Rebeca Sauwen
Foto: Bárbara Medeiros / Diulgação
 

Palavras e expressões que não necessariamente fazem sentido entre si, encaixadas em uma melodia de forma a se transformarem em belos versos. Junto a isso, beats e arranjos vocais incrementam a música, que pode ser classificada como caetânica, por falar sobre temas inexplorados. Estamos falando de “Cinema Norte Americano“, o primeiro single solo da cantora niteroiense Rebeca Sauwen, lançado recentemente pela Sagitta Records.

Rebeca ganhou reconhecimento por sua participação na quarta temporada do programa The Voice Brasil, da Rede Globo, onde chegou às quartas de final. Depois disso, a cantora emprestou sua voz ao refrão de “Linda, Louca e Mimada“, do também niteroienese grupo Oriente, além de lançar o homônimo disco de estreia do grupo Gragoatá. Agora chegou o momento de Rebeca provar o seu versátil talento em um álbum solo!

A cantora, que passou a atender apenas pelo primeiro nome, bateu conosco um simpático e divertido papo por telefone. Mesmo diante da adversidade de ter um técnico de informática dentro de seu apartamento, checando algum problema no funcionamento da internet, Rebeca nos contou sobre o single, seu futuro álbum e suas inspirações.

 

TMDQA!: De todo mundo que conhece o seu nome e ouve a sua voz em músicas, eu nunca ouvi ninguém fazendo sequer uma crítica negativa. Sempre são só elogios: “Nossa, ela canta para caramba”, “As músicas são lindas”… Quando você percebeu que tinha jeito para cantar?

Rebeca: Não sei exatamente se teve esse “marco”. Não teve um momento extremamente específico: eu acho que simplesmente comecei a cantar. Sempre tentei cantar as músicas que eu gostava. Sempre prestava atenção no que diziam e tentava imitar, e aí eu vi que dava certo. Mas eu comecei a entrar em contato com a música ainda bem pequenininha. Eu comecei a tirar música de ouvido, em um pianinho que eu tinha. Isso fez a minha mãe me colocar em aula de piano, que acabou me ensinando a cantar um pouco melhor. Eu sempre gostei muito de música. É um universo com o qual sempre me identifiquei. Então, eu acho que sempre tive um bom relacionamento com música, na verdade. Ela sempre me ajudou a me expressar melhor.

TMDQA!: Você é relativamente nova e, de certa forma, podemos dizer que já tem um baita currículo: participação no The Voice, Gragoatá, participações em canções de outros artistas… E agora você está gravando seu primeiro álbum solo. Desde o tempo em que você começou a cantar profissionalmente até agora, como você diria que cresceu e amadureceu no mundo da música?

Rebeca: Eu percebi que estava cantando vários estilos de música que me propunham. Mas eu ainda não tinha encontrado um som exatamente meu. Eu sempre acabava sendo mais intérprete. Eu acho que essas vivências todas, com essa pluralidade de estilos musicais que me foram propostos, me ajudaram a desenvolver uma noção do que eu queria musicalmente e de como fazer isso, sabe? Então eu fui garimpando composições dos meus amigos, das bandas aqui de Niterói. A gente sempre se encontrava, então ocasionalmente eles me mandavam composições deles. João Barreira, da Barcamundi, por exemplo… Nesse processo, eu comecei a compor também com a minha amiga Ana Beatriz Bretas e com o Fanner (Gragoatá). Então, ao mesmo tempo em que eu estava descobrindo o som que eu queria fazer, eu estava aprendendo a compor, e aí a coisa foi tomando forma. Uma pessoa que conseguiu compreender muito esse universo que eu queria mostrar foi o Rodrigo Martins, que é o produtor do disco e baterista da banda Tereza. Ele conseguiu dar vida, deixar concreto o que estava começando a nascer dentro de mim. Nesse disco, eu vou começar a mostrar as coisas que sempre estiveram comigo. A bagagem de toda essa vivência que eu ainda não tinha conseguido organizar e dar uma cara.

TMDQA!: Podemos dizer que isso que você falou, do seu desenvolvimento como artista, é mostrado em “Cinema Norte Americano”. Esse single, de certa forma, se diferencia daquele som “nova MPB” da Gragoatá.

Rebeca: Sim, sim! É porque eu sempre gostei de ouvir música lá de fora. E eu acho que essa minha aproximação com a música brasileira ocorreu muito mais quando eu fiz 16, 17 anos. Aí eu fui me adaptando à forma como as coisas eram feitas aqui. Eu comecei a prestar mais atenção na maneira como os artistas daqui interpretavam as músicas. Era bem diferente do que eu costumava ouvir. Mas, mesmo assim, eu nunca deixei de gostar das outras músicas que eu ouvia. Eu ouvia mais R&B e música indie. O Fanner vinha aqui para meu apartamento e a gente ficava fazendo música. A gente gostava muito de rock clássico também, mas ouvíamos várias coisas. Então foi uma vivência muito maneira, que me fez perceber que eu não podia deixar essa minha base de lado.

Essa música, “Cinema Norte Americano”, vem com uma proposta de focar muito mais na voz e nos beats, porque eu queria fazer uma música mais “pop”. Então, eu acho que foi importante para mim, como artista solo, porque eu fiz muito dos arranjos do disco inteiro. Por ter bastante voz, eu percebi que eu também conseguia “arranjar” as coisas. A gente tira a voz dessa posição que normalmente ela tem, de conduzir a melodia principal, e fizemos com que ela tenha uma outra função. Eu decidi trazer essa roupagem um pouco mais pop, e botar a minha cara não só nas composições mas também nos arranjos. Sinto que era algo que eu precisava fazer.

TMDQA!: Dá para perceber que a voz guia a música inteira.

Rebeca: Sim!

TMDQA!: Ouvindo a música, eu pensei muito em composições de artistas nacionais como Céu, ou mesmo de nomes internacionais, como a Lorde…

Rebeca: Sim, total! Eu amo a Lorde! 2017 foi o ano de composição do disco, e coincidiu com o lançamento de Melodrama. E eu comecei a ouvir muito mais o primeiro disco dela. Eu morei durante uns 4 meses no Rio, e acabava passando bastante tempo dentro dos transportes indo para a minha faculdade, em Niterói. Consequentemente, tive tempo para ouvir muita música. Destrinchei não só o álbum da Lorde como outros. Comecei a perceber o modo como certos discos são feitos, a forma como eram produzidos… E um outro lado bom nisso tudo foi que Rodrigo já conhecia muita coisa que eu gostava. Nós dois gostamos muito de Frank Ocean, por exemplo. Além de gostar muito de música pop, ele está sempre aberto a novas experiências musicais. Ele me deu as ferramentas e também a criatividade necessária para criar isso.

Eu também sempre gostei da Céu. Eu acho que ela é uma artista que consegue se destacar. Ela mostra um jeitinho brasileiro em suas composições, mas não se limita apenas a isso. Ela traz muita coisa lá de fora, e consegue colocar sua marca ali. Ela sempre introduz um mundo novo a cada CD, e eu acho isso muito original.

TMDQA!: Resumidamente, quais foram as suas principais influências para a composição dessa música?

Receba: Muita gente falou que parece com Dirty Projectors. Eu me inspirei bastante, por causa das vozes e dessa vibe meio “esquisitinha”, em artistas como Kimbra, Queen… Queen foi a primeira banda a me mostrar como dá para fazer variados arranjos de vozes. E como essa música tem vários arranjos de voz, eu dei atenção a isso. Queen, Kimbra, Lorde, Dirty Projectors… O João (Barreira), que compôs a música,, estava ouvindo bastante Dirty Projectors na época. Ele foi quem me mandou essa música, com uma vozinha atrás. Eu peguei essa “vozinha” atrás e simplesmente a expandi. Foi também a primeira música que ele fez com beats. Ele pegou um beat e cantou por cima, mas acabou que a música ficou cheia de vozes.

TMDQA!: O seu álbum ele já está próximo de ser lançado?

Rebeca: Devo lançar mais alguns singles antes, mas eu pretendo lançar ainda este ano.

TMDQA!: Interessante! Mas, com o que você já tem de material gravado, você conseguiria rotular o seu trabalho com algum(ns) gênero(s) específico(s)?

Rebeca: Eu acho que, de alguma forma, é pop. Um pop meio indie, né? O que você acha?

TMDQA!: Já que associei muito o álbum à discografia da Lorde, classificaria como indie pop.

Rebeca: Acho que é isso (risos).

Rebeca Sauwen
Foto: Bárbara Medeiros / Divulgação

TMDQA!: Com os seus lançamentos anteriores, Gragoatá, “Linda, Louca e Mimada”, as pessoas acabaram associando a sua voz a uma sonoridade mais suave. Você diria que esse disco, em algum momento, vai fazer com que as pessoas vejam uma “nova Rebeca”?

Rebeca: Eu acho que eu tenho um lado meio engraçadinho e irreverente, que até hoje não consegui mostrar para as pessoas em outros trabalhos, porque as músicas normalmente me eram apresentadas e faziam parte de projetos. Eu dava a voz que a música pedia. No entanto, acho que agora eu tenho a liberdade de direcionar a música na direção que eu quiser. Tem aspectos da minha personalidade que eu não consegui explorar, ficando nesse campo da doçura e da suavidade. Óbvio que ainda tem bastante disso, mas acho que consegui, nesse álbum, explorar melhor outros temas. Dá para ter uma interpretação diferente. Eu acho que o artista, ao lançar o disco, materializa pelo menos parte dele. É isso que eu estou fazendo.

TMDQA!: Esse single ele é assinado só como “Rebeca”, sem o seu sobrenome. Por que apenas Rebeca?

Rebeca: Eu considero o meu sobrenome [Sauwen] muito confuso (risos). “Rebeca” fica algo mais direto, mais simples. E acho que não tem nenhuma “Rebeca” por aí ainda, então acho que resolve o problema. Mas isso também marca uma nova etapa, um novo momento em minha carreira. Eu acho que esse momento fala bastante com o disco. Senti que faz mais sentido manter assim.

TMDQA!: Na sua passagem pelo The Voice, o que os jurados te ensinaram que ficou marcado para sempre na sua cabeça? Você usa algum conselho até hoje na hora de se apresentar?

Rebeca: Teve um dia em que o Carlinhos Brown me falou uma coisa muito bonita! Ele fala, no geral, coisas muito bonitas, mas eu sinto que no fundo tudo faz sentido. Foi ele falando daquela forma cósmica dele, sabe? Disse que as coisas não são por acaso. Temos que reconhecer o poder que temos, de conseguir transformar a vida das pessoas. Como artistas, acabamos nos transformando em um canal. Isso fica evidente para mim quando encontro pessoas que me ouvem, e consigo ver como modifiquei a vida delas, como fiz diferença… Eu estou aqui, no meu apartamento, conversando com você, mas enquanto isso pode ser que tenha alguém escutando minha música, e isso pode ajudar alguém a ter um dia melhor. Uma vez fiz um show com a Gragoatá em São Paulo, e um menino estava enfrentando uma fase difícil. Ele disse que “Café Forte” é uma música indispensável, que ele escuta sempre que acorda. Ele não pode começar o dia dele sem ouvir essa canção. Olha a dimensão transformadora que a gente pode ter na vida dos outros! Eu acho que isso é o mais importante! Foi o que o Carlinhos Brown me falou que eu absorvi para mim.

Ele falou de uma forma metafórica, mas entendi que eu preciso me levar como se eu fosse um instrumento, uma ferramenta, para transmitir coisas novas e conseguir trazer uma boa percepção da vida para as pessoas. Eu acho que isso é muito importante. Na verdade, a gente não teve muito contato com os jurados; o que vocês viram no programa foi o que eu também vi basicamente. Eu acho que fiz um post sobre isso, mas foi em 2015… Vou até procurar aqui.

TMDQA!: De onde surgiu a letra da música?

Rebeca: Isso aí é com o João! Ele me mandou a canção e disse: “Acho que essa foi a letra mais tosca que eu já fiz!” (risos). Ele está muito mais acostumado a fazer música folk, então é um universo diferente para ele. Na verdade, eu só tinha contato que queria fazer um disco e mandei algumas referências de coisas que estava ouvindo. Trocamos algumas figurinhas, ele absorveu um eu-lírico feminino e me mandou. Eu definitivamente não sei de onde veio a inspiração dele. O João é uma pessoa múltipla. Ele consegue fazer muita coisa ao mesmo tempo. Então acho que ele consegue absorver várias facetas.

TMDQA!: Ele também compôs mais letras do seu disco?

Rebeca: Sim, muitas! Tem quatro músicas escritas por ele, e ainda tem mais uma que escrevemos juntos. Nós dois e o Fanner.

TMDQA!: Isso mostra que vocês têm uma relação boa.

Rebeca: O pessoal é bem unido. Leon Navarro e a galera da Barcamundi estão sempre juntos com a Gragoatá. Eles sempre tocaram com a gente. E agora estão tocando comigo também. O João participou dos arranjos também…

TMDQA!: Você considera ter mais discos ou mais amigos?

Rebeca: Cara, acho que mais discos. Acho, não: com certeza. Eu gosto bastante de música. Mas, claro, tenho também bons amigos em quem eu posso confiar.

TMDQA!: Se você pudesse levar, para um exílio em uma ilha deserta, apenas três discos para você ouvir pelo resto da sua vida, quais seriam?

Rebeca: Um comentário adicional é que eu fiquei sem internet, e ontem sem celular também, porque esqueci o carregador na casa de uma amiga. Passei o dia escutando os vinis que tinha aqui em casa, e isso porque eu tenho pouco vinil. Nossa, imagina uma vida em que você não possa ouvir discos, ouvir suas músicas. Seria terrível. Mas ok, na verdade eu disse isso para ter mais tempo para pensar. Que pergunta difícil! Eu estou levando isso muito a sério. Você me fez uma pergunta que me fez ficar quieta (risos). Tenha paciência.

Ok, vamos lá! Eu vou falar clássicos, porque clássicos são clássicos. Levaria o Clube da Esquina. Também levaria Ape in a Pink Marble, o último disco do Devendra Banhart, porque é um disco que escuto todos os dias. E acho que o Melodrama, da Lorde. É isto!

TMDQA!: Você quer dar uma contribuição final?

Rebeca: Acho que já falei bastante (risos).