The Neighbourhood
 

Entrevista por Nathália Pandeló Corrêa e Tony Aiex

O The Neighbourhood pode estar lá pela terceira linha do pôster do Lollapalooza Brasil, mas não é à toa que o quinteto californiano está no line-up. Após o sucesso de “Sweater Weather”, single do álbum de estreia I Love You (2013), eles seguiram lançando singles e EPs com uma frequência notável. Foi assim que surgiram projetos como #000000 & #FFFFFF (2014), uma mixtape em que exploraram de vez a sintonia com o hip hop e estampam, na capa e no título, um compromisso estético.

Receio de experimentar é certamente algo que não passa pela cabeça da banda. Pelo menos é o que conta o vocalista Jesse Rutherford, que descreve o som do THE NBHD como “dark pop”, com um pezinho no emo que eles assumem, mas ao qual não se limitam. É meio rock, meio pop, meio indie, r&b, junto e misturado. Tudo culminou no segundo álbum, Wiped Out!, lançado em 2015.

No mais recente EP, To Love, que chegou hoje (12/01) aos serviços de streaming, o The Neighbourhood combina muitos desses elementos. Vocais e instrumentais etéreos dividem espaço com momentos intensos, em que bateria e guitarra explodem, nervosas. Já o single “Scary Love” se tornou uma boa representante da veia indie pop da banda.

Talvez o The Neighbourhood lance em breve um novo álbum. Ou talvez não. Brincar com os diferentes gêneros e formatos é o que tem mantido a banda ativa nos últimos cinco anos, recriando essa salada de influências. O que eles querem, no fim das contas, é entregar algo único a quem ouve – e que a partir daí surjam outras tantas reinterpretações.

Conversamos sobre o atual momento da banda com Jesse, por telefone. Pode ser que ele surpreenda ao subir no palco do Lollapalooza, em São Paulo. E não pelo motivo que você está pensando.

TMDQA!: Olá Jesse, obrigada por falar com a gente! Sabemos que o The Neighbourhood tem uma carreira relativamente curta, mas já deu pra acumular fãs e tocar em festivais pelo mundo. No meio disso tudo, vocês lançam bastante material. Como tem sido essa jornada pra vocês até aqui? Imagino que muito trabalho, mas com uma coisa atrás da outra, deu pra processar cada uma dessas etapas?

Jesse Rutherford: Sim… Quer dizer, já faz um tempinho que estamos nessa. Foram muitos altos e baixos. Certamente esse é o projeto mais longo que qualquer um de nós já teve. É como se… você comparasse com ir à escola. Você tem um projeto e se dedica a ele por um bimestre, ou então um ano. Mas isso não, foi um compromisso longo que assumimos. Dá pra dizer que são muitos altos e baixos emocionais. Algumas coisas são melhores do que imaginávamos, outras são piores… Só estamos felizes de estarmos onde estamos. Eu diria que estamos retomando o ritmo, estávamos num período mais pra baixo, mas como você disse, é muito trabalho envolvido. E não é como se nós soubéssemos que tudo isso ia acontecer. Quer dizer, eu sempre quis ser um astro, desde pequeno, mas os outros caras da banda, não necessariamente. Mas é isso, agora queremos nos dedicar a dominar a nossa arte.

TMDQA!: Bem, como você disse, já faz um tempo. Desde 2011 vocês estão lançando EPs, o que significa que os fãs recebem novas músicas com frequência. Como é compor e gravar tudo isso? Como tem sido usar esses formatos diferentes e como acha que os fãs os têm recebido?

Jesse: Pra mim, parece que faz total sentido e é muito natural. Se você olha um artista de hip hop, ou um artista pop solo, eles têm muitos projetos, singles, estão constantemente lançando coisas. É conteúdo, conteúdo, conteúdo. E isso é um artista só, sabe? Então como nós somos cinco, é normal que tenha mais coisas (risos). Eu acho que esse é o nosso trabalho como “banda de rock”, entre aspas mesmo. Digo, é para estarmos fazendo tudo isso, produzindo. A gente só quer ser parte de algo, lançar músicas que querem dizer alguma coisa, e brincar com formatos diferentes. E nem somos uma banda de rock, de fato, então…

TMDQA!: Pois é, queria falar brevemente sobre isso. Porque vocês misturam rock, R&B e até soam um pouco experimentais, ao mesmo tempo que pop. São muitas camadas, e talvez seja isso que destaca o som de vocês. Como você descreveria esse encontro de influências pra quem ainda não conhece a banda?

Jesse: Eu só diria pop. A gente costumava chamar de dark pop, porque tem ali uns elementos emo. Mas é o que a música deve ser, essa mescla de sonoridades e influências. Entre as bandas que dialogam com nosso som, sinto que fomos os primeiros a experimentar em muitos sentidos, em explorar outras fronteiras. E quando você é o primeiro a fazer algo, talvez não fale tanto com as pessoas, mas aí você vê outros artistas abrindo essas portas e já criando em cima do que você vinha fazendo. Eu sinto que já influenciamos algumas criações, e as pessoas vão lá e até aperfeiçoam aquilo que começamos, e é isso que a gente quer fazer. Criar influências e tendências.

TMDQA!: Bom, essa é a parte musical, mas os clipes de vocês são um caso à parte, porque são centenas de milhões de views. E só de ver as capas dos discos, dá pra ver que existe um conceito visual ali. Como vocês fazem essas escolhas estéticas e você acha que elas já se tornaram parte da identidade da banda?

Jesse: Sim, com certeza. Mas sempre foi assim, porque a identidade visual é muito crucial para nós. Quando começamos a banda e demos o nome, o esquema de cores veio logo em seguida. Sabe, eu não sou uma pessoa orgulhosa, não acho que tenho o direito de ter orgulho de nada que sou ou ganhei nessa porra de planeta (risos), mas eu tenho orgulho disso. Artes, logo, nome, pôsteres, foi tudo algo que eu fiz. Eu vinha com as ideias e os caras sempre iam na onda. É como se fosse meu bebê e eu estivesse botando roupas novas nele, pra ficar bonito. E os rapazes ajudaram a nutrir isso. A analogia é meio nojenta, mas é como se eles tivessem amamentado ele (risos). Eu diria que sou uma pessoa superficial em um nível profundo. Os meninos não ligam tanto. Eu sou sempre o cara que fica pensando ‘e se a gente fizesse isso com tal instrumento, e os timbres da guitarra, e aquela letra’ e às vezes eles me dizem que estou pirando muito. Não de forma desrespeitosa, mas eles me lembram que preciso cantar de forma que represente todos na banda, e isso é verdade. Agora eu sinto que esse bebê cresceu e tem uma identidade própria. Não dá pra controlar quem vai ouvir. Você vê o que tá rolando com a gente no Brasil. Vocês falam português, certo?

TMDQA!: Isso!

Jesse: Então, é isso. Às vezes você não tenta fazer as coisas acontecerem de um certo modo, elas só acontecem. E agora eu já sinto que aprendo com o bebê que ajudei a criar e que ele já tem uma mente própria e eu só sigo. Deu pra entender? (risos)

TMDQA!: Deu sim! Estão me dizendo que precisamos encerrar, que pena! Então falando rapidinho do Lollapalooza, queria saber se vocês estão planejando algo especial para sua primeira vez no Brasil e se há alguma banda do lineup que gostariam de ver ao vivo.

Jesse: Eu teria que olhar melhor o lineup, mas eu sei que vai ter shows ótimos. E de qualquer forma, sempre que estamos em festivais, gostamos de ir ver outras bandas e artistas e, sinceramente, ser incluído nesse grupo. Tem toda essa música ao vivo acontecendo e as pessoas querem você ali, é uma sensação de que você tivesse sido escolhido para o time, sabe? Quanto ao show em si, eu não sei de nada ainda (risos). Acho que vamos começar a ensaiar em breve, então não sei o que vamos tocar. Só sei que vai ser radical! Eu só estou pensando no que vou usar, porque quero fazer uma boa primeira impressão.

TMDQA!: Bom, independente do que você usar, o público vai te receber bem. Você vai poder sentir o calor do público brasileiro!

Jesse: Jura? Então eu acho que vou sem roupa, vou estar melhor preparado! (risos)

TMDQA!: Olha, eu acho que seria uma escolha que ia chamar bastante atenção!

Jesse: Então tá bom, é isso que a gente quer, ser popular! (risos)

TMDQA!: Tá certo! Jesse, obrigada pelo seu tempo e espero que vocês se divirtam aqui no Brasil.

Jesse: Eu que agradeço. Não vemos a hora!