James Blunt
 

Entrevista por Nathália Pandeló Corrêa

No final do ano retrasado, James Blunt twitou: “Se você achou 2016 ruim – eu vou lançar um disco em 2017”. Ameaçou e cumpriu. Ciente do misto de piadas e críticas de que suas músicas são alvo há algum tempo, Blunt não se deixa abalar. Ri delas, em um tom tão sincero quanto jocoso, nas suas redes sociais. Com isso, conquistou de volta a atenção na timeline de quem antes lhe torcia o nariz.

Mas entrar no Spotify das pessoas são outros quinhentos. A indústria já é outra, bem diferente da que ele conheceu em idos de 2004, quando dominou todas as paradas possíveis ao som de “You’re Beautiful”. Com Back to Bedlam, seu disco de estreia, trouxe ainda sucessos como “High” e “Goodbye My Lover” e recebeu cinco indicações ao Grammy. De lá pra cá, vieram os álbuns All The Lost Souls (2007), Some Kind of Trouble (2010) e Moon Landing (2013).

Atualmente, o cantor de 43 anos está em meio a uma turnê mundial de The Afterlove, álbum de número cinco na carreira. Com nomes como Teddy Geiger, Ed Sheeran e Ryan Tedder assinando como co-autores e co-produtores em algumas faixas, Blunt apresentou um misto de canções que modernizaram seu som, flertando com o pop, ao mesmo tempo em que entregou as faixas mais introspectivas pelas quais é conhecido.

No dia 25 de fevereiro, o cantor se apresenta em São Paulo com este novo show, na casa Tom Brasil, com ingressos entre R$90 e R$400. Aproveitando este retorno ao país, conversamos com James Blunt sobre este atual momento. Confira abaixo:

TMDQA!: Olá James, obrigada por seu tempo! Falando nisso, estava vendo que em 2009 você esteve no Brasil abrindo shows do Elton John. Mas essa não foi sua última vez aqui, certo?

James Blunt: Na verdade, eu fiz outras duas turnês desde então e fui com elas a São Paulo e ao Rio. E nós amamos ir aí! Sabe, nós na banda somos ingleses, e o público inglês é um dos mais quietos que existem (risos). Então quando a gente vai ao Brasil, é uma energia completamente diferente, vocês cantam alto e parece que têm a música nas veias. É sempre um prazer fazer shows aí!

TMDQA!: Que legal! Agora, sei que você passou por momentos diferentes na sua carreira, e como você ainda não esteve aqui com essa turnê, imagino que você vá aproveitar para mostrar ao público que não te viu ainda alguns momentos de cada uma dessas fases. O que você está preparando em termos de repertório para o show aqui em São Paulo?

James: Eu estou na minha quinta turnê mundial, e com esse disco, já estamos na estrada há quase seis meses. Fizemos muitos shows pela América do Norte, Estados Unidos… Então estávamos testando esse repertório com todos os outros públicos antes de chegarmos aí (risos). Estamos muito felizes com esse disco e vamos apresentar algumas canções dele. Mas sei que as pessoas querem ouvir as mais antigas também, então é claro que vamos entregar “You’re Beautiful”, “Goodbye My Lover”, “1973”, “Same Mistake” e outras.

TMDQA!: Falando nisso… Sei que não faz tanto tempo assim, mas em 2004, tocar no rádio e ter um clipe repetindo o dia todo na MTV significava algo diferente do que significa hoje. Atualmente, o jogo é outro, e talvez por isso a gente não tenha tantas “You’re Beautifuls” – que é um ótimo exemplo daquela música que está em todos os lugares. O que você acha que mudou no modo de como um hit se forma, hoje em dia?

James: O negócio da música mudou muito, mas de uma forma empolgante. Antes, você lançava um álbum e trabalhava alguns singles, e essas eram as músicas que as pessoas acabavam conhecendo. Hoje em dia, não. Elas fazem streaming, e vão até suas canções. O público pode ouvir todas elas, e não apenas os singles, então isso significa que para lançar um disco, você não pode ter apenas uma música boa. Por isso eu passei dois anos compondo e escrevi mais de 100 músicas.

TMDQA!: Pois é, desde o Back to Bedlam, você lança discos com certa regularidade, a cada três anos, mais ou menos. Mas nesse, você levou um pouco mais de tempo. Pode contar um pouco sobre esse processo?

James: É interessante… Eu estava com meu produtor [Tom Rothrock] no deserto. Estávamos no festival Burning Man, e ele me disse “Sabe, James. Já foram quatro discos e uma incrível jornada. Se você quisesse, poderia se aposentar hoje”. E eu pensei, “que estranho meu próprio produtor falando isso”. Mas depois me dei conta que o que ele queria dizer é que, se eu queria ir para o disco número cinco, eu precisava torná-lo realmente especial. Então comecei a trabalhar. E não me fechei num estúdio com quatro paredes e sem ninguém, como fazia. Eu compus antes de entrar no palco numa premiação da MTV. No quarto de hotel do Ryan Tedder, vocalista do One Republic. E numa viagem pra esquiar que fiz com o Ed Sheeran.

TMDQA!: Exato, neste álbum você trabalhou com uma combinação muito específica de compositores e produtores – e acho que faz sentido, se olharmos de onde você vinha e onde queria chegar com esse trabalho. Por que você escolheu esses caras especificamente – Teddy Geiger, Ryan Tedder, Ed Sheeran. De que forma eles contribuíram?

James: Ed Sheeran é um amigo meu. As pessoas sempre pensam que há competição na indústria da música, mas isso é mais uma disputa das gravadoras por conta das paradas de sucesso. E o Ed é um grande amigo. Com o Ryan Tedder também peguei estrada, estava no ônibus de turnê junto com o One Republic… E o Teddy eu conheci em Los Angeles. Quando você está compondo um disco muito pessoal, que tem a ver com a sua vida, é melhor escrever com um amigo, que já te conhece e até sabe o que você quer falar. Nesse meio tempo, tantas coisas boas aconteceram, e ruins também. Fantásticas e trágicas. E eu queria escrever sobre elas.

TMDQA!: Lançar um disco, imagino, é como soltar os filhos no mundo, sem saber muito bem como eles vão ser tratados. A julgar pelo seu Twitter, você parece lidar com críticas muito bem, e até ri delas. Essa foi a sua abordagem pra esse disco? Não sei se você lê resenhas ou recebe algum feedback do público, mas agora já se passou quase um ano do lançamento, então como você se sente sobre essas músicas, que compartilha quase toda noite com o público? Isso mudou sua percepção delas?

James: Acho que sim… Como disse, já estamos com essa turnê por tempo suficiente para saber quais músicas funcionam e quais não são tão bem recebidas. Fico feliz porque as músicas que eu mais gostei do disco são as que estão tendo as melhores respostas. A gravadora e meu empresário sempre dão sugestões, mas no fim das contas vale o que o público recebe melhor. E essa é uma das grandes vantagens de fazer o que eu faço, essa conexão com o público.

TMDQA!: Esse é o seu disco número cinco. Dá pra dizer que você tentou sair da zona de conforto, que é tão tentadora pra qualquer pessoa criativa. Depois de tanto tempo, como você mostra um lado diferente para as pessoas, ao mesmo tempo que tenta entregar o que elas esperam?

James: Eu acho que as pessoas sempre se surpreendem. Especialmente nessa turnê, eu venho com banda – nós estamos em cinco na estrada – e os shows são uma surpresa para as pessoas que esperam ver um cara com um violão e tocando aquelas músicas lentas, que é a imagem que eles têm de mim.

TMDQA!: Por fim, a gente sempre pergunta pros artistas com quem conversamos sobre o que andam ouvindo. Me corrija se estiver errada, mas “afterlove” me faz pensar em “aftertaste” (retrogosto), no sentido de algo de que você não consegue se livrar com tanta facilidade e que fica na sua cabeça.

James: É bem isso mesmo.

TMDQA!: Então, nesse sentido e só pra nos mantermos no assunto, qual foi o disco (ou os discos) que mais ficaram na sua cabeça ultimamente?

James: Eu gosto muito do The Weeknd, então o último disco dele pra mim foi incrível. Adorei aquele álbum.

TMDQA!: Tá certo, James! Muito obrigada por seu tempo e espero que você se divirta aqui no Brasil.

James: Obrigado! Nos vemos aí!

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