(Reprodução/YouTube)

O Minimoog é um modelo de sintetizador compacto, criado nos anos 70, que veio para facilitar o uso desses instrumentos por bandas no palco. A Nação Zumbi é uma das bandas mais inventivas do rock nacional e uma das criadoras do movimento Manguebeat nos anos 90.

A mistura desses dois elementos só poderia resultar em um som desafiador, cheio de peso e beleza estética. Principalmente através das mãos de um dos maiores tecladistas brasileiros, o catarinense Carlos Trilha.

O músico acaba de lançar o álbum Moogbeat – Nação Zumbi para Minimoog, em que escolheu algumas das principais faixas da banda, sintetizou e embaralhou o som de cada instrumento presente nelas, inclusive os percussivos. “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada”, “Quando a Maré Encher” e “Prato de Flores” são algumas das músicas que entraram nessa viagem.

Nós entrevistamos Carlos Trilha, especialista em sons eletrônicos que já trabalhou com Renato Russo, Marisa Monte, Erasmo Carlos e Gal Costa, entre outros. Em mais de 30 anos de carreira, ele também atuou como produtor e arranjador.

Ele disse que a ideia inicial era apenas fazer uma homenagem aos amigos da Nação. No fim, foi quase um ano de um trabalho artesanal e solitário, que resultou numa sonoridade tão enérgica e inovadora quanto o trabalho original.

O disco Moogbeat – Nação Zumbi para Minimoog será apresentado ao vivo neste fim de semana em Florianópolis. Confira nosso papo abaixo e o serviço do show no fim da matéria.

TMDQA! entrevista Carlos Trilha

TDMQA!: Antes de tudo, “Moogbeat” é um nome genial, parabéns por isso e pelo trabalho! O manguebeat surgiu mais ou menos na mesma época em que você iniciou na música, no fim dos anos 80 e início dos 90. Que peso essa inovação musical de Chico Science e companhia teve pro seu desenvolvimento como artista?

Carlos Trilha: Eu conheci o som da Nação mais de perto somente no final dos anos 90, apresentado por um amigo que era fã. Naquele momento disse a mim mesmo: esse som é novo, é forte e é o som com as guitarras pesadas do rock mais brasileiro e genuíno que já ouvi. Não podia imaginar na época o que o contato com essa música faria comigo, nem que me aprofundaria de tal maneira no conceito por trás daquele som. Depois que convivi com eles tocando em uma tour da Marisa Monte, comecei a frequentar os shows da banda, fui então definitivamente arrebatado pelo peso das alfaias somado ao baixo e a bateria com a força da guitarra incendiando o público em seus shows. Recriar tudo isso no sintetizador foi uma forma de tentar compreender os mistérios dessa força e fazer uma declaração pública de reverência à banda, e claro, uma maneira de também mostrar a eles a admiração que desenvolvi pelo trabalho da Nação ao longo desses anos.

TDMQA!: Você acredita que sua releitura eletrônica pode aproximar a obra da Nação Zumbi de uma geração mais nova? Quais foram suas motivações pra iniciar esse trabalho?

Carlos Trilha: Pelo que eu pude observar nos shows, o público da Nação já é bastante variado nesse sentido, mas levar para um público diferente, acredito eu, pode ser sim que aconteça. Em uma audição para amigos em meu estúdio, três pessoas que estavam presentes não conheciam absolutamente nada de Nação Zumbi e depois de ouvir o Moogbeat ficaram muito interessadas em conhecer o trabalho original da banda, e claro, foi imediatamente apresentado (eles adoraram). A música da Nação já é conhecida no mundo inteiro, mas acho que o Moogbeat tem potencial para levá-la a outros nichos musicais, assim como, levar o próprio público da Nação a ouvir outros sons. Por ser um álbum totalmente instrumental, o que a princípio poderia ser visto como uma limitação, na verdade se esquiva de qualquer fronteira possivelmente gerada pela língua portuguesa.

O Moogbeat iniciou simplesmente como um desafio musical secreto, o da recriação em um único sintetizador monofônico de toda aquela mágica sonora da mistura das guitarras com os tambores africanos e, no fundo, foi um pouco a vontade de impressionar meus amigos da Nação. Não falei nada sobre ele para ninguém, até ver o que sairia de fato. Aconteceu que resultado da primeira música me surpreendeu muito, e só então, pude perceber que o que eu fazia soava como novo, e que realmente tinha uma riqueza sonora e artística toda aquela maluquice que eu havia me proposto dois meses antes. Quando apresentei a primeira faixa ao Pupillo (produtor e percussionista da Nação), ele de cara sugeriu a ideia de eu fazer um álbum inteiro naquele formato, mas eu não sabia realmente se eu conseguiria repetir o mesmo feito, como havia acontecido em “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada”, a primeira a ser sintetizada. Parti para a recriação de “Prato de Flores”, por sugestão do próprio Pupillo, e esta ficou super soft e lisérgica, ao contrário da primeira música, que é uma das mais pesadas do álbum. A diferença sonora entre essas duas me animou de vez, percebi que poderia fazer algo realmente interessante, e novo até mesmo como forma de usar o Minimoog, e aceitei o desafio do álbum completo, que levaria então mais um ano para ser realizado.

TDMQA!: Me parece que a produção desse trabalho foi bastante artesanal, solitária e usando um único instrumento. Mas o resultado, ao contrário, é dinâmico e enérgico. Em que parte do processo acontece essa “mágica”?

Carlos Trilha: Essa é uma pergunta muito interessante, pois realmente existiu, em cada uma delas, um dado momento da produção em que tudo gravado passava a funcionar em conjunto e a música adquiria a mesma atmosfera da original, o que era, na verdade, o meu objetivo principal: atingir o mesmo clima da Nação. Não foi nada fácil, às vezes jogava tudo fora já com dezenas de canais gravados, por ver que não conseguiria atingir o mesmo clima, e eu tentava outro caminho. Em muitas ocasiões mudava de música para trocar o foco e renovar a criatividade para depois retomar o trabalho na música que eu havia interrompido. “Cicatriz”, por exemplo, fiz toda a base em 3 dias e as partes que fazem os temas principias só fui encontrar um caminho legal dois meses depois. Cada música tem sua história, seu próprio som. Como dogma do desafio proposto era proibido reutilizar timbres, eu não poderia, por exemplo, “samplear” um som de alfaia de uma música para adiantar o processo de outra. Não existe qualquer som repetido digitalmente em todo o álbum, a cada “caixada”, cada nota, é uma nova onda, talvez por isso soe tudo tão orgânico, apesar de ser feito no sintetizador.

(foto: Alessandra Marfisa)

TDMQA!: Sobre o “Concerto para Sintetizadores”, que está em criação: só o fato de um músico estar “operando” vários sintetizadores ao mesmo tempo o palco já é muito interessante e atrativo. Você aposta nessa performance solo ou vai investir em banda ou até em elementos visuais?

Carlos Trilha: Os “sintezistas”, como eu, são criaturas solitárias por natureza, gostam de mergulhar no mundo dos sons em seu tempo, experimentar, viajar sozinhos no mundo encantado dos sintetizadores, mas para tocar ao vivo, por outro lado, é muito bom ter com quem dividir os momentos de êxtase no palco. Já toquei em grandes bandas e gosto de tocar em conjunto, mas tocar sozinho é mais desafiador e te dá uma liberdade que em conjunto não é possível de ter, como mudar a forma, ou mesmo parte do repertório no ato do show.

TDMQA!: Você, quando não está se dedicando às “invenções” com sintetizador, está produzindo, gravando ou excursionando como tecladista para grandes nomes da música brasileira. Como você descreveria o mercado da MPB hoje em dia? O que te dá mais retorno, financeira e emocionalmente?

Carlos Trilha: Isso é um pouco complicado de responder, pois eu não penso mais em um mercado musical apenas e sim em um cenário, pois existem vários mercados que compõe nosso cenário musical brasileiro, alguns vão bem e outros não. Gosto de muitas coisas novas que tem aparecido, bandas com harmonias e arranjos bem trabalhados como Donica e Sinara, e muitos compositores buscando caminhos estéticos diferentes, como o Jongui. Mas essas coisas mais interessantes artisticamente ainda não chegaram a muita gente pois trabalhos mais rebuscados tem pouco acesso à mídia de massa e tem dificuldade de produzir, ganhar a vida e ainda ter tempo para trabalhar a divulgação de seus projetos. O cenário está muito rico musicalmente, mas a grande maioria dos artistas não entendeu ainda que quem vive de arte precisa antes de exigir, empreender, ter noção real dos números e do seu tamanho nas ruas, e que é preciso ser a cigarra e a formiga ao mesmo tempo. Tem gente assinando com gravadora multinacional e achando que seus problemas acabaram, sem entender que precisam trabalhar junto como parceiros e não somente exigir que as coisas aconteçam.

Vejo também muita gente preocupada em ter milhares de likes, e que caem na armadilha de comprar acessos e plays, e não entendem que desta forma não terão real noção da demanda por sua arte impossibilitando o planejamento das ações. O mercado fragmentou e cada um que não faz o estilo dominante do mainstream precisa encontrar o seu nicho na “cauda longa”, entender quem é seu público e encontrar a forma de trabalhar para atingi-lo, e não é fácil, pois depende de muito trabalho. A mente da maioria dos artistas mais antigos, por sua vez, está ainda fixa na ideia da divulgação de massa, mas não tem mais dinheiro pra isso, e muitos dos novos querem conseguir as coisas sem estudar, sem ensaiar. Há esperança, aqueles antigos que entenderam a fragmentação do novo cenário estão indo muito bem, e os novos que sabem reverenciar e aproveitar o caminho aberto pelos anteriores também. Tem muita gente que já entendeu, mas a maioria parece perdida. Penso que tem espaço pra todos, afinal somos 200 milhões de potenciais consumidores de música, muito criativos e competentes, mas não aprendemos ainda a vender o nosso trabalho para podermos viver dignamente da arte como opção de vida. Como produtor, prefiro trabalhar com bandas, em vez de artistas solo, pois acho mais fácil a parte psicológica do trabalho, gosto de orientar no que posso mas deixar a vontade para fazerem o trabalho com seu próprio jeito. Os artistas solo ficam mais dependentes de você e as crises são mais comuns, mas nos dois casos essa simbiose musical entre produtor e artista sempre são relações enriquecedoras. Gosto também de finalizar trabalhos de outros produtores em meus estúdios, aproveitando minha experiência para dar uma garantia técnica, mas com qualidade artística, para quem tem um pouco menos experiência. Isso me renova e expande minha rede, fiz coisas muito legais ultimamente nesse tipo de trabalho.

Serviço

Carlos Trilha – “Concerto nº1 para Sintetizadores”
Dias 24, 25 e 26 de agosto de 2018 – sexta e sábado às 21 horas e no domingo às 20 horas.
Teatro da UFSC, Praça Santos Dumont, Trindade, Florianópolis (SC)
Ingressos a R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia-entrada). Venda antecipada de ingressos online em sympla.com.br/carlostrilha ou na Bilheteria do Teatro da UFSC, nos dias do show.