Entrevista: Jack Johnson anuncia disco, lança single e comenta política americana

Músico está de volta com clipe contra Donald Trump

Jack Johnson
Foto por Morgan Maassen
 

Por Nathália Pandeló Corrêa

Jack Johnson não está com pressa. Conhecido por sucessos como “Better Together” e “Upside down”, o cantor havaiano surpreende com o anúncio do álbum All The Light Above It Too, previsto para 8 de setembro. O lançamento acontece quase quatro anos após From Here To Now To You, cuja turnê passou pelo Brasil.

Não que seja tão surpreendente assim: um disco já era esperado desde “Fragments”, música tema do documentário curta “The Smog of The Sea”, para o qual Johnson compôs também toda a trilha, e cujo single foi lançado em fevereiro. De lá para cá, um álbum que parecia distante de acontecer rapidamente ganhou forma, com a ajuda do engenheiro e co-produtor Robbie Lackritz (Feist, Jamie Lidell, Bahamas). A gravação foi feita no estúdio de Jack, em Oahu, e finalizado na Solar Powered Plastic Plant, em Los Angeles, sede de seu próprio selo, Brushfire Records.

Nessa sexta, “My Mind Is For Sale”, o segundo single, estreou nos serviços de streaming de música e com um lyric video, trazendo suas já características guitarra e voz suave, num arranjo quase lúdico. E basta prestar atenção na letra e no clipe pra notar qual mente está à venda: a do homem que ocupa o Salão Oval da Casa Branca e usa “palavras odiosas” – ao que Jack responde: “não gosto da sua paranoia, de que somos nós contra eles”.

Nadando contra a onda de retrocessos ambientais da administração Trump, o cantor continua se mobilizando. Desde 2003, quando fundou a Kokua Hawaii Foundation ao lado da esposa Kim (e, cinco anos depois, a Johnson Ohana Charitable Foundation), ele fala abertamente sobre o impacto de hábitos cotidianos no planeta, em especial da indústria da música. A equipe de suas turnês tem uma incumbência extra: negociar com as casas de shows o uso de copos reutilizáveis e outras iniciativas para reduzir o uso de plásticos descartáveis.

Antes mesmo do disco sair, Jack Johnson já está em uma turnê curta pelos Estados Unidos. Em breve, novas datas serão anunciadas, e entre um show e outro, o cantor conversou com o Tenho Mais Discos Que Amigos! por telefone sobre como o novo álbum surgiu, sua experiência compondo em barcos e uma viagem com uma lenda do surf que pode ter ajudado (ou atrapalhado) a finalização do novo trabalho.

 

TMDQA!: Olá, Jack! Obrigada por conversar com o nosso site. Queria começar falando com você sobre esse novo disco, porque não sei se te contaram, mas quase não tem informações sobre ele por aí.

Jack Johnson: (Risos) Sim, estou ciente!

TMDQA!: Então como se deu esse lançamento? Você guardou segredo por um tempo ou foi só algo que surgiu meio que do nada e de repente ‘hey, acho que temos um novo disco aqui’?

Jack: Essa é uma boa pergunta, porque… na verdade não comecei a trabalhar nesse disco até o início desse ano. Eu comecei a compor, mas o Kelly Slater me convidou pra fazer uma viagem pra surfarmos e foi ótimo, mas admito que isso acabou atrasando o processo um pouco (risos). Nessa viagem eu escrevi uma outra música, o que já ajudou, mas eu não tinha em mente lançar um disco agora. O que eu tinha era uns rascunhos, mas que eu imaginava que seriam pra um álbum pro ano que vem. Mas então as coisas começaram a ganhar mais forma e a partir daí foi tudo bem rápido e eu pensei, “vamos lançar então”. Nem é que eu estava tentando guardar segredo… É que realmente eu não sabia que já estava fazendo o próximo álbum (risos).

TMDQA!: Bem, o que já conhecíamos é “Fragments”, que foi escrita para o filme e trouxe de volta o seu lado audiovisual, algo que você tem feito aqui e ali há cerca de 20 anos. Como foi voltar a exercitar esse lado de cineasta e compositor de trilha mais uma vez?

Jack: Foi muito bom! Quando eu fiz uma expedição, coletando plástico do oceano entre as Bahamas e Bermudas, foi algo que reacendeu isso em mim. Foi uma viagem muito interessante por si só, e um amigo meu veio junto e ele estava filmando, eu também tinha uma câmera e comecei a gravar algumas coisas e aos poucos virou a ideia para um filme. Tem um pouco disso que você falou, de voltar a filmar. Mas por outro lado, o simples fato de estar num barco me inspira. Eu adoro compor em barcos. Não sei, acho que as pessoas ficam mais afastadas de TV, telefones, só ficam ali juntas e isso te faz pegar um violão. Eu acabo escrevendo mais músicas quando estou em barcos. Então é uma mescla disso, porque tem algo que eu gosto muito em ver as coisas através de uma lente. Muitas das minhas letras vêm disso, de ver as coisas por uma lente, um novo ângulo, e várias delas foram inspiradas por filmes. Acho que dá pra dizer que o início do disco também tenha sido aí.

TMDQA!: Faz sentido. Mas quando saiu “Fragments”, a gente meio que sabia que viria um disco por aí, eventualmente, já que você estava compondo.

Jack: Você sabia? Porque eu não sabia! (risos) É engraçado, porque essa música veio de um lugar totalmente diferente, eu fiz realmente específica para o filme. E tentei que fosse não apenas sobre poluição e uso de plástico, talvez uma reflexão sobre o nosso papel no mundo. Já o disco foi mais inspirado pelo clima político na América, sobre minha esposa, sobre sairmos pra acampar… Veio de outras coisas, mesmo.

TMDQA!: Está aí um ponto que eu queria conversar com você. Porque a sua preocupação com o meio ambiente é bem conhecida. E é difícil não pensar em como ficam as coisas com um governo Trump negando o aquecimento global e ontem mesmo, aquela placa enorme de gelo se deslocando na Antártica. Como alguém que teve a oportunidade de viajar pelo mundo e ver o impacto real das mudanças climáticas, de onde vem o seu pensamento positivo, de continuar trabalhando nesse sentido, como segue fazendo nessa turnê?

Jack: Eu acho que… Bem, como uma pessoa que vive nos Estados Unidos, é vergonhosa e muito frustrante a liderança que temos, especialmente nos assuntos ambientais. Aquele momento em que foi anunciada a saída do país do acordo de Paris foi muito impactante pra mim. Mas ao mesmo tempo, eu moro em um estado em que o governador anunciou que seríamos os primeiros a cumprir o acordo, independente de qualquer coisa. Então o que eu vejo é um engajamento. Às vezes o que se precisa é de uma pequena faísca, de iniciativas assim, pra mostrar às pessoas que o jogo não está perdido, sabe? Onde quer que eu vá, vejo pessoas trabalhando em dobro, muito mais do que antes, pra fazerem a diferença. Então não sei, talvez isso faça surgir um movimento mais forte e que, espero, nos faça pensar melhor na hora de votar na próxima eleição.

TMDQA!: Bem, se não estou enganada, esse é maior espaço entre dois lançamentos seus. Imagino que você esteja ocupado com outras coisas – como falamos aqui, do filme, suas fundações, e bem, ser pai e surfar! Mas se passaram quatro anos e, nesse meio tempo, você fez 40 anos. Será que dá pra dizer que essa vontade de não apressar as coisas veio com a maturidade?

Jack: É, acho que é a coisa natural a acontecer. Quando eu fiz o primeiro disco, nem imaginava que iria realmente virar um álbum, só ficava gravando as coisas em casa mesmo, escrevia muitas canções. E quando chegou a hora, eu tinha 25 músicas pra escolher quais seriam gravadas. Aí veio o segundo disco, e eu ainda tinha umas 10, 12 músicas já prontas. No terceiro disco, veio meu primeiro filho. E aí você pode traçar uma linha, montar um gráfico, onde os lançamentos começaram a ficar mais espaçados, pra cada filho, uma distância exponencial! (Risos) Mas é que filhos são muito bons, você só quer ficar junto deles. O lado bom é que agora eles estão crescendo e a gente está fazendo coisas juntos. Eles são muito curiosos com música, então compartilhamos isso, e gostam de fazer filmes em animação. Até trabalhando juntos no primeiro lyric video do disco, então isso é algo que fazemos em conjunto, é muito bom!

TMDQA!: Então acho que filho de peixe…?

Jack: Exatamente (risos)

TMDQA!: Você também comentou que dessa vez não estava devendo um disco pra uma gravadora. Como é ter menos pressão depois de tanto tempo?

Jack: Sendo sincero, nunca houve muita pressão. Eu tive sorte de desde o início da minha carreira ter pessoas que me deram bons conselhos. Um deles foi não se prender a contratos enormes, então fiz isso. Escolhi assinar disco a disco e ia vendo a situação das coisas. O que teve de diferente dessa vez é que eu nem tinha contrato assinado. Foi uma escolha só deixar pra assinar quando realmente sentisse que ia ter um disco pronto. (Vozes ao fundo) Poxa, estão me dizendo que preciso ir resolver umas coisas do próximo show, desculpe. Vamos fazer só mais uma!

TMDQA: Ah que pena! Mas então vamos lá: você já retomou uma agenda de shows. Há planos de um retorno ao Brasil?

Jack: Vamos sim! Só um minutinho (Afasta o fone: Nós vamos ao Brasil, né?) Ok, vamos sim, provavelmente vai ser anunciado em breve. (Afasta novamente: oi? Não sabe?) Ah, então, não sei ainda quando será anunciado (Risos). Mas eu adoro tocar no Brasil, posso dizer com certeza que é um dos lugares onde é mais prazeroso fazer shows. O público é muito receptivo e as pessoas cantam com muita vontade e com vozes bonitas.

TMDQA!: Bem, quando quer que seja, acredito que o público aqui vai te receber bem, como sempre.

Jack: Não tenho dúvidas, só tenho a agradecer!

  
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