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Em 1969 aconteceu nos Estados Unidos a primeira edição do lendário festival de Woodstock, aquele que pode ser considerado como o “pai” dos festivais de música em todos os tempos.

Após o grande sucesso do evento, novas edições vieram depois para tentar reproduzir a vibe de Paz, Amor & Rock And Roll, e enquanto o festival de 1994 rolou bem, infelizmente não podemos dizer o mesmo da edição de 1999, que celebrava justamente os 30 anos do original.

O Woodstock 99 aconteceu entre os dias 22 e 25 de Julho, há 19 anos, e rolou mais uma vez em uma cidade no interior do estado de Nova York, mas se mudou para Rome, distante cerca de 320 quilômetros do local onde rolou o primeiro Woodstock.

Com extensa cobertura da mídia, principalmente da MTV que transmitiu todo o evento, o festival era aguardado por todo o país e levou nada mais, nada menos do que 400 mil pessoas até o local onde foi realizado.

Nem é preciso pensar muito a respeito para imaginar que justamente esse número elevadíssimo de pessoas poderia causar problemas caso as coisas não rolassem perfeitamente bem, e isso esteve longe de acontecer muito em função dos organizadores.

Condições climáticas e a ganância

O festival aconteceu no meio do Verão norte-americano em uma enorme base aérea que havia cortado boa parte das árvores do local e coberto boa parte do chão com asfalto.

As temperaturas próximas dos 40 graus fizeram com que as pessoas sofressem com o calor logo no primeiro dia e a disposição dos espaços não ajudava em nada: entre os dois palcos principais havia uma distância de nada mais, nada menos do que dois quilômetros.

Para piorar, a organização não apenas resolveu economizar nos banheiros e chuveiros, que não foram colocados em números suficientes e rapidamente foram inutilizados, como também jogou os preços dos produtos lá em cima, cobrando 12 dólares por uma fatia de pizza e 4 dólares por uma garrafa d’água de 600 ml.

Se esses valores já podem ser considerados altos hoje em dia, imagine há 19 anos quando os preços normais eram ainda menores.

Havia fontes de água gratuita em alguns pontos do local, mas eles também eram poucos e as enormes filas deixaram as pessoas enfurecidas; algumas delas quebraram canos que chegavam até as fontes para “desviar” a água aos que estavam atrás na fila e grandes acúmulos de lama foram se formando por conta disso.

 

Shows e Line-up

A escalação do Woodstock 99 contava com bandas lendárias e outras que estavam no auge ao final dos anos 90.

Entre elas estavam nomes como Limp Bizkit, Megadeth, Red Hot Chili Peppers, KoRn, The Offspring, Rage Against The Machine, Metallica, Elvis Costello, Willie Nelson, The Brian Setzer Orchestra e mais.

Pelo menos nesse quesito, o festival estava bem planejado e contava com nomes verdadeiramente interessantes.

 

Violência e mais violência

Definitivamente o ponto mais triste de todo Woodstock em 1999 foram os focos de violência que se espalharam pelo festival durante os seus quatro dias de duração.

No meio do show do Limp Bizkit foram relatados episódios de vandalismo e violência sexual, sendo que testemunhas dizem terem visto uma mulher sendo jogada no chão e estuprada por várias pessoas ali mesmo, cena que teria se repetido com outra pessoa durante o show do KoRn de acordo com o relato de um voluntário. Em todo o local do show foram registradas oito denúncias de abuso.

À medida que o festival foi chegando ao fim, tudo foi ganhando contornos cada vez mais tensos e o evento ficou marcado pelas dezenas de focos de incêndio.

Uma organização havia distribuído velas para que as pessoas acendessem e criassem uma atmosfera de “vigília” durante a performance do clássico “Under The Bridge” no show dos Red Hot Chili Peppers.

Acontece que o público estava tão puto com todas as condições adversas que acendeu as velas para criar pequenos incêndios e ainda usou as (caras) garrafas de água jogadas pelo terreno como combustível para alimentar ainda mais o fogo.

Teoricamente apenas como uma coincidência, a banda ainda mandou ver em “Fire”, cover de Jimi Hendrix, e as coisas fugiram completamente de controle, resultando em 12 trailers, um pequeno ônibus e vários banheiros sendo destruídos pelo fogo.

Segundo Anthony Kiedis, a ideia era homenagear o lendário guitarrista a pedido da família, e não provocar as pessoas a colocarem fogo em tudo.

Morte

Há relatos discrepantes a respeito de mortes no Woodstock 99, mas um caso confirmado é o de David DeRosia, que passou mal durante o show do Metallica e foi levado à tenda médica do local com a temperatura do corpo em altíssimos 42 graus.

O cara foi transportado para um hospital em Syracuse mas não resistiu e morreu no dia 26 com a causa da morte sendo determinada como hipertermia associada a problemas cardíacos e obesidade.

 

Relatos

Algumas pessoas importantes deram relatos contundentes a respeito de tudo que viram por lá.

Fred Durst, vocalista do Limp Bizkit, foi acusado de ter promovido a violência em seu show durante várias vezes, pedindo para que as pessoas liberassem suas energias e não “pisassem no freio”.

Após o festival ele falou:

Eu não vi ninguém se machucando. Você não vê essas coisas. Quando você está olhando para um mar de gente e o palco está a vinte pés do chão e você está tocando, você sente a sua música. Como que eles esperam que a gente veja algo de ruim acontecendo?

Tom Morello, guitarrista do Rage Against The Machine, disse que os problemas foram casos isolados e exaltou a maioria das pessoas que foi para lá se divertir:

Hey cara, deixe a molecada em paz. Eu já cansei da demonização dos jovens nessa história do Woodstock 99.

Sim, o Woodstock estava cheio de predadores: os idiotas que abusaram das mulheres, os promotores gananciosos que exploraram cada centavo do público que estava com sede e, por último mas não menos importante, a mídia predatória que virou a cara para a violência real e usou de bode expiatório um quarto de um milhão de fãs de música no Woodstock 99, sendo que a maioria estava tendo os melhores dias de suas vidas.

Kurt Loder, apresentador da MTV que estava no local para cobrir o evento, teve palavras duras a respeito do festival e o comparou a um “campo de concentração”:

Era um lugar perigoso para se estar. O cenário todo era assustador. Havia ondas de ódio por todo lugar. Claramente a gente tinha que sair de lá. Era como um campo de concentração. Para entrar você era revistado para que eles tivessem certeza de que você não estava levando água ou comida que faria com que você não comprasse os produtos com preços absurdamente altos lá dentro. No festival você chafurdava pelo lixo e dejetos humanos. Havia uma sensação de raiva palpável no local.

 

“Legado”

Não à toa o Woodstock de 1999 foi a última edição do lendário festival que, infelizmente, começou para celebrar a paz e terminou com atitudes que foram dos saques ao vandalismo, sendo que em muitos casos tudo surgiu como uma resposta a atitudes incompreensíveis da organização.

Há alguns anos houve conversas para que novas edições do evento surgissem e volta e meia o assunto vem à tona, mas nada se concretizou.

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