encontros e Despedidas” e “Bola de Meia, Bola de Gude”, prendendo a atenção dos espectadores para um passeio pelo repertório de um dos artistas mais importantes que o Brasil já produziu.

Quando Criolo subiu ao palco veio uma versão sensacional de “Não Existe Amor Em SP”, maior sucesso do rapper que, como é de costume, se emocionou quando as milhares de pessoas cantaram tudo junto e ainda ouviu trechos sendo entoados por Milton Nascimento.

Após a performance Criolo falou sobre como vivemos em uma sociedade cheia de ódio mas que ainda tem muito amor, e frisou que só o amor transforma, celebrando aquela noite ali onde tantos se amavam das mais diversas formas e mostravam também todo seu amor pela música.

Milton Nascimento + Criolo no Coala 2018-4
Foto: Stephanie Hahne

Ele ainda mandou ver em “Menino Mimado”, do seu mais recente disco voltado ao samba, e voltou a mostrar duetos com Milton Nascimento em canções como “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, que foi censurada na época da ditadura.

O show ainda teve espaço para outros grandes clássicos como “O Que Será” e “Travessia”, que teve uma “invasão de palco” por Maria Gadu, cantando junto com os dois e usando um boné do MST.

Foi um fechamento digno de um festival que contou com 11 mil pessoas no seu primeiro dia e 13 mil pessoas no segundo, consolidando-se como um dos grandes eventos de São Paulo e se colocando na lista de um dos eventos musicais mais importantes do Brasil, muito por conta do seu line-up que busca mesclar clássicos da música brasileira com novos artistas em uma onda urban que, sem dúvidas, agradou e fez com que o Coala chegasse a um novo patamar.

O TMDQA! esteve no Coala a convite dos hotéis Ibis no Sábado.