Por telefone, uma simpática Shirley Manson nos atende no meio de uma extensa agenda para divulgar o relançamento do seminal Version 2.0, disco do Garbage, 20 anos depois em uma versão deluxe.

Eu digo que será uma entrevista diferente, pois não serão jornalistas conversando com ela e sim duas artistas, a Emmily Barreto e a Cris Botarelli, do Far From Alaska. Shirley sensivelmente se alegra do outro lado da linha.

Eu amo essa banda. Acompanho de perto as coisas que eles fazem.

A relação entre o Garbage e o Far From Alaska vem de longe. Na verdade, vem do começo da banda brasileira. O primeiro show deles foi ganhando um concurso para tocar em um festival com o Garbage. Após o show, a FFA encontrou Shirley no lobby do hotel e resolveu tietar, como fã mesmo. Ao ver os crachás do festival, a cantora escocesa quis saber mais sobre eles e chegou a divulgar a banda nas redes sociais. Anos depois, durante a turnê do disco Strange Little Birds, os potiguares foram convidados para abrir o show.

Sabendo dessa relação, foi imediata a ideia de chamar as meninas para um papo com a Shirley. Ela foi adorável e antes de começar a entrevista deixou claro que estava muito feliz com o sucesso da Far From Alaska. O que era para ser um papo sobre esse relançamento e sobre revisitar músicas do passado virou uma ótima troca de ideia sobre a criação artística e o papel da mulher nisso tudo. Uma verdadeira aula.

Confira abaixo ao som do Version 2.0 na versão deluxe:

Emmily Barreto: Passaram-se 20 anos desde lançamento do Version 2.0 e vocês estão pegando a estrada para fazer esse relançamento. Como está sendo revisitar essas músicas depois de duas décadas?

Shirley Manson: Está sendo muito curioso, sabe? Não estamos somente revisitando as músicas, mas nós mesmos. Quando você começa a criar, você está com toda a empolgação, atirando para todos os lados e em todas as pessoas, cheio de ambições e sonhos e olhar isso vinte anos depois, redescobrindo quem você era, pensava e desejava e onde isso continua é incrível. Descobri que acho que não cresci muito! (Risos)

É uma experiência única. Quando você é jovem, imagina que quando for mais velha vai ter mais maturidade, experiência, vai ter uma visão única e diferenciada da vida… Mas olha, não funciona bem assim. Existiu um momento, logo após a turnê do Version 2.0 ter acabado, com todo o sucesso que o disco fez e mais de dois anos de estrada, em que olhamos uns para os outros e pensamos “nós nunca mais queremos tocar essas músicas”. (Risos)

Cris Botarelli: Sim! A gente sabe o sentimento! (Risos)

Shirley Manson: Mas isso vai mudar! Hoje a gente ouve e toca essas músicas com um carinho diferente, com um orgulho, sabe? Foi um disco que conectou tão forte com tanta gente e que continua fazendo isso 20 anos depois… Realmente tenho muito orgulho disso, mesmo com seus defeitos e imperfeições.

Cris Botarelli: Espero que a gente consiga sentir o mesmo daqui a 20 anos!

Shirley Manson: (risos) Sim, espero!

Cris Botarelli: Estamos conversando sobre o segundo disco de vocês e a gente mesmo lançou recentemente o nosso segundo. E muita gente se perguntava se ia ser diferente, como ia soar, se ia ser igual…

Emmily Barreto: Até com certa pressão…

Cris Botarelli: Sim, uma certa pressão. Com pitacos de como deveria ou não deveria ser. Quando vocês fizeram esse disco existiu algum tipo de pressão desse jeito? O que passava na cabeça de vocês?

Shirley Manson: Nós tínhamos uma ideia bem clara do que queríamos desde o começo. O primeiro disco era bem guiado nas guitarras, mas queríamos incluir muito da nova tecnologia e possibilidades técnicas que tinham na época. É até estranho falar sobre isso em 2018, com tantas possibilidades, mas tudo que incluímos de novo no som do disco… As controladoras, sintetizadores, eram equipamentos novíssimos. Nós só havíamos trabalhado com gravação analógica, aí quando surgiu a possibilidade de fazermos digital, um novo mundo se abriu. O disco em si era, desde o começo, um resultado desse ambiente, que era muito mais eletrônico.

Quando lançamos e recebemos as opiniões de fãs e críticos, alguns estavam empolgados e outros disseram que éramos vendidos e estavam desapontados. Mas você como artista, a banda em si como artistas, tem que se fortalecer para manter firmes suas posições, opiniões e desejos criativos, acima das críticas e negatividade.

Acho que isso é um ponto-chave para se sobreviver no mercado da música. Você tem que acreditar verdadeiramente em suas convicções e defendê-las.

Cris Botarelli: Nossa, é bem importante pra gente ouvir isso de você. E nós somos uma banda de rock e você sabe como os fãs são. Se você não for pesado o bastante, eles começam a falar como deveria ser. E eu tive essa curiosidade por vocês. Todos os passos que vocês deram pareciam muito planejados, pensados…

Shirley Manson: Mas acho que isso parece mais real vendo em perspectiva, sabe? Na época, era uma montanha-russa de emoções. Nós estamos pensando em seguir nossas convicções e criar o nosso caminho. Eu, enquanto mulher nesse meio, queria criar o meu caminho. Mas é complicado. Exigiu muito de mim que eu mantivesse a minha integridade como artista, ainda mais para manter uma carreira longa. Mas vale muito, para paz interna. E garotas, vocês não podem agradar a todos! (Risos)

Emmily Barreto: Eu tava quietinha porque estava refletindo sobre tudo…

Cris Botarelli: Realmente! E o Version 2.0 foi uma mistura de eletrônico, rock e várias coisas alternativas. Você se lembra o que vocês ouviam quando fizeram esse disco?

Shirley Manson: Aquela cena sensacional britânica que estava começando a aflorar na época, com o Prodigy, o Massive Attack até chegar no Portishead e Tricky. Eram artistas que tiveram um efeito direto na gente e no que queríamos da banda em si.

Emmily Barreto: Na época vocês falavam diretamente dessas influências?

Shirley Manson: Sentíamos que tínhamos que falar, sim, o que nos influenciou até como forma de homenagem, de agradecimento. É um elogio enorme que você faz para outro artista dizer que algo que ele fez tocou profundamente e fez uma transformação em você.

Cris Botarelli: No Brasil as pessoas sempre perguntam isso quando as bandas lançam algo e às vezes as bandas ficam com receio de parecer que estão… imitando, ou colocando numa categoria específica…

Shirley Manson: Sei como é, mas você não pode deixar que essa categoria molde a banda. Você pode estar momentaneamente em um lugar, mas a graça da arte é poder mudar tudo quando dá vontade de mudar. Sei que é difícil lidar com o que as pessoas pensam de você e sua banda. Pra gente foi um pouco mais fácil pois estávamos um pouco mais velhos, com menos inseguranças… Quando você é jovem é complicado. Tem dias que hoje, na minha idade, eu ouço algo que me deixa triste. Mas quando você é novo parece que você só ouve as negatividades e críticas e esquece dos elogios. Teve um momento, bem no começo da carreira, que eu me afoguei nisso. Eu simplesmente não conseguia ver algo bom pois só olhava para aquelas palavras mais duras.

Quando você é novo, você procura afirmação. Mas vá por mim. Não dá pra achar isso nos outros. Os outros estão tão inseguros quanto você! Eu sei que parece algo fácil de se falar e difícil de se cumprir, mas é algo que eu falo sempre para bandas novas: foque em vocês e no positivo.

Cris Botarelli: O site pelo qual estamos falando com você se chama Tenho Mais Discos Que Amigos e queremos saber se você também tem mais discos que amigos…

Shirley Manson: (risos) Definitivamente! Eu tive uma enchente terrível na minha casa na Escócia uns anos atrás e perdi toda minha coleção de discos. Eu sei que é terrível, mas agora eu estou recriando esse coleção aos poucos e mesmo assim… tenho mais discos que amigos! (Risos)

E meninas, antes de terminarmos. Me mandem um alô agora no Instagram, vamos conversar. Sempre que precisarem de ajuda, podem contar comigo. Obrigado pela conversa que foi deliciosa e desejo tudo de lindo pra vocês. Se fortaleçam e sejam guerreiras!

Cris Botarelli e Emmily Barreto: Muito obrigada!