Marcelo Falcão (O Rappa)
Foto: Paulo Ripper
 

O ano de 2018 marca os 25 anos do nascimento de uma das bandas mais icônicas e importantes da música brasileira.

Em 1993, surgiu O Rappa, junto à sua característica mistura de reggae, rock e rap. Gradativamente, essa mistura irreverente de estilos, somada às constantes críticas sociais feitas pelo grupo em suas letras, foi tomando o Brasil de assalto.

Mas o ano não é só de celebração. Em 2017, a banda anunciou uma pausa por termo indeterminado, e no último sábado (14) foi realizado o último show. Após rodar o Brasil em clima de despedida, a banda se despediu dos palcos em sua cidade natal, onde tocou para cerca de 13 mil fãs.

Em mais de três horas de apresentação, o grupo revisitou toda a sua carreira, com um setlist recheada de hits e com direito a covers, homenagens e participações especiais.

 

Quase duas horas de atraso seguidas de uma icônica introdução

Quem abriu a noite foram os meninos da também carioca Ponto de Equilíbrio. As mensagens positivas passadas pelas músicas do grupo criaram energia e expectativa para a despedida d’O Rappa.

Após o término da apresentação, no entanto, essa energia foi gradativamente se transformando em ansiedade, e se gastando em meio a uma longa espera que preocupou os fãs. Foram, no total, cerca de uma hora e quarenta minutos de espera. O público não tardou para mostrar-se impaciente e provocar o grupo com vaias.

Mas o esperado momento chegou quando a banda foi anunciada. O público da pista, que esperava sentado, se levantou para ver o vídeo de introdução do show que viria a seguir:

Nós estamos aqui hoje para participar de uma noite histórica. Esta noite que não vai se apagar em nossas mentes e que jamais deixará nossos corações: a noite do último show d’O Rappa.

Essas palavras foram ditas pelo jornalista Ricardo Boechat. Ele protagonizava o vídeo, ao falar do legado do grupo e mesclar seu depoimento a alguns conhecidos versos da voz do vocalista Marcelo Falcão. O público aplaudia com clamor. O show já estava para começar.

Eis que sobem ao palco FalcãoXandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato, DJ Negralha e toda a turma de músicos de apoio. A primeira canção a ser tocada foi, de cara, a impactante “O Salto“.

O início da apresentação ainda contou com um engano do frontman do grupo. Em meio a um discurso político, se referiu à vereadora Marielle Franco como “Marcele”, se corrigindo logo depois. A noite do dia 14 marcou exatamente um mês de seu assassinato, ocorrido também na cidade do Rio.

 

Legião Urbana, Oriente e muitos, mas muitos hits

Falcão não falou sobre o atraso em nenhum momento, mas fez questão de deixar claro que o show se estenderia pela madrugada inteira. E foi o que aconteceu. Foram quase 40 músicas tocadas, basicamente revisitando toda a história do grupo, tirando o homônimo álbum de estreia, que não foi representado por nenhuma canção. E ainda faltaram alguns hits, como “A Feira” e “Eu Quero Ver Gol“.

Como costumava fazer recentemente em seus shows, a banda deu uma pausa enquanto Falcão e DJ Negralha colocavam para tocar algumas homenagens. Primeiramente, logo após apresentar “Meu Mundo É O Barro“, Falcão pediu uma homenagem a um velho amigo ao qual se dirigiu como “vagabundo”. Negralha colocou “Não É Sério“, do Charlie Brown Jr., para tocar. Logo depois, o vocalista discursou sobre a “nova leva” de músicos interessantes que estão conquistando cada vez mais espaço. Foi a premissa para o DJ colocar para tocar “Pesadão“, da também carioca Iza (música, inclusive, que conta com a participação de Falcão).

Depois foi a vez dos convidados Chino e Geninho, do grupo de rap Oriente (que também participou do show de abertura), subirem ao palco. Elogiados por Falcão, eles ajudaram o público a retomar o fôlego para o resto do show, que naquele momento já havia passado da metade. A dupla tocou as músicas “Linda, Louca e Mimada” e “O Vagabundo e a Dama“.

As homenagens não ficaram restritas ao DJ. O grupo dedicou “Súplica Cearense” a Luiz Gonzaga. Também fez uma dedicatória às mulheres com “Intervalo Entre Carros“. No entanto, o mais surpreendente foi uma cover de “Ainda É Cedo“, do Legião Urbana, guiada apenas por Falcão e sua guitarra (e, vale dizer, a música se encaixou muito bem na sua voz).

 

O climão não atrapalhou – tanto – o show

Não é nenhuma fake news a informação de que os integrantes do grupo já não se dão mais tão bem entre si. Isso ficou bem evidente no show, onde eles mal interagem, salvo o momento da despedida, em que eles se abraçaram na frente do palco.

A unidade falha do grupo e a falta de empatia entre os músicos ficou evidente também na “brincadeira” de Falcão com Negralha. Nesse momento da apresentação, os outros músicos poderiam ter ficado no palco, mas optaram por sair e se juntar em um canto, enquanto o vocalista fazia uma homenagem aos novos nomes da nossa música.

A falta de comunicação na banda era gritante. Lauro, por exemplo, começou a tocar a linha de baixo de “Vida Rasteja” quando a música a ser tocada na verdade era outra.

Lauro Farias (O Rappa)
Foto: Paulo Ripper

No final, Lobato assumiu os microfones – coisa que ele não faz normalmente – para agradecer aos fãs por todo o apoio durante todo esse tempo. Não estava previsto, mas foi como se o músico sentisse que não podia deixar aquela oportunidade passar.

Quem acabou quebrando o “climão” foi o público. Isso ficou evidente em vários momentos. Não é preciso nem mencionar que todas as músicas foram cantadas a plenos pulmões pelo público presente, porque isso já é de se esperar de um show d’O Rappa. Se os músicos apenas dessem o tom, a plateia cantaria em uníssono e pouparia o trabalho do querido Falcão.

As 13 mil pessoas que lotavam a arena assumiram os vocais em trechos das canções “Rodo Cotidiano” e “Pescador de Ilusões” (que também teve direito a um estabelecimento completamente iluminado por luzes de celular e por isqueiros). Em “Lado A Lado B“, Falcão deixou que o público exclamasse o icônico verso “eu não pareço com você”.

 

“Nunca Tem Fim…”

O que se viu no palco foi uma banda que se manteve apenas por causa de forças externas. Se dependesse apenas dos próprios músicos, as constantes divergências de opiniões já teriam extinguido O Rappa há anos. Seja pelo amor aos fãs ou por dinheiro, o grupo aguentou até onde pôde se manter “unido”.

Xandão, Lauro e Lobato (sim, sem Falcão) se uniram para escrever um comunicado publicado na página oficial da banda no Facebook. Nele, agradecem aos fãs pelos anos de parceria e admiração, além de explicar suas posições em relação a ofensas ditas em cima do palco e a atrasos de shows em uma mensagem que nem é uma indireta, mas sim uma diretaça ao vocalista:

Além disso, nunca compactuamos com os atrasos constantes de início dos shows. Sempre achamos isso um desrespeito com o nosso público, equipe, contratantes e demais envolvidos.

De qualquer maneira, a noite do dia 14 foi memorável para quem esteve lá. A apresentação lembrou que são pouquíssimos os grupos brasileiros que lotam arenas e, ainda por cima, conhecem todas as letras.

Fazendo uma alusão ao título do último álbum lançado pelo grupo, sabemos que as músicas d’O Rappa nunca terão fim. Já estão imortalizadas no nosso cancioneiro popular. São, elas mesmas, a tal paz que queremos conservar, pelo menos para manter na história o legado de uma das maiores e mais influentes bandas que já tivemos.

Neste momento, NÃO EXISTE NENHUMA POSSIBILIDADE DE RETORNO DA BANDA aos palcos, muito menos esta suposta volta, informada erroneamente e sem qualquer fundamento.
Mais uma vez OBRIGADO, OBRIGADO e OBRIGADO por tudo.

Confira abaixo o setlist, a introdução protagonizada por Boechat e alguns trechos deste show, gravados por fãs:

Setlist:

  1. “O Salto” (com trecho de “Homem Amarelo”)
  2. “Auto-Reverse”
  3. “Hóstia”
  4. “Monstro Invisível”
  5. “Lado A Lado B”
  6. “Bitterusso Champagne”
  7. “Boa Noite Xangô”
  8. “Fininho da Vida”
  9. “Súplica Cearense” (em homenagem a Luiz Gonzaga)
  10. “Vapor Barato”
  11. “Tribunal de Rua”
  12. “7 Vezes”
  13. “Ainda é Cedo” (cover de Legião Urbana)
  14. “O Que Sobrou do Céu”
  15. “Linha Vermelha”
  16. “Fica Doido Varrido”
  17. “Uma Vida Só”
  18. “Intervalo Entre Carros”
  19. “Meu Mundo É O Barro”
  20. “Não É Sério” (homenagem a Charlie Brown Jr.)
  21. “Pesadão” (homenagem a Iza e aos novos nomes da música brasileira)
  22. “Linda, Louca e Mimada” (interpretada por Oriente)
  23. “A Dama E O Vagabundo” (interpretada por Oriente)
  24. “Pescador de Ilusões”
  25. “Me Deixa”
  26. “Vida Rasteja”
  27. “Na Horda”
  28. “Fronteira (D.U.C.A.)”
  29. “Rodo Cotidiano”
  30. “Hey Joe”
  31. “Sentimento”
  32. “Reza Vela”
  33. “Tumulto”
  34. “Ilê Aye”
  35. “Anjos (Pra Quem Tem Fé)”
  36. “Minha Alma”

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