Entrevista: No line-up do Lollapalooza Brasil, Metronomy reflete sobre seu álbum mais recente

Conversamos com Joseph Mount, idealizador de uma das atrações do festival

Metronomy
  

Entrevista por Nathália Pandeló Corrêa

O Metronomy não tem pressa. Depois de lançar Summer 08 em julho de 2016, o quarteto levou quase um ano para engatar de fato uma turnê. Passou pelos principais palcos da Europa e, desde novembro em hiato, retoma as atividades para uma turnê sul-americana em março: tem Lollapalooza Brasil, Chile e Argentina, assim como um show na Colômbia.

A banda é o filho mais velho do vocalista, tecladista e guitarrista Joseph Mount. Hoje ele tem duas crianças, de verdade, e vive uma vida tranquila na França, mas quando começou o projeto, em 1999, mal poderia imaginar que ainda estaria na ativa. Do primeiro disco, Pip Paine (Pay the £5000 You Owe) (2006), já se vão mais de 10 anos, seguido por Nights Out (2008), The English Riviera (2011), Love Letters (2014) e o atual trabalho. Apesar do que o nome indica, Summer 08 não é sobre verão… e nem sobre nostalgia.

O que o álbum resgata é a gênese do Metronomy, quando a banda era apenas Joe em seu quarto em Devon, acompanhado de um computador antigo do pai. Como centro criativo do projeto desde sempre, ele retomou as gravações sem a banda que hoje o acompanha nos palcos – Oscar Cash (guitarra), Anna Prior (bateria) e Gbenga Adelekan (baixo). Além de ser o sr. Metronomy, ele ainda assina remixes para nomes como Franz Ferdinand, Klaxons, Gorillaz, Lady Gaga, Lykke Li e outros.

Agora que se prepara para vir ao país com a atual turnê, Joe conversou com o Tenho Mais Discos Que Amigos! por telefone. Confira o papo.

TMDQA!: Oi Joe, prazer falar com você. Queria falar do último lançamento de vocês! Você já comentou que Summer 08 não é necessariamente um disco nostálgico. Mas ao mesmo tempo, é difícil não olhar para 10 anos atrás e ver tudo que aconteceu desde então. Tem algo que você já tinha sacado ao começar a gravar Summer 08 – com maturidade e tudo mais – e que você gostaria de ter sabido quando entrou em estúdio pro Nights Out, por exemplo?

Joe: Eu acho que… Bem, provavelmente várias coisas diferentes (risos). Mas eu acho que eu gostaria de ter sabido que as coisas seriam ótimas pra gente, e que ainda estaríamos aqui fazendo isso após 10 anos, sabe? É curioso, na nossa vida, a gente ouve desde cedo dos nossos pais, que já são mais experientes: “não torça para que a sua infância acabe logo”. E é bem isso. Nós não nos demos conta de como é bom ser jovem. Se você tem sorte o suficiente de ter um bom resultado com seu primeiro trabalho e pode viajar com ele e tudo mais… Isso nunca poderá ser recriado. Quando se aprecia o que você vive, as coisas podem ser perfeitas. E eu acho que nós apreciamos bastante, somos muito gratos por tudo que tivemos a oportunidade de viver com esse trabalho.

TMDQA!: Ainda dentro desse assunto de nostalgia, o disco não soa necessariamente a 2008. Na verdade, às vezes ele parece ter vindo de 1988! Isso foi intencional?

Joe: Acho que é algo muito… O lance é que nasci em 1982, então boa parte das músicas com as quais eu tenho uma conexão emocional foram feitas nesse momento, de fim dos anos 80. Eu desde sempre era bem obcecado com rock n’ roll, o som daquelas baterias e tudo mais. Então eu não tinha muito pra onde fugir, é muito do que eu sou (risos).

TMDQA!: Agora, não é segredo nenhum que o Metronomy é filho seu, uma realização da sua visão criativa. Aí você vai lá, compõe aquelas músicas… e entrega pra diretores criarem sua interpretação. Os clipes são sempre legais, bem feitos e tal. Mas como é pra você abrir mão desse controle que tem, de certa forma, e ver suas músicas pelos olhos de outra pessoa?

Joe: Pode ser algo bem empolgante. Eu adoraria tentar dirigir um clipe, mas penso que é a mesma situação de quando um músico cria a trilha sonora para um filme. Você pode aprender bastante trabalhando com outras pessoas. Às vezes você recebe um vídeo que é exatamente o que você queria passar com a música… E às vezes não é bem aquilo e precisa de ajustes. Mas você precisa se libertar de ter o controle sempre e confiar nas pessoas. Deixe que elas se divirtam criando algo também.

TMDQA!: Bem, vocês não tiveram pressa com esse disco, no sentido de que não saíram em turnê logo depois de lançarem. Mas agora já faz um ano e meio, e você está por aí compartilhando essas canções com o público. Levá-las para a estrada te deu uma noção diferente de como as pessoas reagiram a elas – ou mesmo mudou a sua percepção sobre elas?

Joe: Me deu, sim. Mas é uma coisa curiosa agora, porque mesmo se a gente não tivesse feito um novo álbum e decidíssemos sair em turnê, as pessoas ainda estariam dispostas a virem nos ver tocar músicas antigas. Você lança essa coleção de músicas e as pessoas ouvem e tudo mais. Mas no fim das contas, elas só querem ir te ver e se divertirem com o seu som. Não importa se são músicas novas ou velhas, elas reagem bem a elas quando tocamos. E tenho a sensação de que chegamos a um ponto que é além da coisa tradicional de lançar disco-fazer turnê-lançar disco-fazer turnê, sabe? É que nós encontramos pessoas que querem nos ouvir, independente disso.

TMDQA!: O curioso é que você gravou o disco “em casa”, por assim dizer – na França. Já que você mora em Paris, eu imagino que você tenha composto parte dele lá também. Você acha que esse clima entrou nas músicas, de alguma forma?

Joe: Não especificamente… Mas acho que há uma forma de pensar muito francesa que de algum modo se faz presente das minhas músicas, e tenho noção disso. Mas talvez o disco anterior [Love Letters] tenha sido o nosso mais francês até agora.

TMDQA!: O que quer que isso signifique, certo?

Joe: Exatamente! (Risos)

TMDQA!: Pergunto porque tenho a sensação que você não se limita a ouvir coisas de um gênero ou um lugar só – tomando por base o clima diferente de cada disco do Metronomy. Já que você vem tocar no Lollapalooza Brasil, Chile e Argentina e ainda passa pela Colômbia, queria saber se você tem alguma conexão com o som daqui – não necessariamente como inspiração para a sua música, mas como algo que você curta ouvir mesmo.

Joe: Eu provavelmente… A maior parte das músicas sul-americanas que conheço vêm do jazz. Sabe aquele estilo mais fusion? Eu acho que tem até um pouco dessa parte rítmica que aparece aqui e ali nas músicas que faço. Mas quando penso em música da América do Sul ou do Brasil, nunca é pop ou rock, são mais ritmos percussivos mesmo.

TMDQA!: Você não está enganado, de fato a gente tem vários exemplos de estilos assim e grandes músicos de jazz.

Joe: Sim, eu sei!

TMDQA!: Bom, não vou te segurar muito. A gente sempre pede uma dica de disco dos músicos com quem conversamos, e como estávamos falando de França agora há pouco, queria saber se tem algo daí que você acha que a gente deveria conhecer!

Joe: Aí no Brasil a Christine and The Queens é conhecida?

TMDQA!: Não sei se ela chega a ser famosa, mas já está chegando por aqui. Gosto muito de “Tilted”.

Joe: Então, ela tem essa outra música, “Saint Claude”, que eu gosto muito. É muito boa, vale a pena o pessoal procurar.

TMDQA!: Tá certo, Joe. Obrigada pela dica e espero que vocês se divirtam aqui no Brasil.

Joe: Não vemos a hora!

 
Compartilhar

Comentários