Em Roteiro para Aïnouz, Vol. 3, seu primeiro álbum, Don L é preciso, sagaz e autofágico. Ao longo do disco, lançado em junho do ano passado, o rapper discorre sobre tudo ao redor dele para explorar o próprio interior, e oferece ao ouvinte uma imagem clara do mundo complexo do qual é causa e consequência.

Roteiro está longe de ser um disco simples, mas não é um trabalho difícil. É um oceano de referências cruzadas, ora óbvias, ora turvas. É um disco musicalmente diverso, que respeita as tradições do rap enquanto procura maneiras de subvertê-las. É uma sequência de porradas ao status quo da música brasileira – com provocações claras a nomes como Paula Lavigne, Caetano VelosoRick Bonadio ou ícones da nova geração do rap nacional, como Emicida, Criolo, Projota e Rashid. Mas acima de tudo, Roteiro é um disco acessível, um livro aberto onde cada rodada oferece novos pontos de vista, novas leituras, imagens por vezes intencionalmente contraditórias sobre a mente por trás dele.

Criado em Fortaleza, Don integrou o grupo Costa a Costa antes de se lançar em carreira solo em 2013, com a mixtape Caro Vapor / Vida e Veneno. Firmado em São Paulo, o rapper começou a desenhar o que se tornaria seu primeiro disco, concebido como a parte final de uma trilogia inspirada na obra do cineasta cearense Karim Aïnouz.

A boa recepção do trabalho, lançado em um ano incrível para o rap nacional, consolidou Don L como um dos grandes e mais promissores nomes da cena, mas ofereceu tantas respostas quanto dúvidas a cerca de quem é e o que quer Don L. Em entrevista ao Faixa Título, ele discorre sobre o álbum, os próximos passos da trilogia, o que deve levar aos palcos em seu novo show e as visões que tem para o Brasil no – certamente – conturbado 2018 que vem pela frente.

Faixa Título: o lançamento do seu primeiro álbum mudou seu status na cena completamente. Isso ficou claro dias antes desse show de lançamento, que teve os ingressos esgotados 13 minutos após o início das vendas. Como você vê a repercussão do Roteiro para Aïnouz, Vol. 3?

Don L: Eu acho que cresci bastante, né? Na real as pessoas já esperam um trampo oficial meu tem um tempo, eu tinha lançado só mixtape, então tinha uma expectativa boa pra esse disco. Eu tenho dado um passo de cada vez na minha carreira, construindo as coisas devagar, mas de forma sólida.

E esse disco veio em um ano fenomenal pro hip-hop no Brasil, né? A gente viu o lançamento grandes álbuns do Rincon Sapiência, da Flora Matos, de muita gente que tava pra lançar novos trabalhos tinha um bom tempo…

Esse ano teve uma virada muito boa. O Rincon é um cara que todo mundo sabia que precisava estar no topo do rap brasileiro, era meio que um consenso. “Por que que isso não tá acontecendo? Qual o problema com esse país?” (risos). E nesse ano aconteceu. Flora Matos também, muito esperado o disco dela. E pro Nordeste foi muito bom também, porque o Baco [Exu do Blues] veio com um disco, o Diomedes [Chinaski] também tá conseguindo se firmar na cena… Então acho que 2017 é um ano que vai ficar pra história.

E como você adaptou o disco pra esse novo show?

Esse vai ser um show bem do trampo novo, com poucas músicas antigas, e alguns convidados que eu faço questão de apresentar pro meu público. Vai ter o Terra Preta, o Nego Gallo, o Diomedes e a Lay, que são artistas muito fodas que precisam de mais reconhecimento, e que vão ser meus convidados em toda oportunidade que eu tiver. A gente também tá com uma estrutura de luz muito foda, além de ser no dia do meu aniversário, né? Então vai ser uma celebração, clima de festa, pra mostrar o trampo do disco, mas mostrar também essa rapaziada.

Esse álbum é o terceiro volume de uma trilogia, certo? É uma história que você começou a contar de trás pra frente?

Isso. Eu fui fazendo vários sons no decorrer desses [últimos] anos, e eu sempre digo que faço esses sons porque eu preciso deles. Eles são parte da minha vida, mesmo. Tem música que eu faço e nem lanço, mas todas são parte da minha biografia. Eu preciso delas, eu faço porque eu preciso ouvir. E aí quando eu acho que eu formei um bom pacote pras pessoas ouvirem, eu compartilho. E aí teve um momento em que eu pensei que essa poderia ser uma história em três volumes, em fazer um “rascunho” pro [cineasta cearense Karim] Aïnouz, sendo bem modesto. Depois que eu fui pensar em chamar de roteiro. Eu não teria essa pretensão de fazer um roteiro pro Karim Aïnouz, mas acabou que dentro dessa perspectiva de fazer o disco como se fosse um filme, eu pensei que podia ser o roteiro de um filme dele.

E você pretende lançar os outros dois volumes, como planejado? Ou a boa repercussão desse disco mudou seus planos?

Essa ideia sempre vai mudando, até por ser um bagulho autobiográfico, é uma ideia que sempre tá evoluindo. Eu já tenho algumas músicas prontas, mas quando eu vou gravar eu sempre vou mudando uma coisa ou outra, e tenho grandes ambições em termos de produção. A gente mira lá em cima pra chegar num ponto aceitável pra lançar. Então acho que nos outros dois eu vou mirar mais alto ainda em termos de produção, de conceito, tem muita coisa de audiovisual que eu queria fazer, mas que já é uma brincadeira mais cara (risos), leva o jogo pra outro nível. Mas eu tenho muita coisa escrita. O Roteiro para Aïnouz, Vol. 3 tem bastante coisa antiga, que eu fiz quando cheguei em São Paulo, há três, quatro anos, e outros sons que são bem mais recentes. Os próximos vão ter outros sons que são ainda mais antigos que eu vou adaptar, trazer coisas novas, até eu achar que tá pronto, e lanço.

As letras das duas primeiras músicas do disco (“Eu Não Te Amo” e “Fazia Sentido”) geraram muita polêmica pelas citações a outros rappers, outros artistas, e pela análise crítica que você faz do movimento em torno do hip-hop. Tanto que em “Fazia Sentido” você ironiza o fato de eventualmente ter que explicar a letra de “Eu Não Te Amo”, e recentemente teve que explicar o que você quis dizer com as duas em um post no Facebook.

Sim, sim.

E o que você achou disso tudo, de como as pessoas receberam essas letras?

É muito louco, porque as pessoas não são acostumadas a isso no Brasil. Não sei se em outros lugares é assim também, mas no hip-hop gringo eu sei que isso existe muito. Eu tento contextualizar bem os nomes que eu cito, mas a gente tá num momento dentro do rap, dessa molecadinha que tá começando a ouvir rap agora, em que essa molecadinha tá muito na sede de saber o que o cara tá falando. “Ah, ele falou daquele cara nessa linha aqui”, só que nessa às vezes eles querem caçar treta onde não tem. É normal, eu acho isso tranquilo. Com o tempo as pessoas vão se acostumar mais a isso, a entender quando é uma treta e quando é uma citação, que mesmo sendo irônico você tá tratando [a pessoa citada] com respeito. Quando você cita alguém, você já tá dizendo, de um jeito ou de outro, que aquela pessoa é relevante, entendeu?

E você chegou a ter resposta de algum dos citados nas letras? Eu sei, por exemplo, que você gosta muito do Emicida, mas você sabe se ele recebeu bem as citações a ele?

Não, nunca mais trombei o Emicida. Mas ele é um dos caras mais inteligentes que tem na cena brasileira, né? Eu não espero nada pouco inteligente ou sábio do Emicida, não. Se tem um cara que eu acho que entendeu bem foi ele. Acho que as pessoas que eu cito, a maioria delas, tem maturidade pra entender o que eu quis dizer.

O trecho que eu mais gosto em “Fazia Sentido” não é nenhuma dessas citações, mas a parte em que você canta: “Ler o título não é ler o livro / Ler o livro não é entender o livro / Depois que cê entender o livro / Cê pode colar pra falar que cê num curtiu o título”. Eu entendi como uma referência à superficialidade das discussões na arena virtual, ainda mais nesse momento político que o Brasil vive, e queria saber o que te inspirou a escrevê-los.

É exatamente isso. Você abre a internet e você fica com raiva, é um mar de anti-informação. A gente não tem uma palavra adequada para isso em português ainda, mas eu tenho estudado inglês e eles chamam isso de misinformation, que é o contrário de se informar, é se desinformar. E a gente tem visto muito disso, as pessoas querem dar opinião sobre assuntos que elas não fazem a mínima ideia do que se tratam, tá ligado? O cara lê o título de uma matéria, nem lê a matéria – e às vezes, mesmo que leia, é uma matéria ruim – e já sai falando. As pessoas já têm uma opinião formada, uma opinião pronta, e usam a internet só pra justificar aquilo, ganhar uns likes e parecer inteligente. Antes de postar sobre um assunto, ele já tem uma opinião, e ele vai no Google procurar argumentos pra opinião que ele já tem. Ninguém tá interessado em aprender de verdade, em abrir a cabeça, em ler um livro. Vamos ver se é isso mesmo? Vamos estudar esse bagulho? Esses dias eu tava escutando um podcast, o Politiquês, e eles tavam falando sobre isso, sobre esse lance de fake news, de informações compradas, esse momento obscuro da história que a gente tá vivendo. E a gente precisa fazer alguma coisa sobre isso.

E como você espera que o seu trabalho seja visto, dentro desse contexto? No Brasil de 2018, ano de Copa do Mundo, de eleições…

Esse ano, cara (risos)… Esse ano vai ser histórico, puta que pariu. A mensagem mais importante que eu tenho pra passar, nesse momento, pelo menos, é de que as pessoas tenham um pensamento mais complexo sobre as coisas. De não ser simplista. A gente tá pendendo pra essa dualidade de “esse cara é Deus ou é o Diabo, é o herói ou o anti-herói, é a esquerda ou é a direita”, e a gente precisa de mais discernimento, de muita calma. Entender que somos humanos em evolução, que ninguém é perfeito nem totalmente imperfeito. Esse cenário é muito propício pra grandes merdas, tipo o facismo. Um cara como o Donald Trump ser eleito o presidente da maior nação do planeta, isso é surreal!

Ou um Bolsonaro surgindo em alta nas pesquisas eleitorais daqui.

Já pensou, um Bolsonaro? Que é uma versão piorada [do Trump] cem vezes? O cara é um estúpido! Não é só que ele é fascista, ele é burro, é um cara de pouca inteligência, tá ligado? Então, porra… Imagina isso! A gente não pode deixar isso acontecer. E quem tem o pensamento mais à esquerda tem que ficar ligado pra não cair na mesma armadilha. Não sei se lutar com as mesmas armas é válido, de entrar no mesmo joguinho pra ganhar a “guerra”. Talvez eu seja idealista mesmo, mas eu acredito na inteligência, em não subestimar a inteligência das pessoas, tá ligado? E acho que a principal mensagem que eu gostaria de trazer é essa. É o que eu quero dizer quando falo “eu sou comunista e curto carros” [em “Aquela Fé”]: o mundo não é essa coisa sem graça, ou Deus ou o Diabo.

Serviço:

Don L: lançamento de Roteiro para Aïnouz, Vol. 3

Dia 18/01 (quinta), na Comedoria do SESC Pompeia, em São Paulo, às 21h30. Com participações especiais de Diomédes Chinaski, Terra Preta, Nego Gallo e Lay.
Ingressos esgotados. Mais informações no Portal SESC, ou nas unidades SESC São Paulo.