No início de abril, saiu o quarto estágio de Everywhere at the End of Time, o projeto mais ambicioso de The CaretakerO Cuidador, em português – um dos muitos pseudônimos do produtor britânico Leyland Kirby.

Trata-se de um álbum conceitual, dividido em seis partes, em que Kirby registra a evolução da confusão mental de quem sofre com demência através da manipulação digital de samples antigos, quase sempre extraídos de discos de 78 rotações antiquíssimos.

Trata-se dos mais interessante – e atordoante – dos quatro volumes lançados até aqui. A série começou em setembro de 2016, com 12 canções onde a beleza nostálgica dos sons de orquestras e big bands se fundiam a ruídos tristes e inquietantes. Desde então, a cada lançamento as canções foram se fragmentando mais e mais, tornando-se pedaços dispersos do que um dia foram, como a memória de quem sofre com a doença.

No quarto e último volume, as colagens de Kirby já começam a perder os nomes; se antes se dividiam em trechos de 2 ou 3 minutos, hoje se somam em quatro longas partes batizadas simplesmente de Stage 4 Post Awareness Confusions. Ao mesmo tempo em que ficam mais esquisitas e dolorosas, as montagens agora esclarecem a linha narrativa do projeto, e despertam curiosidade para o que será dos próximos dois volumes de Everywhere at the End of Time.

A série, prevista para se encerrar em 2019, é o réquiem de Kirby para o pseudônimo The Caretaker, que ele começou em 1999 com Selected Memories from the Haunted Ballroom. Desinteressado pelas possibilidades futuras do projeto, mas empolgado pela boa recepção de An Empty Bliss Beyond this World (2011), disco em que manipulava gravações de bailes da época da 2ª Guerra Mundial, Kirby “deu” demência a The Caretaker, desenvolvendo o conceito por trás de Everywhere at the End of Time.

Todos os volumes do projeto estão disponíveis no Bandcamp ou em edições limitadas (a maioria esgotada) em vinil. Paralelamente, Kirby segue lançando material com o próprio nome; seu último trabalho, We, so tired of all the darkness in our lives, saiu em 2017.