Ekena
Foto: Divulgação
 

No dia 3 de Novembro, o teatro da Unibes Cultural em SP recebeu o aguardado show de lançamento do disco de Ekena, compositora e uma das mais promissoras vozes da nova geração da música brasileira.

Em um clima intimista e profundo, todas as faixas tocadas na noite tinham algo em comum: desatavam os nós da cantora e do público em uma sinergia genuína e comovente. Um passeio do folk à mpb com muita propriedade, sentimento e letras que criam identificação com o universo feminino e seus desdobramentos.

Dos versos arrebatadores de “Ana”, inspirada em um conto de Caio Fernando de Abreu, até a militância sintomática de “Todxs Putxs” não houve quem não se enterneceu com as interpretações jogadas ao chão e a vocalidade à la Elis Regina da cantora.

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Fotos: Livia Mariah

Em um show impossível de não se olhar para dentro e sorrir de orelha a orelha, Ekena se desmancha no palco e convida as mulheres para tomar os instrumentos da banda e fechar a noite com a canção “Todxs Putxs” em ato de resistência, força e irmandade.

(O som tá um pouquinho comprometido, mas vale pela vibe. <3 )

Uma experiência necessária para quem procura por poesia, boa música, vocais de arrepiar e uma produção impecável.

Faixa a faixa: Nó 

01. “Nó”

Foi escrita em uma fase da minha vida que eu estava muito avoada, eu ficava indo e voltando para as mesmas coisas e fazendo várias coisas ao mesmo tempo, porque eu sou essa pessoa que às vezes tira o pé do chão pra andar. Ela foi um pedido de desculpa e uma forma de dizer quão grata eu era por aquela pessoa estar na minha vida e como eu queria que ela continuasse na minha vida. O quanto que eu queria que a gente deixasse tudo em paz mesmo e desatasse os nós e ficasse de uma vez. A gente já tinha passado por muita coisa no período de quatro anos que a gente se conhece e pelo período que a gente ficou junto. Então, era tanta coisa que eu achava que a gente tinha que desatar todos os nós.  

02. “Por enquanto”

É uma música que a gente escreveu, eu o Botar e o Lima, pelo Whatsapp, numa brincadeira. Um fala uma frase e o outro dava continuidade. Aí, o Botar fez a melodia e a gente brincava que ela era Whatsapp song. É a música mais diferentona do disco e tem um pouco da cara dos três.

03. “Abismo”

Escrevi quando minha avó faleceu. Eu morei com a minha vó durante quase toda minha vida, ela é uma pessoa incrível e a gente era muito apegada. Ela tinha uma mania de me acordar na janela, porque ela morava na casa do fundo, então toda vez que eu tocava violão ela ia na janela pra escutar e ficava pedindo música. Ela foi em muitos shows, me acompanhou em muitos shows, ela era muito fã. E aí quando ela faleceu, eu sentia muita falta dela, de contar as coisas pra ela, de conversar com ela, e a música foi um jeito que eu encontrei de conversar com ela, é como se fosse uma pergunta e uma resposta, contando um pouco como eu me senti quando ela faleceu e depois ela contando pra mim, no refrão “se você olhar além da linha e ver que tem mais mar depois do arco-íris, que mesmo sem te ver e sem dizer, daqui de cima eu posso contar quantos passos eu fico da janela e que eu devia sair daquele abismo gigante que eu me encontrava naquele momento”. 

04. “Bem te vi”

Fala sobre os términos dos grandes amores. Às vezes a gente encontra grandes amores, mas eles não duram pra sempre como a gente espera. Quanto a gente se transforma no outro quando a gente termina um relacionamento, como nosso sorriso fica igual, o quanto do outro a gente carrega nas costas e o quanto isso faz com que a gente sinta esse luto às vezes grande, porque a gente sente um vazio, e talvez não seja um vazio do outro, talvez seja de nós mesmos, por que a gente se perde tanto nisso que a gente não se acha. Onde eu estou nessa casa? Onde eu estou nesses amigos? Antes eu tinha alguém e agora não tenho mais, e esse alguém talvez sejamos nós mesmos também, mas como a gente se transforma muito no meio do caminho, a gente acaba sentindo essa falta gigantesca. 

05. “Ágda”

Foi escrita há um tempo, talvez em 2014, e foi um tempo que as pessoas diziam muito pra mim que eu não me abria tanto, que eu não contava das minhas coisas pros outros e que as vezes eu parecia até fria e calculista nas coisas e nos relacionamentos. Ela é meio uma história de uma garota que está sempre perdida em alguma coisa, que fugiu de casa, não conseguiu se achar e que fica esperando o príncipe encantado vir salvá-la de certa forma. E por mais que ela sinta e carregue toda essa culpa, ela sempre fica esperando que alguém tenha uma solução pra tirar ela daquele lugar. No refrão fala que: “agora ela chora e se pergunta, ‘e quanto a mim? onde eu me encontro nisso tudo? quanto você tá disposto a dar e receber de volta? por que será que às vezes a gente não se abre tanto? porque é muito isso, às vezes a gente tenta criar uma casca”. 

06. Greatest Liar

É também sobre um término de relacionamento, que mesmo com todas idas e vindas, mesmo com todo o tempo que a gente acaba ficando separado, o quanto a pessoa continua presente em todas as coisas que eu fazia durante o tempo que a gente não tava junto. E fala muito sobre o fato de eu ir perguntar muitas vezes de porque não estar comigo e a pessoa às vezes dar de ombros, que você sabe que não tá dizendo a verdade. Tem uma parte que fala: “don’t say that, you don’t wanna crust this bridge between you and me, because I know it’s a lie.  you’re not the greatest liar”.

07. Ana

Foi inspirada num conto de Caio Fernando de Abreu, que é “Sem Ana, Blue” que conta a história do fim de um relacionamento. Conheci há um tempo, mas reli quando estava passando por coisas iguais as que acontecem nesse conto, e aí eu resolvi por isso em música e resolvi criar alguma coisa em relação ao que eu tava lendo e ao que eu sentia.

08. Mais Tarde

É uma música de vômito, rs. Eu sentia tanta coisa, mas tanta coisa, que eu sentei e em 5 minutos a letra saiu. Lembro que foi de madrugada, eu tava chorando muito, tava exausta, cansada de sentir as mesmas coisas e de ser enganada, de fazer papel de trouxa o tempo todo por pessoas que dizem que gostam de você, mas não demonstram isso, dizem da boca pra fora. Ou dizem o contrário, dizem que não gostam e no fundo elas gostam, então elas ficam fazendo todo um caos na sua vida pra que você não se afaste delas. É uma analogia para quem ficou tão sobrecarregado de um relacionamento antigo, que não consegue ter um novo. Os ponteiros seriam como entrelaçar os dedos.

09. “Todxs Putxs”

Foi a última canção do disco que eu escrevi, foi logo depois de um show da Francisco, el hombre em que a Ju (Strassacapa) cantou “Triste, louca ou má”, em que eu fiquei relembrando um relacionamento abusivo que eu tive por cinco anos e que na época eu achava que era um relacionamento normal e eu só fui me dar conta depois de muito tempo o quanto eu tinha sofrido emocionalmente e fisicamente. Todos os traumas que eu tinha carregado por conta daquele relacionamento, daquela pessoa que me fez, que muitas vezes me dizia que eu tava louca, que minha roupa era ridícula, que eu não devia sair com aquela saia curta de casa, que eu não devia usar batom vermelho porque era coisa de puta, que eu me insinuava demais pros caras, que eu já tinha transado com muita gente e que quando a gente ia transar ele ficava com nojo disso, porque ele ficava imaginando as outras pessoas com quem eu tinha me relacionado. E eu só fui perceber depois de muitos anos o quanto aquela pessoa também tinha me feito ser muito mais fria, muito mais calculista, mas também muito mais forte, muito mais dona de mim! De saber exatamente as coisas que eu quero e não quero dentro de qualquer relacionamento que eu venha estar. Foi uma música descarrego. Eu nunca na minha vida quis expor essas histórias, mas aí eu expus como música porque aí eu consegui me sentir livre e aliviada desse relacionamento. O peso que eu carregava antes, eu dividi em microparcelas com várias outras pessoas que passaram pelo mesmo.

10. “Pois é”

Foi quando eu desconfiei que meu ex-companheiro estivesse namorando outra pessoa e eu fiquei muito mal na época. Teve todo um drama. Pois é e Juro Juradinho” foi um cuspe desse sentimento que eu tinha. Juro Juradinho” foi essa questão de que quando eu o conheci, eu não queria namorar, tinha acabado de sair de um relacionamento abusivo, então tinha muito medo de me envolver com outras pessoas e de sofrer, eu tava muito mal. 

11. “Passarinho”

Foi escrita para antiga banda, primeira música escrita em português, foi baseada na história de amor entre o Michel, meu melhor amigo e que tocava comigo, e a Maria Emília que é a atual esposa dele, hoje eles têm três filhos. Na época ela tava grávida do Joca, e quando ele nasceu eu escrevi “Passarinho”, baseado na história de como eles se conheceram e de como tiveram que passar por muita coisa pra conseguirem casar e ficar juntos.

Ouça o álbum completo:

Ekena é

Ekena Monteiro (voz), Vínicius Lima (voz e violão) e Gabriel Planas (baixo), Hugo Bruner (guitarra), William de Paula (teclado, escaleta e ukulele), Álvaro Malheiros (metais) e Luis Octávio Rocha (bateria).

Com informações de Lara Morais.