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Kanye West e Kid Cudi possuem uma longa história de amizade e colaborações.

A conexão dos dois músicos é datada por volta de 2008, na época em que Cudi estava começando a estourar com “Day ’N’ Nite”. O cantor surgiu na cena com uma bagagem peculiar, implementando influências do rock em suas músicas ao mesmo tempo em que cantava sobre temas mais pessoais — algo pouco comum no auge do rap “ostentação” apresentado por artistas como 50 Cent, Lil Wayne e muitos outros.

Foi justamente por conta dessa origem diferenciada que West pediu que Cudi o auxiliasse com a produção de 808’s & Heartbreak, um álbum altamente introspectivo onde West resolveu deixar o rap de lado e, munido apenas de um auto-tune, cantou em cima de batidas minimalistas. As letras do disco lidavam com temas melancólicos que envolviam a morte recente da mãe de West e o rompimento de seu noivado com Alexis Phifer.

Embora tenha sido recebido de forma morna tanto pelos críticos quanto pelo público, 808’s acabou moldando toda uma geração de rappers e músicos que viriam a priorizar assuntos mais emotivos em suas discografias, como Drake, The Weeknd, Childish Gambino, Frank Ocean e muitos outros.

Desde então, West e Cudi colaboraram em diversas ocasiões, resultando em grandes obras como “Gorgeous”, “Erase Me” e “Make Her Say”. Por conta disso, não era de se surpreender que vários fãs do estilo tivessem ficado animados quando apareceram os primeiros rumores de um possível disco colaborativo entre os dois.

Os boatos surgiram por volta da metade do ano passado, quando a dupla visitou o estúdio de arte do aclamado artista japonês Takashi Murakami. Murakami já havia anteriormente trabalhado na excelente capa de Graduation, o terceiro álbum de estúdio de Kanye, e supostamente iria trabalhar na arte desse novo disco.

No entanto, o álbum só foi anunciado oficialmente há poucos meses. Através de seu Twitter, Kanye revelou que o álbum sairia no dia 8 de Junho e que viria acompanhado de um curta-metragem que seria dirigido por Dexter Navy. O curta não foi — e provavelmente nunca será — lançado, mas o álbum já está entre nós.

Kids See Ghosts conta com apenas 24 minutos de duração espalhados ao longo de sete faixas, o mesmo número de todos os outros discos da G.O.O.D Music que estão sendo produzidos por West e lançados ao longo de Maio e Junho.

Mas ao contrário de Ye, o recente disco solo de West, KSG é uma aula incrível sobre como saber aproveitar sua curta duração para explorar as mais bizarras sonoridades possíveis.

A produção do disco é simplesmente impecável. De uma forma inexplicável, West e Cudi conseguem misturar e utilizar de elementos do rock, hip-hop, soul, psicodelia e até mesmo um sample de Kurt Cobain sem soarem perdidos ou desesperados. Cada batida, melodia ou grito foi cuidadosamente inserido de forma que o ouvinte não passa um simples momento se sentindo entediado.

Embora tenha sido concebido por duas estrelas do rap, KSG não consegue ser exatamente enquadrado em um gênero, explorando os limites do que pode ser considerado um disco de “hip-hop”. Guitarras distorcidas dão lugar à gravações gospel e tudo isso é interligado com batidas compostas por sons eletrônicos, tamborins e até mesmo gritos, como é o caso da faixa de abertura “Feel The Love”.

O uso de samples também é impecável. “4th Dimension”, por exemplo, inverte um trecho de “What Will Santa Claus Say”, uma canção natalina de Louis Prima, em algo completamente sombrio. Já a faixa que fecha o disco, “Cudi Montage”, pega o começo de “Burn The Rain”, uma demo de Kurt Cobain que fez parte do documentário Montage of Heck.

A sonoridade das faixas também acompanha muito bem o tema das letras do disco — tanto Cudi como West passaram por dificuldades e momentos polêmicos nos últimos anos.

West não só chegou a ser recentemente diagnosticado com transtorno de bipolaridade, como também passou por problemas na mídia após fazer declarações muito infelizes em relação à escravidão e suas ideias políticas e sociais. Enquanto isso, Cudi foi internado em uma clínica para cuidar de sua saúde mental após ter falado abertamente sobre possuir pensamentos suicidas e problemas com depressão.

Por conta disso, várias músicas de KSG entram em detalhes sobre o caminho de perdão e autoaceitação. “Reborn” é um ponto alto e o clímax do disco: “Eu me sinto renascido / Eu estou seguindo em frente / Continue seguindo em frente”, canta Cudi em um refrão que se estende por vários minutos no final da canção. Na mesma faixa, Kanye chega a mencionar a sua dificuldade em lidar com problemas e seus medicamentos: “Eu estava fora de mim / Quase sempre cansado / Sem tomar remédios / Chamado de louco / Que coisa maravilhosa / Estar coberto de vergonha”.

Já na faixa título do disco, West reconhece seus erros e defeitos de uma forma sincera que não é muito característica do rapper: “Tenho uma Bíblia do lado da cama, sou muito Cristão / Constantemente arrependido porque eu nunca escuto ninguém / Não gosto de ser questionado e não gosto de me sentir inferior / Em qualquer competição em qualquer uma das minhas profissões”.

Kids See Ghosts é uma obra perfeita para ouvir, reouvir, destrinchar e analisar cada canto, cada trecho — tanto liricamente como sonoramente. A ajuda de uma equipe composta por nomes de peso como André 3000 (Outkast), Mike Dean e Jeff Bhasker certamente contribuiu para o sucesso do álbum, habilitando que Cudi e West expandissem os limites de sua criatividade e renovando a sonoridade dos dois, que parecia estagnada há algum tempo.

Agora, os dois músicos soam como se estivessem beirando o ápice de sua criatividade. Embora ainda seja muito cedo para comparar Kids See Ghosts com as obras mais clássicas e bem recebidas da dupla, o disco pode ser facilmente considerado como um dos maiores destaques do hip-hop em 2018.

   
 
REVIEW GERAL
Nota
9.0
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