cellardoor
Foto: Roberto Seba
 

cellardoor é um projeto solo do artista capixaba André Graciotti, que acaba de lançar um novo álbum.

Seashores & Riversides tem nove faixas e foi feito em parceria com cantoras estrangeiras que o produtor e compositor conheceu enquanto navegava pela Web.

O disco inova ao ter seu encarte apresentado através de um perfil no Instagram: @seashores_and_riversides. Através da rede social, cada post apresenta visualmente as novas músicas em um formato apropriado para a produção e a recepção em 2018, assim como revela um pouco mais do conceito da obra.

Para entender melhor este trabalho, pedimos para que Graciotti fizesse um faixa a faixa, descrevendo cada canção. Ouça Seashores & Riversides ao fim da publicação!

1 – Vicarious Act

Foi a última música a ficar pronta e talvez a mais demorada. Duas outras cantoras assumiram essa colaboração e tiveram que desistir no meio do caminho por problemas pessoais. Por sorte, conheci a Serenn, que não só foi muito rápida e profissional, como mostrou um timbre de voz que melhor se encaixou na música dentre todas as que assumiram os vocais até então.

A virada abrupta do fim foi uma ideia que tardou a vir — estive com a faixa quase finalizada por meses sem saber o que fazer após o segundo refrão, rs. Acabou se tornando um dos meus momentos favoritos do álbum.

2 – The Weight

A mais eletrônica e frenética do álbum. É outra que fiquei por muitos e muitos meses com os versos — que sempre imaginei cantados em sílabas que se alternam nos lados do estéreo — e a parte instrumental definidas — partindo da ideia de que queria um eletrônico industrial pesado que soasse como um maquinário em funcionamento, aliado a tambores tribais (algo próximo ao que bandas como VETO e HEALTH fazem), mas ainda não tinha um refrão, que só veio depois que elaborei a letra, sobre ansiedade, que estava lutando contra na época.

3 – Cold Silence

Uma das mais antigas, que resolvi elaborar uma nova versão para este álbum, agora pensada como um dueto. A voz doce e juvenil da Tinny trouxe uma leveza que eu sempre quis para essa música, que traz muito das minhas influências de dream-pop, como Beach House e Cocteau Twins.

4 – Heir Apparent

Provavelmente minha favorita em termos de letra e songwriting geral. Tudo nessa foi não-usual e desafiador para mim: Enquanto a maioria das canções foi composta no violão, no piano ou a partir de uma sequência eletrônica, esta veio a partir da melodia, que fiquei cantarolando ao sair do cinema (rs) e depois busquei acordes que se encaixavam na harmonia. Desde o começo queria que ela soasse como uma valsa clássica, o que me levou a fazer busca de referências e estudar mais sobre arranjos de orquestras. Também a letra, em terceira pessoa, foi novidade para mim, principalmente pelo tema, sobre uma suposta rainha que foi tirada do trono ao qual tinha direito e busca vingança, como metáfora à opressão de um regime patriarcal (era um momento que eu estava assistindo muito Game of Thrones e lendo livros sobre representação feminina no cinema…deu nisso).

E ter achado a Akina – que é uma cantora de blues – para cantá-la deu uma personalidade incrível e que jamais imaginava para a música.

5 – Seasons

A primeira deste projeto a ficar pronta. Foi a partir dessa colaboração com a americana Kathleen, aliás, o primeiro “estalo” de que eu deveria fazer um álbum inteiro assim. Mesmo ja tendo alguns anos, o tema é recorrente para mim até hoje, sobre a frustração inerente que é viver numa cultura movida pela nostalgia.

O que gosto nela é que tem um formato curioso pois começa parecendo um rock dançante, mas o refrão logo subverte essa ideia e é, ao contrário do senso comum no pop, a parte mais calma e melancólica da música.

6 – No Leaf Tree

Outra antiga que ganhou um remake para a dinâmica de dueto. Traz de volta um guitar-rock mais “riffeiro” (estilo que eu fazia muito quando tocava em bandas mas raramente faço no cellardoor) e se transforma em algo mais progressivo e meio chamber-pop no final.

7 – Travellers

A Valerie foi uma das mais parceiras e presentes nesse projeto, então ofereci mais uma para ela participar. Travellers é a que considero a canção central do álbum, cujo conceito veio justamente das minhas viagens ao exterior e das conexões com pessoas distantes — algo que, por ser tão recorrente na minha vida, me trouxe à compreensão de que valorizar as experiências efêmeras é também saber ressignificar as despedidas, e passar a admirá-las ao invés de lamentá-las.

8 – Flows

Talvez a mais…”abstrata” de todas, sobre o despertar para a ideia de espiritualidade e estados expandidos de consciência. O refrão grandioso e em coro é o momento que melhor mostra um pouco minha influência das bandas pop dos anos 80/90 que cresci ouvindo, como Roxette e A-Ha. E o mantra no final é uma mescla de algumas cerimônias místicas/religiosas que gravei em viagens no Brasil e no exterior.

9 – No Shelter

A típica canção que origina de um dedilhado de violão e acaba ganhando um rumo completamente inesperado quando o converto para um arranjo mais “sintetizado”. Busquei um clima contemplativo, que fosse simples mas rico em texturas e emotividade — com o trabalho de bandas mais art-pop em mente, como o Magical Cloudz e Youth Lagoon — e a voz da Athena foi perfeita para isso. O clímax final é um bom exemplo de como estar envolvido num projeto de colaboração acaba influenciando diretamente o processo de composição, pois eu jamais pensaria em terminar a música desta maneira se eu já não estivesse com a dinâmica de dueto em mente. Sempre quis que fosse a faixa de encerramento, e por isso o verso “I will see you again” repetido até o fim me pareceu perfeito para fechar o conceito do álbum.

     
 
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