Basement na Clash Club. Foto por Stephanie Hahne/TMDQA!
 

Fotos por Stephanie Hahne/TMDQA!

Um dos grandes pontos positivos sobre morar na cidade de São Paulo definitivamente é ter a chance de assistir música ao vivo em todos os formatos e com todos os tipos de artistas possíveis. De uma banda irlandesa que esgota quatro noites seguidas em um estádio de futebol a shows de ilustres e talentosos desconhecidos pelas galerias do metrô da capital paulistana, o repertório é extenso. Em uma cidade onde sua população é conhecida por ser impaciente e estressada, os fãs de música seguem um perfil oposto, tendo feito São Paulo historicamente famosa pelo entusiasmo com a música ao vivo e por abraçar a diversidade de gêneros musicais e nacionalidades como poucos lugares no mundo fazem, tornando a cidade uma parada obrigatória no roteiro de qualquer turnê sul-americana para artistas estrangeiros.

Com um histórico assim, as expectativas acabam se tornando um pouco altas quando bandas internacionais fazem a sua primeira apresentação por aqui, algo que foi prontamente reconhecido pelos headliners da noite de 22 de Julho na Clash Club, os ingleses do Basement. “Nos disseram no começo da turnê que nós não estávamos preparados para São Paulo. E estavam certos!”, chegou a dizer em um ponto da noite o guitarrista Alex Henery, impressionado com a empolgação da plateia e dos crowd surfers que constantemente entravam e saiam do palco, usando-o como trampolim para voltar para a pista em completo êxtase.

Algumas horas antes dessa cena, porém, a casa (com sua capacidade praticamente esgotada) ainda se preparava para o clímax da noite com shows de duas bandas nacionais que foram as escolhas perfeitas para esquentar o público, presente em bom número desde a abertura: BRVNKS e Kill Moves.

BRVNKS no palco da Clash Club. Foto por Stephanie Hahne/TMDQA!

A vocalista e guitarrista goiana Bruna Guimarães entrou no palco a frente de sua banda por volta das 19h da forma mais despretensiosa possível, e como se estivesse ensaiando na garagem de casa, começou a nos presentear com as músicas do EP Lanches, a começar pelo ótimo single “F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B” (ou, “Freedom Is Just A Name For What I Want You To Be”). Quem não estava familiarizado com o BRVNKS ainda deve ter achado que eles saíram de uma cena da Batalha das Bandas do filme Scott Pilgrim Contra O Mundo, mas era impossível resistir à simplicidade cativante das músicas do quarteto guiadas pela voz de Bruna, que muito nos lembrou a de vocalistas como Bethany Consentino (Best Coast) ou até Kate Nash. Em certo ponto do set, a goiana revelou que um álbum completo do grupo deve sair nos próximos 2 meses, e depois apresentou a inédita música “Tristinha”. Pode ser que ainda falte um pouco de presença de palco para a jovem vocalista no fim das contas, mas a atitude de quem faria o mesmo show tendo uma plateia ou não na frente do palco acabou sendo uma das coisas legais sobre ver a banda ao vivo, que soa muito sincera e autêntica com o tipo de som que se propõe a fazer.

Os mineiros da Kill Moves no palco da Clash Club. Foto por Stephanie Hahne/TMDQA!

Com a Clash Club quase lotada nesse ponto, o Kill Moves subiu de forma tímida (e enfrentando alguns problemas técnicos) ao palco para executar músicas do seu EP No Rewind, lançado em 2016. O quarteto mineiro de Belo Horizonte mostrou que tem muita propriedade na hora de emular um som que bebe diretamente do grunge, do emo dos anos 90 e do shoegaze. Com a sonoridade influenciada por bandas como Jawbreaker, Sunny Day Real Estate e Mineral, ficou evidente o motivo pelo qual eles foram selecionados para abrir o show do Basement, pois a conexão de estilos entre as bandas era muito clara e não seria uma má ideia ver essa parceria se estendendo por turnês em outros lugares do mundo. A surpresa maior veio já no fim do set, quando o baixista Estevão anunciou que esse era um momento grande para eles por ser o último show do guitarrista e baterista como membros do Kill Moves, deixando uma incógnita sobre o futuro da banda.

Na troca de palco entre os mineiros e a atração principal da noite, uma surpresa da produtora responsável pelo evento tomou o telão: o anúncio do retorno do Tigers Jaw a São Paulo, com apresentação marcada para o dia 5 de Novembro. Os norte-americanos de Scranton (EUA) tocaram pela última vez nessa mesma Clash Club no dia 7 de Junho de 2015.

Após o anúncio, as luzes diminuíram para o êxtase do público que ali se encontrava: era hora do Basement mostrar a que veio ao subirem ao palco pela segunda vez na noite. Sim, segunda vez, pois os ingleses mostraram que são uma banda totalmente pé no chão ao aparecerem no palco antes do show para afinar os seus instrumentos e fazer uma última checagem de som, tarefa normalmente encarregada aos roadies e técnicos da equipe de produção de palco. E pontualmente às 20h40, os primeiros acordes de “Whole” encheram a casa e deram fôlego para o pulmão dos paulistanos, que cantaram todas as frases da música para a alegria imediata do quinteto britânico. Os fãs ainda prepararam uma recepção a base de muitos balões de festa para o ar em comemoração pelo aniversário do vocalista Andrew Fisher na última quarta-feira (19), com direito até a ursinho de pelúcia de presente.

Andrew Fisher (Basement) e seu ursinho de pelúcia. Foto por Stephanie Hahne/TMDQA!

Aquasun“, o segundo single do disco Promise Everything, apareceu logo em seguida no repertório, também prontamente abraçada pelo coral paulistano que dava claros sinais de que essa seria uma noite para entrar para a história do Basement. O repertório marcado por uma mistura equilibrada entre músicas do disco colourmeinkindness (como “Covet”, “Bad Apple”, “Pine” e “Wish”), I Wish I Could Stay Here e do recente Promise Everything deixou uma sensação boa de estar assistindo uma banda que poderia muito bem ser comparada a nomes gigantescos como Nirvana, Weezer e Smashing Pumpkins, mas que é ambiciosa e talentosa o suficiente dentro dos seus acordes menores abertos, melancólicos, furiosos e distorcidos para ter a própria identidade e potencial de ser simplesmente o Basement por si só, com as próprias pernas. Essas características da sonoridade da banda ganham mais volume ao vivo ainda por estarem acompanhadas da voz imponente, rasgada e ao mesmo tempo melódica quando deve ser de Andrew.

O ponto alto do set, que teve um pouco mais de 1h de duração somente e com 3 músicas no bis, veio com a poderosa faixa que leva o mesmo título do álbum de trabalho atual, “Promise Everything“. Após ter dito “isso é inacreditável São Paulo. Inacreditável, inacreditável” com cara de quem estava realizando um sonho de infânciao simpático e empolgado guitarrista Alex convidou quem estava no fundão para chegar mais perto do palco antes de soltar os facilmente reconhecíveis primeiros acordes do atual single de trabalho da banda. “When I’m high, I’m high. When I’m low, I’m low”, cantavam em uníssono os britânicos e os brasileiros, formando uma grande banda que já não pertencia somente ao palco, mas a todos os cantos do clube.

Foto por Stephanie Hahne/TMDQA!

Após o show, quando a casa já havia sido esvaziada e todo o público ainda se encontrava bebendo e falando sobre a apresentação na frente da Clash Club, o mesmo Alex resolveu ir dar uma volta na rua para conversar com os fãs. Aproveitamos a oportunidade para perguntar pra ele o que estava achando da turnê até agora e a resposta foi:

[A turnê] está sendo insana. Nós dormimos 3h por noite e estamos pegando vários voos para ir de uma cidade a outra, mas estamos nos divertindo muito. Amanhã (23/07) vamos a Curitiba para tocar o último show e depois retornamos pra casa.

O guitarrista ainda explicou que realmente São Paulo era a data mais esperada por conta do hype que criaram em torno das apresentações na cidade e da recepção do público, que segundo ele correspondeu à altura. Visivelmente empolgado com a experiência, Alex começou a filmar as camisetas “clandestinas” da banda que ambulantes haviam pendurado na calçada usando as árvores como vitrine. “Isso é incrível!”, disse ele antes de gravar um recado exclusivo para o Tenho Mais Discos Que Amigos!:

Em certo ponto do set, o vocalista Andrew disse que era “uma absoluta honra estar tocando no Brasil” e que a mãe dele devia estar orgulhosa assistindo de casa (a banda transmitiu trechos do show através de sua página do Facebook). Torcemos para que a opinião da Sra. Fisher lá da Inglaterra tenha sido positiva mesmo, porque para os fãs paulistanos a honra foi definitivamente nossa por poder receber o Basement em casa.

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