Mutantes no Festival de Música Popular Brasileira em 1967
Foto: Reprodução / YouTube
 

Já se passaram 50 anos! Na verdade, não parece que foi ontem, como se diz (de maneira clichê) da maioria das efemérides. O que acontece é que esse dia foi emblemático ao ponto de ser lembrado até hoje por vários artistas. O dia de hoje marca o aniversário de 50 anos de um dos momentos mais importantes da música brasileira.

Os nomes mais falados da época eram Edu Lobo, Nara Leão, Elis Regina e até Chico Buarque, que no momento começava a sua carreira sem críticas políticas. Era a galera chamada “tradicional”, influenciada por João Gilberto e sua influente bossa nova.

Do outro lado, havia os rebeldes, que aderiram ao som das guitarras que explodiam lá fora através de nomes como Beatles e Elvis Presley. Eram em maioria jovens que queriam fazer algo novo. Entre eles, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, os principais nomes do movimento da Jovem Guarda. Naquele momento, a música brasileira vivia uma batalha entre a MPB e o Rock (uma expressão frequentemente usada era “iê-iê-iê”, baseada na canção “She Loves You” dos Beatles).

No meio de tudo isso, alguns acontecimentos aqueceram a discussão “tradicional X moderno”. No dia 17 de julho, Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandré e mais artistas aderiram ao movimento que ficou conhecido como “Passeata Contra a Guitarra Elétrica“. Gilberto Gil também participou, mesmo não vendo a guitarra como invasora cultural. Em entrevista ao Estado de São Paulo, em 2012, Gil conta:

Eu participava com ela daquela coisa cívica, em defesa da brasilidade, tinha aquela mítica da guitarra, como invasora, e eu não tinha isso com a guitarra, mas tinha com outras questões, da militância, era o momento em que nós todos queríamos atuar. E aquela passeata era um pouco a manifestação desse afã na Elis.

(…)

Não quis fazer esse jogo, se eu fosse colocar como termo da equação essas questões e tirar a Elis da equação eu não teria ido. Mas eu fiz o contrário, eliminei todos os outros termos da equação e deixei ali só a Elis. Determinei meu ato, pautei meu ato por aquela questão. A questão era ela. Eu nada tinha contra a guitarra elétrica.

Caetano Veloso, enquanto isso, ficou na cara de Nara Leão, observando tudo por sua janela. Para ele, era errado afirmar tudo isso. Iria contra seus princípios. Na mesma época, os Beatles lançaram Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, um dos álbuns mais importantes da história do rock.

Boatos dizem até que a passeata teria sido uma armação da TV Record para conquistar audiência para o seu programa “O Fino da Bossa”, apresentado por Elis e por Jair Rodrigues. Em 1967, a TV mostrava-se o meio principal de divulgação musical, e a TV Record se afirmava como a detentora do monopólio da música popular nacional.

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Jair Rodrigues e Elis Regina apresentavam o “Fino da Bossa”. Foto: Reprodução / Youtube

 

O III Festival de Música Popular Brasileira

E aí chegamos ao fatídico dia: 21 de Outubro de 1967. Foi quando ocorreram as finais do III Festival da Música Popular Brasileira, também da Record. Poucos previam, no entanto, que, naquele momento, a nossa música popular seria revolucionada.

A concorrência era grande: estavam lá os sempre prestigiados Edu Lobo e Chico Buarque, mas eles não seriam o centro das atenções dessa vez. Alguns nomes ali, como o de Caetano e o de Gil, não eram conhecidos direito (ainda).

Tudo corria normalmente até que Caetano subiu ao palco com uma banda de rock, a Beat Boys. Juntos, tocaram “Alegria, Alegria”. Para o susto do público feroz, que em maioria não queria receber a guitarra, isso foi motivo para vaias.

O público, aliás, se mostrava como um verdadeiro personagem dentro do festival. Aplaudiam e vaiavam a plenos pulmões. As pessoas que estavam lá formavam um público incontrolável – e talvez até desrespeitoso. Foi isso que fez com que o compositor Sérgio Ricardo fosse desclassificado do festival. A plateia não deixava o cantor começar a apresentação da música “Beto Bom de Bola“. Irritado, Sérgio jogou seu violão longe e chamou os presentes de “animais”.

Pouco tempo depois, Gil (que até então era entendido como um tradicionalista) entrou com o grupo Os Mutantes, composto por Rita Lee, Arnaldo Batista e Sérgio Dias – Arnaldo , inclusive, teve que dizer seu nome para o apresentador do festival. Juntos, apresentaram “Domingo No Parque“, música que conta a história de dois amigos que se apaixonaram por uma mesma mulher. Tal como “Alegria, Alegria”, a canção causou certo estranhamento.

 

Nasce o Tropicalismo

Os arranjos peculiares das músicas de Gil e de Caetano se mostravam contraditórios para o momento que a música brasileira vivia. As canções continham, sim, elementos tradicionais. Em “Domingo no Parque”, temos o som do berimbau e um andamento melódico que remetia ao baião. Já “Alegria, Alegria” tem tudo para ser considerada uma marchinha.

O que impressionou a todos foi a presença da “invasora” guitarra elétrica, tal como o acompanhamento de uma banda de rock. Essa mistura da tradição com o moderno deu origem ao que ficaria conhecido como Tropicalismo, um movimento revolucionário que mudou os rumos da cultura brasileira.

Os cantores se basearam no “Manifesto Antropófago”, escrito por Oswald de Andrade em 1928. Foram influenciados pela premissa da antropofagia, ritual utilizado por alguns povos que acreditava que, ao comer partes de um ser humano, adquiriam as suas habilidades. Para Caetano, a incorporação da guitarra elétrica poderia contribuir positivamente com a cultura brasileira. Mesclar a cultura tradicional brasileira com as inovações estéticas que explodiam mundo afora representou um dos momentos mais importantes da nossa música.

 

No fim das contas

A classificação final surpreendeu tanto quanto o evento em si. Após muita discussão, Caetano acabou ficando na quarta posição. Chico, o vencedor da edição de 1966, ficou em terceiro com a performance de “Roda Viva“.

Gilberto Gil e Os Mutantes impressionaram e acabaram aplaudidos pelo público, mas foram os segundos colocados na classificação geral. O vencedor foi o compositor Edu Lobo, com sua canção “Ponteio“. Mesmo assim, a guitarra aparecendo no pódio já era um sinal de que havia alguma coisa mudando. Ali começava a aceitação do instrumento na música brasileira.

No ano seguinte, Gil, Caetano, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão, Tom Zé, Rogério Duprat e mais nomes assinariam o lançamento do álbum Tropicália ou Panis et Circenses.

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Confira abaixo apresentações recentes das duas canções mais emblemáticas desse festival, que também fizeram 50 anos em 2017: