A MTV não é um canal de música, então qual a importância do VMA?

Canal tem programação baseada em reality shows sobre relacionamentos, mas ano após ano premia os melhores clipes da música

MTV Video Music Awards
 

Quando eu era moleque tinha sérios problemas para acordar cedo e ir à aula, especialmente em um dia do ano: a manhã pós Video Music Brasil, o famigerado VMB.

A premiação da MTV Brasil acabava tarde da noite, entregava troféus aos melhores clipes do ano e ainda apresentava shows de várias das minhas bandas favoritas, e me lembro de ver performances históricas de nomes como Raimundos e Os Paralamas do Sucesso.

O VMB foi um “filho” do VMA, da matriz norte-americana, e desde que a MTV Brasil passou por uma reformulação gigantesca, deixou de existir, assim como os espaços dedicados à música na grade.

Lá fora, porém, o evento segue acontecendo, mesmo que a audiência esteja caindo ano após ano, e ontem (27) rolou a edição de 2017 que foi transmitida ao vivo para todo o planeta.

Tive a oportunidade de assistir a uma boa parte dos VMAs 2017 e nos seus intervalos tudo que eu via eram propagandas de reality shows carregados de forte apelo sexual que passam na filial brasileira e são todos originais da MTV “mãe”, nos EUA.

Programas sobre grupos que bebem até cair (e suas inúmeras versões internacionais), outros tantos sobre relacionamentos, mais alguns com cara de novela: pouca coisa, praticamente nada, se relaciona com a música, e ainda assim, o canal tem uma premiação gigantesca para celebrá-la. Por quê?

É difícil encontrar a resposta para uma pergunta sobre a relevância dos VMAs, mas ela tem muito a ver com a sociedade do espetáculo e a forma como as apresentações no VMA sempre dão o que falar.

Ano após ano assistimos a grandes shows no palco da atração e muito se fala a respeito de quem mandou bem, quem mandou mal e quem simplesmente não aproveitou os minutos para mostrar seu trabalho ali, ao vivo, para milhões de pessoas. Não há dúvidas que um material farto e de qualidade é produzido com os shows.

Meio que de pano de fundo, a premiação segue em frente com suas diversas categorias, mas honestamente a sensação que fica é de que as cartas estão todas marcadas e que os prêmios, ainda que muitas vezes merecidos, são secundários. Não dá pra negar que Kendrick Lamar não mereceu as seis estatuetas que ganhou ontem com a ótima “HUMBLE.”, mas também já estava na cara que Ed Sheeran levaria o prêmio de Artista do Ano, mesmo que em boa parte por conta apenas e tão somente de sua popularidade e de números.

Se a MTV ainda fosse um canal que mostrasse clipes durante seus horários nobres, apresentasse programas especiais com shows, fizesse séries de bastidores na estrada e, de fato, respirasse música, seria natural que nessa época do ano a premiação chegasse com uma bagagem e uma importância gigantesca, já que teríamos especialistas no assunto elegendo os clipes e artistas que consideram os melhores.

O que acontece é que hoje em dia temos um canal que passa o dia inteiro apresentando reality shows de gosto duvidoso e aí de repente celebra os expoentes da música em um grande espetáculo. Não faz muito sentido, faz?

Inclusive se você entrar agora na página com a programação do canal, irá ver que o dia inteiro é composto por programas como Catfish e os poucos que envolvem músicos, rodam na madrugada.

 

Não há dúvidas de que os shows ficam para sempre, as performances são eternas e os artistas realmente celebram os prêmios que ganham, principalmente porque a MTV faz parte da história da música mundial e muitos ali sempre sonharam em estar no palco da emissora, mas é preciso respirar um assunto se você quer ser autoridade nele, e hoje em dia isso está longe de ser o caso.

Na MTV Brasil existem (também na madrugada) blocos de clipes musicais e lá fora a MTV está dizendo que irá se reformular mais uma vez, agora para voltar com força às raízes ligadas à música, com o retorno de programas como o TRL, por exemplo.

Em outra iniciativa recente, um canal chamado MTV Classic foi lançado, reprisando materiais incríveis da emissora nos anos 80, 90 e 2000, e parece que há uma vontade de justificar o “M” em seu nome, ainda que tímida.

Com uma marca forte, o canal ainda tem muito o que fazer pela música, e seria incrível ver a emissora voltando aos seus tempos áureos. Foram-se os clipes, já que hoje em dia tudo está no YouTube, mas há diversas outras formas de se conectar com o público que é fã de música, exercer a sua influência e atuar como vitrine. Não é possível que uma geração que consome música o dia inteiro na Internet tenha perdido o interesse em assistir a conteúdo bem feito em vídeo e prefira o Jersey Shore, bem como suas quinhentas versões.

Que a MTV volte a ser o que era, e estaremos aqui para bater palmas das mais sinceras. Enquanto isso não acontece, o VMA soa como se a gente resolvesse, por aqui, fazer uma premiação dos melhores jogadores do campeonato brasileiro de futebol. Não dá, né?

     
 
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