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Antes um trio, o grupo Morcheeba, que agora é formado pelo duo Skye Edwards (vocalista e compositora) e Ross Godfrey (multi-instrumentista), é um dos mais respeitados da cena eletrônica e experimental desde os anos 90.

Formada em 1995, na Inglaterra, a banda já lançou 9 discos e vendeu mais de 10 milhões de cópias. Blaze Away, o mais recente, está sendo divulgado agora no mundo todo. É o primeiro trabalho da dupla em cinco anos e irá render a maior turnê mundial de sua história.

E essa turnê começou justamente no Brasil, como parte do Nublu Jazz Festival, evento organizado pelo Sesc São Paulo que já está na oitava edição. No dia 15/3, se apresentaram o grupo também britânico Sons of Kemet e o cantor e saxofonista nigeriano Sean Kuti, filho de Fela Kuti.

O dia 16/3 ficou por conta da cantora e tecladista brasileira Geanine, com seu projeto G T’aime, e do Morcheeba. A banda de Skye e Ross ainda tocaria na Argentina no dia 18 e no Chile dia 20. Pra fechar o Nublu Jazz Festival, se apresentaram no dia 17/3 a cantora brasileira Bebel Gilberto e a sueca Neneh Cherry.

Confira abaixo o nosso bate-papo com a banda Morcheeba antes de subir ao palco na capital paulista.

Entrevista

TMDQA!: Blaze away é o primeiro álbum em cinco anos. O processo de composição e gravação foi diferente de como era cinco ou 20 anos atrás, quando vocês começaram? Entre vocês mesmos ou quanto ao mercado da música?

Skye: Sim. Bom, tem uma coisa similar: o primeiro disco foi gravado em um quarto, e os vocais desse disco também foram em um quartinho de costura na minha casa. Essa é uma similaridade. Mas agora só há dois de nós. Costumavam ser três. Paul Godfrey, irmão do Ross, não está mais na banda, e claro que isso faz uma grande diferença na indústria da música.

TMDQA!: E vocês estão satisfeitos com o trabalho?

Ross: Sim, é o melhor disco que fazemos em muito tempo. Tem uma energia e uma dinâmica no disco que fiquei feliz de conseguirmos capturar. De uns tempos pra cá, o mundo da música tem se resumido a apresentações ao vivo. Parece ser o único jeito de fazer dinheiro. Então eu quis trazer um pouco da energia de palco para o estúdio. Eu não gosto de álbuns que são muito polidos e produzidos. Eu quis que fosse meio cru, e acho que atingimos isso, especialmente na faixa-título, “Blaze Away”.

TMDQA!: Como é ser um artista na Inglaterra atualmente? Quando vocês estavam compondo, prestaram atenção nas questões geopolíticas do mundo, ou isso não afeta vocês?

Ross: Eu acho que estamos sempre lutando pra fazer a mensagem da música ser ouvida. É a mesma coisa que falavam John Lennon, Jimi Hendrix e Bob Marley. É tudo sobre paz, amor e entendimento. É sobre incluir pessoas. Tem sido horrível com situações como o Brexit e com pessoas como Donald Trump no mundo. Tudo parece estar andando pra trás, longe do progresso. No disco tem uma música chamada “Love Dub”, que é sobre unir as pessoas através do amor, ao invés de dividi-las através do medo.

TMDQA!: E como está sendo a experiência de vocês no Brasil?

Skye: Já tocamos algumas vezes por aqui. Nossa primeira vez foi em 98 ou 99, eu acho. Mas essa é a primeira vez que estamos vivendo a cidade de São Paulo antes do show. Estamos em um hotel muito agradável, chamado Unique. Me disseram que o Skye [famoso bar que fica no terraço desse hotel] foi nomeado por minha causa, o que é divertido [risos]. Vivemos andando de táxi, mas dessa vez pudemos caminhar pelas ruas, que são muito bonitas. Ontem [dia 16/3] estivemos em São José dos Campos, que também foi uma ótima experiência.

TMDQA!: Vocês tocam em festivais de jazz pelo mundo todo. Esse evento do qual vocês fazem parte aqui no Sesc também esta sendo chamado de festival de jazz. Vocês se consideram uma banda de jazz, além dos outros gêneros pelos quais são conhecidos?

Ross: Eu toco “bum notes” de vez em quando, isso é bem coisa de jazz [risos]. Mas na verdade não. Festivais de jazz são um guarda-chuva pra abranger mais tipos de música. O Morcheeba teve várias influências, a maioria de estilos mais livres de música, como rock psicodélico, R&B, dub e coisas assim. É legal tocar em festivais de jazz, são eventos incríveis para se estar envolvido, porque dá pra assistir outras bandas em vez de viajarmos sozinhos ouvindo nossa própria música.

TMDQA!: Alguma banda ou gênero tem influenciado vocês com mais força recentemente?

Ross: A gente adora a Tropicália, do Brasil! Eu adoro ouvir bandas como Os Mutantes e artistas como Gal Costa e Caetano Veloso. E mais recentemente o Moreno Veloso. Eu acho os discos dele maravilhosos.

TMDQA!: A família Veloso, inclusive, tem feito alguns shows juntos.

Ross: É mesmo? Isso é ótimo! E ainda do Brasil, eu lembro de tocar guitarra em um disco da Cibelle. Ela é ótima também. Na primeira vez que viemos a são Paulo, tivemos mais ou menos 20 minutos entre uma entrevista e outra e corremos para a loja de discos mais próxima. Compramos o máximo de discos que pudemos carregar. Foi um trabalhão voltar pra Londres com eles, porque eram pesados! Assim eram os dias antes da internet, você não podia simplesmente pesquisar coisas no YouTube. E era impossível ouvir música brasileira no Reino Unido. Nós fizemos um disco com David Byrne uma vez, e ele ama musica brasileira. Ele costumava nos mostrar algumas coisas. Aliás, ele me apresentou pessoalmente a Caetano Veloso. Foi uma das únicas vezes na minha vida que fiquei sem palavras [risos]! Eu não sabia o que dizer. Ele é um homem bom que faz músicas incríveis.

TMDQA!: Obrigado e bom show!

Ross e Skye: Obrigado!