Os Paralamas do Sucesso
 

Entrevista por Nathália Pandeló Corrêa

Os Paralamas do Sucesso dizem “sim” para a longevidade. Aos quase 35 anos de carreira, a banda sai de seu maior hiato entre discos para divulgar Sinais do Sim, o 13º trabalho de inéditas. A produção assinada por Mario Caldato Jr (Beastie Boys, Jack Johnson, Manu Chao) encontra Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone oito anos após o lançamento de Brasil Afora (2009) e uma turnê comemorativa pelos 30 anos da banda. O otimismo da faixa título, que traz versos como “Mas se já chegamos até aqui/Ver o nascer de um novo/Não parece tão ruim”, abre as portas para canções que exploram o potencial swingado do Paralamas (embora, algumas vezes, a letra resvale na melancolia).

O single “Sinais do Sim” é o único que conta apenas com Herbert, Bi e Barone. As demais faixas trazem parcerias não creditadas (Rodrigo Amarante), músicos e compositores convidados (Kassin, Duo Santoro, Nando Reis) e até uma improvável colaboração com Fernando Pessoa (cujos versos do poema “Ó sino da minha aldeia” são citados em “Olha a gente aí”). Com um pé na sua longa trajetória e outro na vontade de explorar novos sons, a banda traz ainda dois covers: “Cuando pase el temblor”, um dos sucessos do grupo de rock argentino Soda Estereo, lançado em 1985; e “Medo do medo”, da rapper portuguesa Capicua, divulgada originalmente em 2014 e mais atual que nunca.

Por conta do lançamento de “Sinais do Sim”, conversamos por e-mail com o baterista João Barone sobre este novo trabalho, o clima político no mundo, discos e amigos.

TMDQA!: Sinais do Sim nasceu após o maior hiato que vocês já tiveram entre discos, mas acredito que um dos motivos seja a turnê de 30 anos da banda, por exemplo. Como é sair desse resgate tão intenso da história de vocês e, nesse novo momento, olhar pra frente, pro presente?

João Barone: Além de estarmos bastante ocupados nesses últimos anos, houve um processo criativo sem prazo. Se houvesse a premissa de gravar um novo álbum mais rápido, já teríamos feito isso. Tivemos esse ritmo de trabalho até chegarmos nesta coleção de músicas, até sentirmos que era material suficiente para gravar. Na verdade, sempre foi assim que trabalhamos, só que agora nossa demanda é mais espaçada, algo que parece comum com artistas e bandas com essa longevidade.

TMDQA!: Falando em tempo, são 35 anos de carreira. Vocês mesmos já disseram que poderiam viver de turnês comemorativas, o que é verdade. O que motiva a continuar compondo e seguir nessa correria de shows, após tanto tempo?

Barone: Falando em longevidade, muitos artistas e bandas têm o conjunto da obra a seu favor. Estamos aqui como resultado das nossas músicas, do nosso material pregresso. Fazer músicas novas é um desafio, serve para mostrar a nós mesmos que estamos vivos, mas sem almejar superar outros índices de sucesso. Não vai ter outro “Óculos”, ou “Alagados”, ou “Lanterna dos Afogados”. Somos uma banda de estrada.

TMDQA!: Vocês fizeram duas releituras muito marcantes nesse disco – uma da rapper portuguesa Capicua e outra dos nossos hermanos do Soda Stereo. O Brasil não é muito aberto às suas raízes da América do Sul e lusitanas, mas você acha que isso está finalmente mudando junto com uma maior abertura mundial pra música latina, por exemplo?

Barone: Isso acontece no micro e no macro, tem “Despacito”, mas tem Soda Stereo, Fito Paez, Café Tacuba.

TMDQA!: O disco também traz algumas colaborações de destaque, inclusive do Amarante e do Kassin, por exemplo, que já são de uma geração após a de vocês. Eles, por sua vez, estão vendo o impacto das suas obras se refletindo hoje na produção musical. Como alguém que está na música há muitos anos, como você vê esse atual cenário, tanto o independente como o mainstream? Você compartilha da visão apocalíptica de que o rock está morrendo?

Barone: Essa visão continua no micro e no macro. Os fenômenos musicais comerciais são irrefreáveis, são reflexos do gosto das massas, ou não fariam esse sucesso todo. Comparar isso com a cena do rock brasileiro é desmedido. Tem muita coisa boa sendo feita no nicho do rock, só que hoje é preciso ir atrás, garimpar, ninguém entrega mais o rock na porta da sua casa de manhã, ou naquele canal de TV de música. Os festivais de rock no Brasil e shows de artistas e bandas com todos os ingressos vendidos em uma hora são sintoma de que?

TMDQA!: Uma das colaborações mais importantes foi com o Mario Caldato Jr., uma das maiores referências que nós temos de produção. Essa é a primeira vez que vocês trabalham juntos. O que ele trouxe para os Paralamas que vocês não tinham antes?

Barone: Trabalhar com um produtor diferente era uma demanda nossa, ver onde renderíamos e onde um novo produtor renderia no trabalho. Foi acima de tudo buscar uma “vibe” legal. Mario foi super sensível e somou muito no resultado final. Agora é que estamos nos dando conta de que, sem ele, esse álbum não teria ficado tão bom.

TMDQA!: O Paralamas sempre foi uma banda de seu tempo, no sentido de refletir musicalmente e liricamente a atualidade. E aí nós temos 2017, que talvez seja algo muito além do que vocês imaginaram como tema pra uma música! Você é um entusiasta de História, então como nos vê retratando pra eternidade esse momento confuso em que estamos vivendo? Dá pra fazer uma “Selvagem”, “Alagados”, “O Beco” em 2017?

Barone: “Sinais do sim” virou síntese da tentativa de contraponto desse clima negativo que vivemos no país e no mundo. Uma opção de acreditar que depois de todas essas agruras, sairemos melhores do outro lado. Se viéssemos com outro “Selvagem”, “O Calibre”, estaríamos nos repetindo.

TMDQA!: Falando na sua dedicação à História, mais especificamente da Segunda Guerra, no final de semana tivemos acontecimentos trágicos nos EUA, associados ao neonazismo. Tendo dentro de casa esse exemplo da luta contra o totalitarismo na figura do seu pai, qual é a sua percepção desse atual momento de muita polarização política e social? Você acredita que estamos fadados a repetir a História?

Barone: Vivemos um retrocesso global que muito se deve à falta de investimento na educação. Não aprendemos com as experiências do passado, daí que os erros estão voltando, com força.

TMDQA!: Quando vocês dizem “olha a gente aí”, fica aquela sensação de que na verdade não sumiram nesses 8 anos sem novas músicas e que não planejam sumir. Vocês vão divulgar esse disco… e depois? Já há planos ou é algo que vocês vão pensando projeto a projeto?

Barone: “Olha a gente aí” pode ser entendida como uma espécie de “vocês vão ter que nos aturar”. Não sabemos quanto tempo poderá levar até um novo álbum, mas ficamos muito empolgados com esse retorno ao estúdio, gravar é uma delícia.

TMDQA!: A capa do álbum é uma escultura do Barrão. Como vocês se relacionam com a questão gráfica, visual do disco, num momento em que o CD se tornou algo cada vez menos “palpável”?

Barone: Está funcionando muito bem chamar o Raul Mourão pra criar o visual dos nossos álbuns. Ele teve a ideia de usar a escultura do Barrão. Não somos aqueles artistas que cuidam do próprio projeto visual, de cada detalhe do trabalho gráfico, chamamos quem a gente acha que entende e tem dado certo. É uma visão externa da nossa obra que chega para somar. Adoramos a capa, os fãs estão chamando de “o álbum azul dos Paralamas”, muito legal.

TMDQA!: Falando nisso, como nosso site se chama Tenho Mais Discos Que Amigos, sempre perguntamos aos artistas com quem conversamos sobre os discos da vida deles, aqueles que foram formadores de caráter e que são verdadeiros amigos, uma companhia constante. Quais são esses álbuns pra você?

Barone: Sigo vocês no Instagram… Caramba, vou citar de bate-pronto, sem ordem preferencial: Led Zeppelin I [Led Zeppelin], Zenyattà Mondatta [The Police], Aqualung [Jethro Tull], Revolver, Sgt Pepper’s [The Beatles], Acabou Chorare [Novos Baianos], O blesq blom [Titãs], Legião Urbana I [Legião Urbana], Labor of love I (UB40), Fruto Proibido [Rita Lee].

     
 
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