Um dos sons mais ouvidos no Brasil em 2017 é a flauta de uma peça de Bach. Em “Bum Bum Tam Tam”, produzida e cantada pelo paulistano MC Fioti, o sample central vem de “Partita em Lá Menor”, escrita pelo compositor alemão na primeira metade do século XVIII.

O trecho sampleado, que dura cerca de 5 segundos, se transforma na espinha dorsal de uma das canções mais urgentes, tensas e sensuais do pop nacional da última década quando aparado por um beat seco, denso.

A tal da “flauta envolvente que mexe com a gente”.

“Bum Bum Tam Tam” é um fenômeno. Um hit de alcance inquestionável, com quase 500 milhões de visualizações no YouTube – um recorde do já numeroso canal do Kondzilla – e mais de 70 milhões no Spotify. Mas é mais do que um fenômeno comercial, mais do que uma peça exótica por samplear Bach. “Bum Bum Tam Tam” coroa a atual geração do funk como a vanguarda da música popular produzida no Brasil contemporâneo. E por mérito próprio, jogando de acordo com as próprias regras.

As evidências foram abundantes nos últimos 12 meses. O ano começou com “Deu Onda”, do MC G15, produção de Jorgin. Enquanto boa parte da população passou o primeiro trimestre do ano discutindo os valores da letra original e da versão “oficial” da música, nossos ouvidos eram seduzidos por uma escaleta computadorizada que, pra completar o sururu, reproduzia uma nota errada da melodia.

Uma nota fora do lugar, um politonalismo. Um troço raro até na virtuose técnica do rock progressivo. Papo mais próximo do free jazz, de Ornette Coleman, John Coltrane pós-A Love Supreme. Coisa que despertava interesse no próprio Bach, aquele que começou essa história aqui.

E um acidente.

Jorgin podia tirar uma onda, inventar que se inspirou no microtonalismo de “Atoladinha – Bola de Fogo”, aquele que Tom Zé explicou no Programa do Jô anos atrás, mas não. Disse em entrevista que nem notou, que a coisa toda rolou sem querer. E não se importou muito com o fato da nota não pertencer à escala correta.

Nos meses seguintes, vimos MC Livinho se consagrar com “Fazer Falta”, produção de Perera DJ em que versos doces ao piano se contrastam a um refrão sujo, minimalista, onde o grave latente explode conduzido por um verso misterioso e onomatopeico.

O beat fica à espreita, mas nunca surge como esperado. Permanece escondido nas estrelinhas da canção, sua ausência grifada pelos dois sons metálicos que dão o suingue que a gente dança, mesmo sem conseguir entender porquê. A batida te instiga sem estar lá.

As produções de “Bum Bum Tam Tam”, “Deu Onda” e “Fazer Falta”, entre tantos outros funk lançados nesse ano, têm uma coisa em comum: a subversão dos padrões do pop. O BPM é meio baixo, a batida nem sempre serve pras pistas (apesar de lotá-las), a estrutura raramente obedece o esqueleto do hit radiofônico que a indústria projetou no último meio século.

Não só o funk é punk por natureza, como vive sua fase punk, subversiva, escrevendo as próprias regras e invadindo tudo à nossa frente, reconheçamos ou não. Um levante espontâneo, mas altamente político no momento mais imoral da história recente do país.

Aos sussurros, o funk invadiu “As Caravanas”, melhor música do novo disco de Chico Buarque. Aos berros, o proibidão anunciou a troca de facção de Rogério 157 em meio à Guerra da Rocinha, em setembro. Toda a cultura a seu redor inspirou Action Lekking, novo – e excelente – disco de Negro Leo.

E mesmo mais próxima do reggaeton ou da EDM em seus últimos singles, Anitta se firmou como a maior estrela pop dessa geração com origem justamente no funk, que será o ritmo de “Vai, Malandra”, seu próximo single, com participação de MC Zaac, que este ano explodiu com a hedonística “Vai Embrazando”. Na capa do single, que sai na próxima segunda, Anitta faz referência ao projeto de lei nº 1256, justamente o que tenta criminalizar o funk:

Desprezado pela maior parcela das elites cultural e econômica, que insistentemente reduzem o gênero a um mero subproduto comercial, o funk é um monstro mutante que há quase quarenta anos, desde suas origens nos primeiros bailes cariocas, movimenta uma da cenas culturais mais criativas e prolíficas do planeta.

O batidão não só se reinventou dezenas de vezes ao longo desse tempo, como fez isso nadando contra a maré. Seus núcleos criativos estão nas periferias, cercadas pela ausência total de privilégios e pela implacável desigualdade social. É a arte de fazer arte onde não há espaço para a arte.

O dilema social do qual surge o funk traz um outro problema à discussão: as letras frequentemente misóginas, usadas muitas vezes como argumento para o preconceito que ainda existe contra o estilo.

Antes de tudo, não são os MCs os responsáveis por disseminar a cultura machista. Eles são frutos desse pensamento retrógrado que engloba toda a sociedade. O funk é consequência.

Essa cultura deve sim ser combatida, esse discurso aniquilado. Mas através de instrução, de uma revolução na sociedade que ainda leva muito tempo pra acontecer. Criminalizar o funk não resolve absolutamente nada.

Não deixa de ser irônico que aceitemos tão melhor as letras machistas de, entre tantos outros ícones, Vinícius de Moraes. Fosse Vinícius funkeiro, negro, cria de favela, os estereótipos rasos de “Mulher Carioca” talvez fossem desprezados à mesma maneira que desprezamos o funk hoje em dia. Helô Pinheiro, quando inspirou “Garota de Ipanema”, era menor de idade. Não muito diferente da cultura da “novinha” que vemos nos funks por aí.

Mas Vinícius era branco, morava na Zona Sul do Rio. A bossa nova cruzou o Equador e foi encontrar Sinatra. O Brasil aplaudiu com orgulho.

Hoje (sexta, 15), “Bum Bum Tam Tam” foi lançada internacionalmente em versão que inclui versos de Future, um dos rappers americanos mais populares da atualidade, e J Balvin, colombiano alçado a status de novo ícone do pop latino com o sucesso de “Mi Gente”.

Um fuzuê que tira o brilho da canção original, diga-se. Mas que vai soar mais palatável aos gringos, que em breve podem transformar “Bum Bum Tam Tam” na nova “Despacito”.

E aí, será que o Brasil ainda vai ter vergonha do funk?

Ouça o novo disco do The Who!