Jack Johnson retornou ao Rio com show recheado de hits e conversamos com o cantor

O simpático artista falou sobre sua música, trabalhos sociais e a relação do seu trabalho com política

 
 

Texto e entrevista: Nathália Pandeló Corrêa

Fotos: Daniel Pandeló Corrêa

Jack Johnson chegou em 2017 à marca de sete discos lançados em 16 anos de carreira. Nada mal para um artista que preza pela simplicidade desde sempre. Conforme contou em entrevista por telefone ao Tenho Mais Discos pouco antes de lançar All The Light Above It Too, o mais recente trabalho, o cantor nunca fechou um super contrato com gravadoras, levando a carreira um disco de cada vez.

Tanto que, entre From Here to Now to You até o novo disco, se passaram quatro anos e três desde a última turnê no Brasil. Agora, Jack Johnson retorna para shows no Rio (no último dia 05/11) e em São Paulo (em 07/11, com ingressos esgotados). Pouca coisa mudou desde então: Jack segue cantando as coisas simples da vida (como a letra de “Big Sur”) e apontando, aqui e ali, algumas loucuras do mundo moderno (como o atual presidente americano na nova “My Mind is for Sale”).

No palco, as duas músicas se unem a “You can’t control it” e formam as únicas representantes do novo álbum ao vivo. Para além de All The Light Above It Too, o repertório engloba os principais singles de todos os álbuns. Para quem já compareceu a um dos shows de Jack Johnson, as surpresas são poucas, mas estão lá. Boa parte disso se deve ao carisma do músico, em um misto de simplicidade e até timidez – e a outra parte, à banda afinada que o acompanha há bastante tempo. O incrível Zach Gill brilha incontáveis vezes nos pianos, escaleta e acordeon – rouba a cena, canta, dança; Adam ganha destaque no set mais minimalista do show, trocando as baquetas pelo cajón; e Merlo é o responsável pelo groove nas cordas.

Em tão boa companhia e com o coral de casa quase cheia na Jeunesse Arena, Jack Johnson precisava entregar as canções com que conquista o público desde 2001. E ele sabe disso. No repertório, todos os grandes sucessos apareceram – “Sitting, waiting, wishing”, “Taylor”, “Good people”, “Upside down”, “Times Like These”, “Better together”. Na transição de “Belle” pra “Banana Pancakes”, o cantor brincou com a dificuldade de comunicação da letra e até arriscou um “fala comigo em Português, meu amor” – em Português mesmo.

Não satisfeito em apenas cumprir as expectativas, a banda emenda alguns covers inesperados. “Shot reverse shot” vira “I wanna be your boyfriend”, do Ramones. “Foxy Lady”, de Jimi Hendrix, também faz uma aparição e, ainda no início do show, “Mas que nada”, de Jorge Ben, aparece em “Staple it together”, música tradicional por sempre marcar um dos pontos altos dos shows de Johnson. Logo em seguida, também vira “Whole Lotta Love”, do Led Zeppelin. Em muitos desses momentos, o tradicional violão dá lugar à guitarra elétrica.

Junto de Jack Johnson, vem a preocupação com o impacto ambiental da turnê. A produção negocia com a casa de shows a diminuição do uso de copos plásticos e ainda atua com organizações locais para integrar as iniciativas sustentáveis ao show. Ao lado da esposa Kim, ele fundou e gere a Kokua Hawaii Foundation, realizando educação ambiental no seu estado natal há anos. E, com a sua iniciativa All At Once, busca parceiros locais em cada parada no itinerário de All The Light Above It Too.

Antes do show no Rio, Jack Johnson recebeu o Tenho Mais Discos Que Amigos! para uma breve conversa sobre os vários aspectos de seu novo trabalho. Com a mesma roupa que vestia na entrevista – jeans e camiseta – subiu ao palco logo em seguida. Confira o bate-papo abaixo:

TMDQA!: Oi Jack, obrigada por falar com a gente. Vou tentar ser breve, pois sei que você tem que ir tocar!

Jack Johnson: É um prazer! Desculpe, realmente o tempo é curto…

TMDQA!: Então vamos lá! Queria falar um pouco com você sobre esse novo disco. Porque na última vez que nos falamos, você ia lançar “My mind is for sale” como single, e você me disse…

Jack: Oh, já nos falamos no telefone? Prazer falar com você de novo.

TMDQA!: Sim! O prazer é nosso. Você comentou que não fazia ideia de que esse ia se tornar seu novo disco. Mas desde então, você lançou esse novo trabalho e agora o compartilha com o público quase toda noite nesta turnê. Tornar o disco algo público deve deixá-lo mais palpável pra você, acredito. Desde que lançou, mudou alguma coisa sobre como você se sente em relação a esse disco?

Jack: Sim. Tem sido interessante ver isso. Acho que as reações têm sido boas nos shows pra essa música [“My mind is for sale”]. E todos os lugares que vou… Bem, talvez já tenha falado com você sobre isso. Mas em alguns lugares, acabamos ficando mais relutantes em tocar essa música, porque eu tenho a minha própria ideia pré-concebida de como são as pessoas de um lugar. E eu notei que estava generalizando demais, estava julgando as pessoas com base em um mapa dos estados, em que uns são vermelhos e outros azuis, pela forma como cada um deles vota [nos EUA, estados de maioria democrata são azuis; e republicanos são vermelhos]. E eu aprendi que cada estado é na verdade um tom de roxo, é misturado. Quando toquei essa música em Atlanta, Georgia, por exemplo, foi a maior reação. Assim que cantei o refrão, a plateia começou a aplaudir. E notei que às vezes as pessoas em certos locais não se sentem livres para expressar suas ideias e você tem uma canção assim e elas se sentem libertas pra cantar e dizer “é assim que me sinto também” e cantam junto. De qualquer forma, tem sido uma boa experiência compartilhar essa canção e a reação do público tem sido legal. E tem alguns lugares onde a gente vai e essa é como qualquer outra música, então cada noite é diferente. Mas em alguns lugares, ela foi bem celebrada.

TMDQA!: Bom saber. Mas falando em ideias pré-concebidas… Você já comentou como fazer entrevistas é uma oportunidade de saber o que as pessoas pensam sobre suas músicas, ou como elas têm suas próprias interpretações sobre o que você compôs. E você já está fazendo entrevistas há uns meses sobre esse disco, então queria saber se houve alguma interpretação incorreta até aqui sobre as suas intenções com essas novas músicas.

Jack: Acho que não… Se há algo nesse sentido, é que fico surpreso sobre como as pessoas se surpreenderam com essa música [“My mind is for sale”]. Muitas vezes, quando faço entrevistas, você nota que é alguém que conhece um pouco sobre sua carreira e até está empolgado de te entrevistar porque respeita seu trabalho. Mas muitas vezes, são pessoas que receberam a tarefa de falar sobre o seu disco. Então acho que não é tão surpreendente pra mim. O que quero dizer é que quando faço entrevistas, logo nas primeiras perguntas, é comentado como é diferente eu fazer uma música assim. E então eu noto que eles não chegaram a ouvir um disco meu inteiro. E é completamente compreensível, porque eu tenho músicas que são meio cafonas (risos). Eu uso essa palavra, mas quero dizer é que sei que tenho músicas de amor que são piegas, e que são feitas pra te fazer sorrir um pouco, são até uma pequena piada pra mim. Quer dizer, tenho canções chamadas “Banana pancakes” e “Bubble toes”, sei lá, todas essas músicas de amor, são apenas um lado do que eu faço. Eu sempre penso em Bob Marley… Não no sentido de me colocar no nível do Bob Marley (risos), mas ele tem uma música que fala de espalhar geleia de goiaba pela sua barriga [versos de “Guava Jelly”], sabe o que quero dizer? Às vezes é ok cantar sobre sua esposa ou marido, ou colocar no mundo uma música que é só sobre um amor simples. Mas nos meus discos sempre teve um comentário social. Tenho músicas que falam “onde foram parar todas as pessoas boas” [“Good People”] ou “Crying shame” ou “Never know”, que são músicas que questionam o modo como as coisas estão. Então, se houve um momento assim, acho que mais me surpreendi com ter de ficar na defensiva nas entrevistas, tendo de dizer que não é bem a primeira vez que falei sobre algo além de “Bubble toes”, entende o que quero dizer? Em cada disco há pelo menos algum nível disso. Essa é a única concepção errônea das pessoas. Mas não espero que eles acompanhem toda a minha carreira e ouçam toda música em todo disco, então tudo bem também.

TMDQA!: Essa era uma das minhas perguntas, inclusive. Porque eu sigo sim a sua carreira (risos) e…

Jack: Oh, obrigado! (em português)

TMDQA!: (Risos) Pois é! E fiquei pensando em músicas como “Traffic in the sky” e “Good people”, que você já citou, e dá pra identificar, aqui e ali, você dizendo “bem, talvez tenha algo estranho com o mundo”.

Jack: Exato! (Risos)

TMDQA!: Nem sempre é tudo tão cafona assim! E quando você canta “pra onde foram todas as pessoas boas?”, você ainda sente que é assim ou talvez você esteja um pouco mais otimista?

Jack: Eu acho que… Pra mim, essa música é mais sobre como é às vezes ligar a TV e você começa a mudar de canal e você faz isso por um minuto ou dois e depois desliga, porque sente que… Se você fosse um alien visitando a Terra, e alguém dissesse “pegue esse controle e veja como nós somos”, ele poderia pensar, “oh, eles são todos loucos” (risos), porque às vezes a TV traz à tona o pior, sabe o que quero dizer? Você muda de canal e vê Donald Trump dizendo “você está demitido”, você muda de canal e tem pessoas peladas e com medo tentando habitar uma ilha e… A televisão dos realities é chamada assim, mas na verdade é muito longe da verdade. É uma versão sensacionalista do pior de nós, eu acho. Essa música sempre foi uma piada pra mim, tipo “pra onde foram todas as pessoas boas?”, no sentido de que estou mudando de canal e não tenho certeza se vou conseguir encontrá-las. Eu sempre senti que há ótimas pessoas no mundo, quando as conheço cara a cara. Pra mim, essa música sempre foi uma pequena piada sobre a mídia, e me sinto da mesma forma que antes.

TMDQA!: Não posso te culpar (risos). Bem, mudando um pouco de assunto. É bem conhecida a sua dedicação a assuntos ambientais. Hoje cedo mesmo teve um grupo de voluntários em Santos que foi ao mar coletar lixo, garrafas plásticas e coisas do tipo. E isso foi possível por conta do apoio da sua organização, All At Once. Então gostaria de saber como funciona esse trabalho de ir por todo o mundo e se conectar às pessoas num nível local… Quer dizer, imagino que você tenha uma equipe que ajuda a dar forma à sua visão, mas como escolher quais projetos apoiar?

Jack: Uhum. Bem, é tudo por meio da minha esposa e o pianista da banda… a esposa dele se chama Jessica e elas duas fazem esse trabalho de selecionar os grupos. Muitas vezes, assim que encontramos uma organização com quem desenvolvemos uma amizade, aquela pessoa ou comunidade nos ajuda a encontrar outros grupos que são similares ou fazendo outras coisas que são diferentes e positivas. E então nós dependemos bastante de ter um conhecimento local, tão logo conhecemos alguém que podemos confiar naquela área. E pra ser honesto, esse parece ser o meu trabalho. Porque a música é divertida, eu amo música e não posso reclamar, como se fosse trabalhoso. Há músicos de verdade, que têm que ficar praticando escalas pra tocar músicas muito difíceis, mas as minhas são divertidas. A gente pode não tocar por algumas semanas e subir no palco e fazer show, porque não ensaiamos e às vezes isso deixa o show melhor (risos). Então eu sinto que todo esse trabalho envolvendo os grupos comunitários é de fato o meu trabalho. E é algo que leva tempo. Até chegamos hoje mais cedo e conhecemos todos os grupos, cumprimentamos a todos, tiramos fotos e aprendemos um pouco sobre o que eles estão fazendo. É bom ter esse trabalho como o meu trabalho.

TMDQA!: Falando no Zack… Sou fã, aliás!

Jack: (Risos) Vou falar pra ele, obrigado (em português).

TMDQA!: Você tem esses ótimos músicos no palco, e nas turnês nós conseguimos ver um outro lado do Jack Johnson – um que toca de Jimi Hendrix a Jimmy Buffet. Como é escolher os covers que vocês vão fazer? Alguns são bem surpreendentes.

Jack: Poxa, obrigado. Estamos até tentando escolher quais vão ser os covers de hoje, vamos fazer isso agora. Muitas vezes é só uma música que a gente tem ouvido muito e goste, e tentamos… Sei lá, é uma boa pergunta. Acho que são só canções que são boas de tocar, e que combinam com outras músicas. A gente quase nunca começa uma música e faz um cover do início ao fim. A gente quase sempre mistura com outra música, começa com uma, troca e depois volta, combinando tipo num medley.

TMDQA!: Depende do momento.

Jack: É isso.

TMDQA!: Falando em ver outro lado seu… Quando a gente pensa em Jack Johnson, logo vem aquela imagem do violão, porque é algo que a gente tá acostumado a ver há 10 anos, mais até.

Jack: Não fala 20! (risos)

TMDQA!: 20 ainda não! (risos) Você também usa a guitarra elétrica há bastante tempo, mas parece ser algo que ainda surpreende as pessoas. Pra esse disco, você optou gravar um monte de instrumentos – ukulele, banjo, etc. Queria saber como esse processo alterou a forma como você desenvolve as músicas.

Jack: É meio intencional, às vezes eu quero fazer algo mais elétrico e voltado pra banda em alguns discos. Tipo em To the sea e Sleep through the static, acho que esses dois tem mais guitarra. Em geral eu vou pros ensaios com a banda. Nesses dois, eu toquei bastante com a banda antes de gravarmos. E há outras vezes em que… Bem, eu moro no Havaí e eles estão todos na Califórnia, então nesse último disco e mesmo no anterior, From here to now to you, eles vieram, começaram a aprender as músicas em um dia e começamos a gravar no dia seguinte. E às vezes quando já tocamos juntos há um tempo, como em turnê, e eu vou pro estúdio e eles me acompanham, aí é algo mais voltado pra guitarra. Hoje eu vou tocar bem mais elétrico, talvez meio a meio. Mas quando sou só eu passando um tempo, é mais acústico e eles vêm e gravamos. Nesse novo disco, eu toquei quase todos os instrumentos, em geral faço os instrumentos mais acústicos, tipo ukulele e violão. É assim que eu toco quando estou sozinho. Quase nunca pego na guitarra quando estou compondo sozinho.

TMDQA!: Infelizmente vamos precisar encerrar, mas só tenho mais uma pergunta. O nome do nosso site tem tudo a ver com a presença constante da música, nos bons e maus momentos da vida. Queria saber se você tem esse disco que é um amigo presente e que te acompanha ao longo da vida.

Jack: Sim… Eu diria Jimi Hendrix, o nome do disco é Electric Ladyland. Foi o disco que eu ganhei quando tinha 15 anos. Eu tinha acabado de ganhar meu primeiro walkman que rebobinava automaticamente as fitas cassete, e quando quando chegava no fim ele virava a fita e começava de novo. Essa era a nova tecnologia quando eu tinha 15 anos. (Risos)

TMDQA!: Chique, hein?

Jack: (Risos) Totalmente! E eu ia acampar e eu botava pra tocar. E eu e meu pai fizemos uma viagem logo após eu ganhar o disco, e era uma viagem em que acampamos e velejamos e toda noite eu botava os fones e ele tocava a noite inteira, do início ao fim. E essas canções, mais do que qualquer grupo de músicas, estão muito profundas em mim. Porque até enquanto eu dormia, as absorvia. Então não sei, esse disco mexe comigo num outro nível. E foi quando eu estava começando a aprender a tocar, então eu ficava tentando estudar os ruídos que ele fazia no álbum que soavam mágicos pra mim. Eu tentava pensar o que era, será que ele estava usando um pedal wah-wah, ou será que isso é mesmo uma guitarra? Era uma época em que eu tentava descobrir como se fazer música, estava aprendendo os acordes. Tipo, se eu pudesse aprender só esses três ou quatro acordes… Quando eu estava aprendendo com esse disco, foi uma época muito mágica pra mim.

TMDQA!: Bom, se é pra aprender, que seja com o melhor, certo?

Jack: (Risos) Exatamente!

TMDQA!: Tá certo! Bom show pra vocês hoje.

Jack: Obrigado!

Comentários