Na primeira vez que vi um show de Ana Frango Elétrico, me senti preso numa fronteira estranha entre o não-sei-se-sei-bem-o-que-está-acontecendo-aqui e o eu-amo-o-que-está-acontecendo-aqui. Era um show pequeno, pra umas 20 pessoas no centro antigo do Rio.

Coberta por luzes verdes, vermelhas e azuis, Ana cantava séria, com olhar ora fixo no nada, ora passeando bem-humorado pela plateia surpresa, ouvindo sua língua presa ressoar no PA modesto recheado de delay e reverb. Tocava linhas de guitarra livres, errôneas, e irresistivelmente interessantes. Seu único acompanhante era Guilherme Lírio, exímio guitarrista, baixista e produtor musical que naquela noite tocava bateria, mesmo sem saber tocar bateria.

Mesmo perdido e surpreso, eu achei tudo aquilo o máximo. E esse sentimento voltou há algumas semanas, quando chegou às plataformas de streaming Mormaço Queima, o álbum de estreia de Ana Frango Elétrico.

Repleto de cinismo e ironia, o álbum é uma sucessão de surpresas inquietantes, em que o pop livre de Ana costura sua poesia pinicante com maestria. Às vezes lembra Velvet Underground, às vezes lembra Tom Zé, às vezes remete a Patti Smith ou a Luiz Tatit. E enquanto isso, penetra o zeitgeist do indie rock internacional ao se assemelhar com o espírito “vale tudo” da americana Frankie Cosmos (que na semana passada lançou Vessel, seu terceiro álbum) e com a narrativa cotidiana da australiana Courtney Barnett, guitarrista e compositora de mão cheia.

Bem arranjado, Mormaço Queima faz funcionar um improvável encontro sonoro que vai do punk rock ao maracatu, passando pela bossa nova, pela fanfarra e chega até ao blues. As letras de Ana são aparentemente – e apenas aparentemente – ingênuas, repletas de observações das mais banais – um mantra sobre o McLanche Feliz abre as portas da psicodelia em “Picles” – às mais mordazes, como na ácida “Roxo” (“fala pra caralho mas não pixa Igreja / fala pra caralho, não faz xixi em Igreja”).

Mas um dos fatores mais interessantes de Mormaço Queima não é somente o disco em si, mas a lista de créditos do álbum. O disco é mais um – e certamente não o último – a reunir uma geração de músicos e produtores que pouco a pouco, disco a disco, têm dado uma nova identidade à cena musical carioca, aproximando as tradições da canção ao experimentalismo que sobrevive em raros pontos da cidade, da tradicional Audio Rebel, em Botafogo, a espaços como o novíssimo Aparelho, na Praça Tiradentes.

Além de Ana, o disco foi produzido por Guilherme Lírio, Gustavo Benjão, Marcelo Callado e Thiago Nassif. Guilherme é um dos cabeças do Exército de Bebês, banda que, entre canções próprias aqui e ali, é formada por alguns dos principais músicos da nova cena carioca. Benjão e Callado são artistas solo e também integram o Do Amor, um dos poucos grupos da geração Los Hermânica a seguir ativo e atuante (Callado, vale lembrar, ainda foi baterista da excepcional banda Cê da última trilogia de estúdio de Caetano Veloso). E Nassif, por sua vez, é destaque da cena experimental já há algum tempo, e parceiro recorrente de Arto Lindsay, um dos mestres na subversão da mesmice quando o assunto é música brasileira.

Outro detalhe interessante: parte do disco foi gravada em um estúdio pequeno no Jardim Botânico, que até poucos anos atrás era comandado pelo produtor Chico Neves (Skank, O Rappa, Los Hermanos). Hoje, quem pilota o 304 é Pedro Carneiro, mais conhecido pelo pseudônimo Vovô Bebê, outro que estreou em disco recentemente. Por fim, Mormaço Queima ainda tem os trombones de Antônio Neves, outro jovem músico que se lançou no fim do ano passado com o brilhante Pa 7, lindo álbum instrumental com influências de afrobeat e do movimento Black Rio.

Esses nomes, junto ou separadamente, aparecem nos encartes virtuais de outros lançamentos recentes de artistas cariocas, como Romance Modelo (2017), estreia solo de Mari Romano, os últimos álbuns de Bruno Cosentino e o EP de estreia de Matheus Torreão, que ainda em 2018 lança seu primeiro álbum com produção de Vovô Bebê e Guilherme Lírio.

O rolo todo é muito denso para se destrinchar aqui, mas é evidente que borbulha no Rio uma geração de artistas que têm profunda admiração pela tradição da música brasileira, mas tenta romper, cada um à própria maneira, esse cordão umbilical. E isso que não falamos dos outros muitos artistas com berço no Rio que têm provocado pequenas grandes revoluções na música alternativa nacional – Letrux, Negro Leo, Baleia, Ventre (agora extinta?), Cícero etc., etc., etc.

Mesmo moribundo, o Rio vive. Musicalmente, ao menos.

P.S.: de tempos em tempos, atualizo a playlist Faixa Título com mais ou menos 1h de música nova, de acordo com o tema que der na cabeça. Pra acompanhar o texto de hoje, a edição #012 da playlist tem alguns dos nomes que citamos aqui e mais alguns, segue lá pra ouvir: