Foto: Stephanie Hahne/TMDQA!
 

A semana que marcou o início do inverno no hemisfério sul não cumpriu exatamente com a promessa de temperaturas baixas pra quem mora no sudeste brasileiro. Digo isso porque foi difícil saber se saía de casa com ou sem uma blusa, sabendo que encontraria pela frente na noite de sexta-feira (22) o calor de duas das bandas que fazem provavelmente os melhores shows nacionais atualmente.

O destino da noite era a 19ª edição da festa Sexta Básica, responsável por sempre escalar atrações nacionais relevantes e igualmente interessantes. O evento já contou com nomes como Gilberto GilNey MatogrossoTulipa RuizCéuGaby Amarantos e Lenine em edições anteriores.

Os anfitriões dessa vez foram os mexicano-brasileiros do Francisco, El Hombre com os baianos hypados do BaianaSystem. Com um lineup desses, não foi a menor surpresa ver que os 2.500 ingressos dos 6 lotes disponíveis do evento estavam esgotados antes mesmo das portas serem abertas.

Além das duas bandas protagonistas, a organização da festa escalou os DJs do Ministereo Público, Dj Thiagão e Dj Nalla para ditarem o tom da trilha sonora entre os sets, sempre fazendo um misto de rap com dub, ritmos latinos e muita brasilidade.

Às 00h45, após discurso do produtor Thiago Costa, a banda do distrito campineiro de Barão Geraldo/SP, Francisco, El Hombre, se responsabilizou por tomar o palco com um surto de energia por uma hora com músicas do disco Soltasbruxa, lançado em 2016. O kit simples de bateria do percussionista Sebastián Piracés-Ugarte, com apenas alguns pratos, surdo, bumbo, caixa e cowbell aliados ao triângulo da também percussionista Juliana Strassacapa, foram os instrumentos que canalizaram o calor emanado pela banda do palco (que também exibia constantemente cenas de um fogaréu na produção visual dos telões). As percussões eram marcantes justamente por ditarem os principais compassos de canções como “Bolso Nada” (que podia muito bem se tornar um hino político quando o nosso escapismo futebolístico chegar ao seu triste fim em Julho), “Calor da Rua” e na estreante e divertida “Dilatada”.

Foto: Stephanie Hahne/TMDQA!

O irmão do baterista, Mateo Piracés-Ugarte, faz também um show a parte no canto direito do palco, com o seu violão (que deve precisar trocar o conjunto de cordas a cada música) e fôlego infinito para conseguir cantar, gritar e pular ao longo de todas as faixas do repertório. O grande lance é que ele é tão cativante que faz toda a plateia repetir os mesmos movimentos e dançar como se tivessem sido hipnotizados.

O fato de a maioria das músicas do Francisco, El Hombre terem refrões dobrados, triplicados, quadruplicados ajuda a envolver até os que estão ali vendo a banda pela primeira vez (como eu), pois depois do quarto “Já sei pra onde vou: eu vou sentir o calor da rua” que você ouvir, vai ficar cantarolando isso na fila do busão e no banho por uma semana.

Obviamente o ponto onde a banda decide por o pé no freio e envolver a plateia em um momento mais reflexivo é durante a principal canção do grupo: “Triste, Louca ou Má”, gravada originalmente com participações de Labaq, Helena Maria, Salma Jô, Renata Essis e indicada à categoria “Melhor Canção em Língua Portuguesa” no 18º Grammy Latino. O melancólico e bonito ode ao feminismo e às reflexões de comportamento das relações humanas escrita por mais uma vocalista da banda, Juliana, foi cantado e filmado por boa parte dos presentes.

Após 1 hora de mistura de ritmos brasileiros e latinos, do MPB ao Maracatu, passando pela salsa e o reggaeton, o quinteto auto denominado como batuk freak tropikarlos se despediu do palco posando para foto com a plateia.

A intermissão entre os sets de Francisco, El Hombre e BaianaSystem foi de longe um dos melhores momentos da noite, com um set surpresa da dupla Sax In The Beats. O duo, composto de um cavalo baterista e um panda saxofonista (ou dos músicos Jônatas Paiva e Nilton Cezar, devidamente fantasiados com máscaras dos animais) toca versões de Jazz instrumental ridiculamente animadas de clássicos do Rock, MPB, Funk somente com um kit de bateria com bumbo, chimbal e caixa e o fôlego do saxofonista. Entre as versões tocadas pela dupla estavam músicas como “Ana Julia” (Los Hermanos), “Mulher de Fases” (Raimundos), “Descobridor dos Sete Mares” (Tim Maia) e “Asa Branca” (Luiz Gonzaga). A dupla costuma se apresentar pelas ruas mais turísticas e movimentadas de São Paulo e tocou na última edição do Rock in Rio, em 2017.

Já por volta das 2h da manhã, a festa pegou fogo de verdade quando a atração principal foi anunciada. Após um primeiro semestre absurdamente movimentado, com direito à participação no lineup do Lollapalooza Brasil, agenda de turnê nacional lotada e com apresentações em Nova York e Londres marcadas para eventos em Julho e Agosto, o BaianaSystem entrou com muita moral no palco.

Com as tradicionais rodas de dança características dos shows do grupo se abrindo ao longo de toda a apresentação, o Baiana jogou todo o público que lotava o Tropical Butantã em um caldeirão musical dançante digno da mistura sonora que o grupo representa. A combinação da guitarra-baiana e a percussão com gêneros do manguebeatsound system jamaicano, samba, MPB, muito Dub e até Ska, aliados ao vocal explosivo de Russo Passapusso fizeram de todo o set do grupo uma experiência quase que transcendente onde todos se comportavam como parte de um culto onde era impossível não dançar de acordo com a música.

A direção de arte e visuais que compunham as projeções da produção de palco da banda também merecem uma nota a parte, com o excelente trabalho criado pelo artista Filipe Cartaxo sendo o pano de fundo que tornava a experiência baiano-futurista quase que lisérgica. Os ícones e figuras (como a tradicional máscara azul símbolo do grupo) foram criadas pelo artista como forma de representar novos símbolos baianos, de uma Bahia Futurista, pela qual ela deve se reconhecida daqui pra frente.

Foto: Stephanie Hahne/TMDQA!

O show do BaianaSystem veio carregado de questionamentos políticos e sociais, relembrando o caso da vereadora Marielle Franco (até porque não deve mesmo ser esquecido) e de outros ícones importantes na representação da luta de classes brasileira. O repertório da banda incluiu músicas do disco de estreia, Duas Cidades (2016) e do homônimo BaianaSystem (2010)como “Bala na Agulha”, as duas partes de “Jah Jah Revolta”, “Lucro: Descomprimido”, “Invisível” e encerraram o set com o hino “Playsom”.

Após 4 horas de festa, felizes, suados e cansados, deixamos o Tropical Butantã em São Paulo com o choque de ter presenciado alguns dos melhores shows que rodam o nosso país atualmente. Pela companhia em peso do público pagante da noite, não somos os únicos a ter essa opinião.