Underoath abandona rótulo de “banda cristã” para salvar a carreira

Spencer Chamberlain disse que a religião tornava tudo tóxico e que "tinha um problema enorme em dizer que essa era uma banda cristã"

Underoath
Foto: Divulgação / Nick Fancher
 

Underoath é uma banda de Screamo/Post-Hardcore da cidade de Tampa, Florida (EUA) que recentemente atingiu a marca dos 20 anos de carreira, e após passar por um hiato entre 2013 e 2016, está prestes a lançar o seu primeiro disco em 8 anosErase Me.

O lançamento mais marcante do grupo foi o álbum They’re Only Chasing Safety (2004), e desde então o sexteto uniu uma base de fãs muito fiel, seja pelas composições marcantes, pesadas e fora do comum do grupo ou pela sua identificação como uma banda de metal que seguia e propagava a fé cristã.

Seguia é o tempo verbal correto mesmo, pois em entrevista recente à publicação norte-americana Revolver, o vocalista Spencer Chamberlain abriu o jogo sobre os problemas pessoais que enfrentou durante o hiato da banda e revelou que o Underoath decidiu abandonar os rótulos religiosos para poder salvar as suas carreiras, como uma espécie de libertação.

O anúncio da mudança de posicionamento veio acompanhado de uma nova biografia da banda em seu perfil no Spotify:

A banda que abertamente – e sem ser apologética – propagou a sua visão de mundo baseada na fé diariamente em palcos ao redor do mundo, deixa pra trás o território de polêmicas aparentemente impenetráveis. Através de várias conjunturas, ‘Erase Me’ ilustra esses momentos de santuário, ansiedade, traição e luta que inevitavelmente vêm à tona quando a humanidade entra em conflito com os seus sistemas de crença.

Spencer falou durante a entrevista sobre o período turbulento desde a primeira ruptura com o baterista (e também vocalista) Aaron Gillespie até o hiato definitivo do Underoath e a sua reunião em 2016 para a turnê RebirthDurante os anos de intervalo de sua banda principal, Spencer se manteve ativo com a gravação de um disco solo e uma posterior turnê com a sua nova banda (Sleepwave), mas a época também ficou marcada pelos problemas com o seu vício em drogas:

Eu acho que nenhum de nós estava realmente feliz, e no começo de 2013 decidimos nos separar. Os próximos três anos das nossas vidas foram possivelmente os três piores da minha até agora: eu caí em uma depressão profunda e passei por uma crise de identidade, sem saber de fato o que fazer. Eu estava escrevendo um disco solo com um amigo e fazendo turnês – e eu acho que estava tentando novamente. Foram anos difíceis. As pessoas não fazem ideia da potência com a qual nos dedicamos por tanto tempo; eu acho que nós trabalhamos demais da conta depois de um certo ponto.  Não existem mapas ou trajetos traçados para essa carreira, nós só começamos com o pé direito e eventualmente nos desgastamos. Foi um extenso período de mudança de vida entre 2010 e 2018 pra mim; eu aprendi muito sobre mim mesmo e sobre a vida.

Spencer também dividiu insights sobre o processo de reconstrução do Underoath e como a banda aos poucos aderiu ao inevitável ciclo de composição de um novo disco:

Quando nós concordamos em fazer shows de novo [em 2016], eu meio que soube que algo ia acontecer. É irrealista pensar que nós vamos nos reunir em um estúdio para ensaiar todas as nossas músicas e não vamos testar riffs novos. A gente só ensaiou o que precisávamos praticar para o que nos propusemos a fazer e fingimos que não íamos fazer um disco novo e tentamos não colocar essa pressão em ninguém da banda. Mas acho que eu e o Aaron eventualmente soubemos que nós precisávamos escrever algumas músicas.

Assim que a primeira turnê Rebirth terminou, eu voei para Salt Lake City onde ele mora e nós dois começamos a escrever em segredo por um tempo até que os outros caras começaram a falar sobre compor. Aí todos nós compartilhamos ideias diferentes e começamos a falar sobre a ideia de fazer um disco. Foi um processo natural, mas um processo muito demorado.

Uma das principais mudanças entre esse trabalho e o restante da discografia do Underoath foi a libertação da necessidade que a banda tinha de propagar e defender ideais cristãos. Quando Chamberlain começou a enfrentar problemas com drogas em sua vida pessoal, a religião não cumpriu o mesmo papel que o vocalista e demais membros do Underoath haviam pregado por toda a vida. Essa desilusão foi o que marcou o início da quebra da filosofia religiosa da banda:

Eu acho que toda a ideia de por isso pra fora foi moleza pra gente. Se você entende como uma banda funciona, é realmente difícil balancear todas essas relações e personalidades. E além disso nós estamos adicionando religião à essa mistura e tornando as pessoas responsáveis por diferentes coisas enquanto elas estão crescendo, amadurecendo e aprendendo coisas sobre elas mesmas e dizendo a elas ‘vocês têm que ser como eu, fazer as coisas que eu estou fazendo.’

Eu não ligo pra que porra de religião você segue, isso não tem nada a ver com o ponto da coisa toda. Não tem nada a ver com um grupo em comunhão se movendo unidos, é sobre um bando de pessoas crescendo por conta própria. Era muita pressão, e tudo o que você fazia, você era crucificado por isso – sem querer fazer trocadilhos. Você não podia fazer nada sem deixar alguém bravo. As pessoas não se dão conta do quanto isso pesa nas suas costas.

O meu problema com drogas foi muito aberto publicamente e toda a comunidade cristã me odiava. Eu estava passando por dificuldades e tudo o que eu recebia era ódio, tipo, tudo o que acontecia era as pessoas me dizendo o quanto eu era um merda o tempo inteiro. Isso não é amor, isso não é confortável. O período da minha vida no qual eu mais me senti sozinho e isolado foi o tempo durante o qual eu me considerei um cristão, pessoalmente. Porque eu tive problemas reais acontecendo na minha vida e ninguém podia falar comigo sobre isso. Não havia ajuda. Não havia nada. Era só ‘esconda isso, não fale sobre isso porque se você falar então você não é cristão e a banda não poderá continuar’ e isso é uma coisa tão fora da realidade. Estava nos levando em direções opostas e tornando tudo muito tóxico e eu tinha um problema enorme em dizer que essa era uma banda cristã.

Curiosamente, uma parte da base de fãs torceu o nariz para essa decisão do Underoath, já tendo criticado a banda pela inclusão da imagem de um santo/anjo vandalizado na capa do novo disco e inclusive achou ruim que a banda tivesse usado o termo “fuck” em uma de suas músicas pela primeira vez.

Capa do disco ‘Erase Me’ com o anjo vandalizado.

Eu acho que parte da música e da arte é jogar lenha na fogueira. Uma das melhores coisas que nós já fizemos foi quando concordamos em não ser mais uma banda cristã, e enquanto nós estávamos produzindo esse disco a frase ‘isso não é Underoath o suficiente’ estava proibida de ser dita porque essas duas coisas arruinaram a nossa banda. Nós não podíamos crescer musicalmente e nós não podíamos crescer individualmente e assim que nós deixamos essas coisas pra trás nos tornamos uma família saudável e feliz que se dá bem e pode criar música em unidade de novo.

Eu estou sóbrio há mais de um ano e eu sei que eu pude fazer isso acontecer porque nós deixamos todos esses conceitos e restrições irem embora. Isso é maravilhoso pra mim e se as pessoas estiverem furiosas sobre isso elas podem ficar com raiva o quanto quiserem. Eu estou em um ponto na minha vida onde eu posso ser feliz e saudável e eles realmente querem que nós sejamos uma banda de metal cristã de novo? Eu estaria morto agora. Eu estaria miserável – passando por uma overdose de drogas – e não existiria um Underoath.

Essa nova versão do Underoath está se preparando para o lançamento do seu novo disco, Erase Me, no dia 6 de Abril. Até o momento a banda divulgou dois singles: “On My Teeth” “Rapture”. A tracklist completa do álbum você pode conferir abaixo:

01. “It Has to Start Somewhere”
02. “Rapture”
03. “On My Teeth”
04. “Wake Me”
05. “Bloodlust”
06. “Sink With You”
07. “Ihateit”
08. “Hold Your Breath”
09. “No Frame”
10. “In Motion”
11. “Gave Up”

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