Há pouco mais de dois anos, bem no início do Faixa Título, escrevi uma longa análise sobre a tática de Kanye West para promover The Life of Pablo (2016), disco mais recente dele.

O texto se chamava “por que falamos tanto de Kanye West?”, e analisava as declarações polêmicas dele nas semanas anteriores ao lançamento do disco, a maioria delas em tweets confusos e dispersos.

Pois a história se repete, às vezes em ciclos mais curtos que imaginamos.

Kanye ressurgiu recentemente no Twitter depois de mais de um ano distante de todas as redes sociais. A ideia, segundo ele próprio, era escrever um livro em tempo real via Twitter, inspirado somente pela “necessidade de se expressar”.

Os primeiros tweets tinham um tom vagamente filosófico, e muitos viraram piada por lá. Até que, há alguns dias, Kanye usou a rede pra anunciar que iria lançar um novo álbum em 1º de junho. E um outro, com Kid Cudi, na semana seguinte. E que, ao redor dos dois discos, também seriam lançados trabalhos de Nas, Pusha T e Teyana Taylor totalmente produzidos por ele.

E aí ficou claro que o retorno de West ao Twitter nada mais era que uma reprise daquele rolo todo de dois anos atrás.

Com a atenção do mundo voltada pra ele, Kanye deu início a uma nova cruzada promocional. Passou a alimentar os boatos de que pretende concorrer à presidência dos EUA em 2024, postou imagens da filha brincando com bonecos dele e de Michael Jackson, falou sobre as demissões recentes de seus dois últimos empresários, e se vangloriou – várias e várias e várias vezes – do sucesso dele como empreendedor.

Até que pareceu surtar de vez ontem (25), quando escreveu que amava Donald Trump, postou uma foto de um boné da campanha de Trump autografado pelo presidente americano, e chegou a chamá-lo de irmão, explicando que os dois têm a “mesma energia de dragão”.

A repercussão foi explosiva, em todos os sentidos. Kanye perdeu e ganhou milhões de seguidores (inclusive vários parceiros artísticos dele), foi associado ao levante da extrema-direita ao redor do mundo, teve sua saúde mental novamente questionada (a turnê de TLOP foi cancelada após um aparente surto maníaco-depressivo), provocou reações que foram de Kim Kardashian ao próprio Trump, e virou tema de centenas de artigos como este.

Escrevendo tudo o que se passava pela cabeça dele, despreocupado com o conteúdo das críticas a ele e apenas disposto a inflamá-las, Kanye conseguiu o que queria: manipular a opinião pública para se tornar outra vez o centro dela, não importando o ponto de vista.

Lá no The Life of Pablo, em “I Love Kanye”, ele já cantava ironicamente sobre quem sentia falta do “velho Kanye”, antevendo várias das respostas tuitadas a ele ontem, mais de dois anos depois que a música saiu.

Assim como Trump, Kanye entendeu antes e melhor que a maioria de nós todo esse universo onde memes e fake news têm impacto muito maior que qualquer notícia séria ou análise profunda. Uma tática de autopromoção altamente questionável, mas extremamente eficiente. Afinal de contas, quem resiste a opinar sobre uma figura tão detestável?