Faixa Título: a isenção política do pop nacional é em si um posicionamento. E dos mais covardes

Ao prezar a imparcialidade em post sobre assassinato de Marielle Franco, Anitta repete a insistência do pop nacional em se comprometer com o não-comprometimento

Anitta - Instagram Marielle
 

Depois de dias em silêncio, mantendo sua presença online como se o Brasil não estivesse em convulsão após o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, a maior artista pop do país no século XXI falou, enfim.

Abriu seu Instagram e bradou a seus mais de 27 milhões de seguidores a sua visão sobre a execução sumária de uma das mais expressivas lideranças políticas a emergir do caos político nacional pós-2013.

Uma mulher, como ela. Negra, como ela. Da periferia do Rio de Janeiro, como ela.

Nos últimos meses, Anitta surfou no sucesso de “Vai Malandra”, um funk ilustrado por um clipe ambientado na favela do Vidigal. Em “Machika”, música de J Balvin lançada em janeiro, se auto-intitulou “la sensación de la favela”. E nos últimos meses, se manifestou diversas vezes contra o projeto de lei que tentava criminalizar o funk, em atitude elogiada aqui mesmo neste blog.

Tudo indicava que Anitta parecia ciente do seu importante papel não só como ícone da música-enquanto-entretenimento, mas também do seu papel como formadora de opinião, como voz capaz de alcançar centenas, milhares, milhões. Muitos artistas se posicionaram sobre Marielle; MC Carol, especialmente, brilhou. Até a californiana Katy Perry, em show ontem (18) no Rio de Janeiro, homenageou a vereadora.

Mas, por dias, nada de Anitta. Ao longo da última semana, aumentavam as cobranças de muitos de seus seguidores por uma posição clara da cantora mais influente do Brasil em relação à morte de Marielle.

Pressionada, Anitta escreveu hoje em seu Instagram… e não disse nada.

“Eu ia fazer um post daqui um tempo… que era quando eu achava que faria sentido pra mim”, adiantou. “Então.. se alguém estiver interessado em saber minha opinião sobre o caso Marielle, leia esse texto imaginando que o escrevi daqui 3 meses”.

Era como se no reinado do pop o tempo obedecesse a outras leis que não a do próprio tempo, como se ele se dobrasse aos caprichos humanos. Como se, em uma realidade paralela, a abreviação brutal na vida de Marielle não tivesse ocorrido em um instante fugaz.

Em seguida, em pouco mais de 1.200 caracteres, Anitta fez um esforço hercúleo para se solidarizar com a tragédia enquanto evitava assumir qualquer posicionamento político. Reconheceu a tragédia – não fazê-lo seria de uma insensibilidade absurda – mas insistiu em grifar sua imparcialidade diante dos evidentes contornos políticos da execução.

“Não me importa se Marielle era de direita, de esquerda, de frente, de costas, lésbica, ou mãe precoce ou sabe lá mais o que (sic)”, patinou. “Se ela não fosse feminista como eu, também teria meus sentimentos, se não fosse favelada como eu, também teria meus sentimentos. De esquerda, direita, hetero, gay, pecador, religioso, o que for… Ninguém merece morrer”.

Ninguém merece morrer, é claro que não. Especialmente nas condições em que Marielle e Anderson morreram. Mas, distante da dura realidade das ruas do Rio, ao relativizar a história e o próprio assassinato de Marielle, Anitta invisibilizou a luta política da vereadora, eleita com 46 mil votos, e que foi silenciada por enfrentar publicamente grupos acostumados a calar violenta e impunemente quem ousa levantar a própria voz. Foi silenciada por ser quem era.

A ansiedade dos admiradores de Anitta por uma declaração pública dela rapidamente virou rejeição. No Twitter, chegou a virar piada pela expressão “Eu ia fazer um post daqui a um tempo”. Em tempos onde a representatividade midiática se prova uma arma essencial na evolução de debates sociais, esperava-se uma cobrança de justiça não somente pelo crime bárbaro, mas um esclarecimento sobre as perigosas e escusas motivações por trás do crime bárbaro, naturalizadas como um crime qualquer no post de Anitta.

O post original de Anitta no Instagram, antes da edição

Pressionada mais uma vez, Anitta reagiu. Manteve o post, mas trocou os 1.200 caracteres do texto por um só: um emoji de coração partido.

Assim, em dois atos breves, Anitta descartou a credibilidade que ganhou organicamente ao longo de 2017, ano em que soube crescer comercialmente com a narrativa de mulher que veio da periferia e venceu os evidentes obstáculos que pessoas como ela enfrentam diariamente. Mesmo sem querer, somou-se à longa lista de artistas do pop nacional que evitam se posicionar politicamente, que evitam se comprometer com qualquer um dos lados da rasa dicotomia política brasileira, confortavelmente observando um país dividido em cima do muro da alienação.

É uma pena. Ainda que Anitta não tenha sido a primeira nem certamente a última a se comprometer com o não-comprometimento – a manifestação recente do Capital Inicial é o mais perfeito exemplo disso – é triste constatar que, apesar de suas origens, apesar de ser quem é, Anitta escolheu a isenção. Uma isenção no mínimo ingênua, por não perceber que a isenção em um estado de exceção é escolher a covardia.

Chega a ser irônico que uma de suas principais referências artísticas seja Beyoncé, que na última meia-década tem se reinventado como importante voz política pró-feminismo e anti-racismo nos também divididos Estados Unidos. Mirando em Beyoncé, Anitta acabou como Taylor Swift, outra voz poderosa que notoriamente optou pelo silêncio como forma de não frustrar seus seguidores que apoiam o governo Donald Trump.

Absorvida pelas engrenagens do capitalismo, a música se transformou em produto. Virou entretenimento. E tudo bem que haja música que nos faça esquecer dos nossos problemas, dançar como se o mundo não fosse um desastre rochoso vagando pelo sistema solar. Mas música também é arte, cultura, política; a música, há séculos, serve como espaço de resistência, de levante e propagação de ideias.

Ignorar tudo isso nos tira toda a alegria, Malandra.

Atualização: no fim da tarde de segunda (19), Anitta deletou a postagem.

   
 

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