O Little Quail and the Mad Birds é a maior banda que nunca houve no rock brasileiro.

Formado em Brasília no fim dos anos 80, o grupo acabou com menos de uma década de vida, após inúmeras tentativas frustradas de emergir do independente. Mas ao morrer, virou mito. Virou o tesouro escondido nos porões da capital federal, o elo perdido entre a caretice da Legião Urbana e a irreverência do Raimundos nas entrelinhas do nosso rock.

Hoje, o Little Quail é a banda que, quem viu, tira onda que viu. E quem não viu, inveja quem esteve lá para ver a história ser escrita.

“É uma loucura”, brinca Gabriel Thomaz, a mente borbulhante por trás do Little Quail, usando expressão que repete exaustivamente ao lembrar da banda. Há quase 20 anos à frente do Autoramas, grupo que fundou após a dissolução do Little Quail, Gabriel recentemente suspendeu todas as outras frentes de trabalho para se dedicar a uma missão que há tempos cobravam dele: subir, enfim, o catálogo do Little Quail nos serviços oficiais de streaming.

Está quase tudo lá: a demo tape de 1992, o lendário primeiro álbum, Lírou Quêiol en de Méd Bãrds, de 1994, o derradeiro EP homônimo de raridades e Compacto, EP de demos que veio à luz em em 2015, com rascunhos pro segundo álbum da banda – A Primeira Vez Que Você Me Beijou, de 1996, o único ausente dos serviços de streaming por causa de rolos burocráticos com a Virgin, que detém os direitos sobre o disco.

Em entrevista ao Faixa Título, Gabriel relembra os tempos em que dividia palcos e apertos com o baixista Zé Ovo e o baterista Bacalhau (ex-Rumbora, atualmente no Ultraje a Rigor), as lições que aprendeu com o Little Quail e o legado da banda pra gerações de fãs e músicos que vieram como testamento definitivo do trio. Leia a seguir, logo após o player:

Faixa Título: Esse relançamento do catálogo do Little Quail nos serviços de streaming foi uma iniciativa sua ou surgiu pela comoção popular em torno da banda?

Gabriel Thomaz: Nada, foi uma pressão gigantesca das pessoas que eu encontro na rua e falam: “NÃO TEM O LITTLE QUAIL NO SPOTIFY!” (risos). Aí a gente, que já tem pouca coisa pra fazer, tem que tirar uma semana pra organizar tudo, fazer ISRC [código de registro dos fonogramas], etc e tal… Lá vou eu (risos). Foi uma semana de trabalho. Quero que as pessoas ouçam bastante.

Nesse tempo todo, você reouvia os discos? Ou era algo que você preferia deixar lá atrás mesmo, que você não tinha interesse em revisitar?

Eu fiquei muito tempo sem ouvir os discos. Há um tempo atrás eu evitava ouvir mesmo, porque eu queria fazer coisas novas, sabe? As pessoas me perguntavam [sobre o Little Quail] e eu dizia: “ah, isso é passado, deixa isso pra lá”. Mas eu sempre tive um orgulho muito grande das músicas, do repertório, e por muitos outros motivos acabei tendo contato com discos de novo. Às vezes alguém vem me pedir um material inédito, porque a gente fez muitas gravações que não saíram, e acabo ouvindo. Eu guardei tudo. Tudo que eu pude. E eu sempre ia catalogando tudo, “catalogando” no sentido de que eu sempre sabia que se eu precisasse, eu ia achar um dia. É o caso daquele Compacto, que eu também subi [pros serviços de streaming], que é uma demo pro nosso segundo disco, e que eu acho mais legal ainda do que as gravações no próprio disco. Então acabou que eu nunca perdi contato com isso, com essas “obras”, como a galera fala.

Há uns anos, você me disse que via o Little Quail como um rascunho pra o que você fez depois. Depois desse processo de subir os discos pro streaming, de reouvir tudo isso outra vez, como você vê aquela fase da sua carreira?

Na época do Little Quail eu achava que era uma coisa muito pronta, muito legal, tanto que foi. É engraçado. Muita gente de outras partes do Brasil não sabe, mas a história do Little Quail é que a gente inventou muita coisa que ajudou outras bandas a se darem bem. A primeira música daquela geração a tocar no rádio foi “1, 2, 3, 4”. Naquela época acho que só o Skank tinha tocado em rádio, e não era bem rock, né? A gente já tinha saído de Brasília, a gente já tinha público em outras cidades, a gente já tinha feito turnê de carro, desbravando legal, porque ninguém sabia o que ia acontecer. Mas isso do rascunho foi depois que eu fiz as outras coisas é que eu fui achar, mesmo. Tinha muita coisa que o Little Quail fez que era muito crua. O que não é uma coisa ruim. Mas falando da minha carreira – e aí eu falo só por mim -, eu acho que foi sim uma coisa inicial, um laboratório. Eu acho umas letras muito legais, umas ideias muito malucas, que eu não sei nem como a gente teve coragem de lançar.

E foi sua primeira experiência nesse rolê independente que você mantém até hoje com o Autoramas, né?

Exatamente. Dá pra comparar bem com um laboratório. Porque a gente fazia essas coisas em Brasília pra depois começarmos a fazer no Brasil, mas acho que era uma coisa tão na frente que só na minha banda seguinte que foi dar certo. Na época do Little Quail só existia uma maneira de ganhar dinheiro com música, de ser músico profissional, ainda mais dentro do rock: era você mandar uma fita pra uma gravadora, ou um cara de uma gravadora ver o seu show, e depois você assinar um contrato. Aí se depois sua música tocasse na rádio, se fosse um sucesso, aí sim você conseguiria fazer muitos shows pelo Brasil e consequentemente viraria um músico profissional. Era esse o caminho. A gente tentou fazer de outras maneiras, mas demos com a cara em mil portas. Era uma coisa meio punk, “vou fazer rolar”, “quero ver quem me segura”. É uma história triste, uma história de frustração total. A gente ia fazendo as coisas, mas teve um momento que não rolou. As bandas que conseguiram fazer esse roteiro certinho se deram bem pra caramba. A gente antes de gravar disco já tinha rodado o Brasil, enquanto as bandas que depois chegaram bem rodaram o Brasil por causa do disco. E tinha uma coisa que era muito mais frustrante: toda essa galera era de amigos nossos. Galera que dormia na nossa casa, que a gente dormia na casa deles, com quem a gente ficava doidão na rua. Então pra gente que não conseguia fazer as coisas era ainda mais frustrante. Depois, com o Autoramas – e falando de mim, não do Little Quail – que começou a ser aceita a ideia de ser independente, de ser profissional. Independente, antes disso, era sinônimo de amador.

E como você vê toda a nostalgia em torno do Little Quail? Há um tempo eu vi uma cópia do primeiro disco de vocês em vinil à venda, lá em São Paulo, por 400, 500 reais, algo assim. O que você acha disso?

Eu vi esse disco vendendo. Vendeu rapidíssimo, inclusive. Acho que a gente esteve lá no mesmo dia (risos). Eu até tirei uma foto e falei: “é o Racional [disco clássico de Tim Maia que é extremamente valorizado no mercado de LPs] dos anos 90″ (risos). Eu não sei, é uma coisa muito doida. Quando a gente acabou a banda, eu achei que era algo que seria comido pelo tempo, que seria esquecido. E tem muita gente que diz que sente saudades, que curtiu a época, mas tem muita gente que não viveu aquela época que também curte. Quando alguém vem me dizer que prefere o Little Quail, geralmente eu pergunto a idade que a pessoa tem, porque se ela não viveu aquela época, é porque tá interessada mesmo (risos). Lá em Brasília é um negócio impressionante a adoração que as pessoas têm pelo Little Quail. A gente fez umas cinco reuniões em Brasília, a última deu sei lá, uma seis mil pessoas, coisa assim.

Sim! Eu vi um desses shows, em 2009, na Esplanada. Foi um troço doido, mesmo.

Pois é. O Little Quail era uma banda muito grande em Brasília. Muita gente tem histórias com a banda, os shows lotavam. Só com a fita demo lançada a gente botava duas mil pessoas em um show, era uma loucura. Eu produzindo, eu criança, com 19, 20 anos de idade. Uma loucura. Eu fazia a produça toda, a gente arrumava patrocínio pra fazer cartaz, aí saía de noite colando cartaz, com o Zé [Ovo] dirigindo a Brasília da mãe dele. Aí colava cartaz na cidade inteira e ia pro colégio de manhã, morrendo de sono, e acabava matando aula. Tinha uma galera que acompanhava a gente, e essa galera sabe de todas as histórias. A gente ia tocar em tudo que é lugar, tinha programa de TV local que passava clipe nosso, era uma loucura. E tem o fato da banda ter acabado, tem uma coisa “romântica” por causa disso, sabe? A galera curte exatamente porque a história teve um fim. Teve tantas outras bandas que também foram populares em Brasília, que existem até hoje e que não tem o culto em cima.

E muitas vezes os fãs ficam nesse saudosismo, mas a banda volta, grava um disco novo, e os fãs reclamam que os antigos eram melhores.

É, exatamente. Muita gente me pede. Agora que a gente lançou essa parada, eu coloquei no Facebook e muita gente falou “pô, podia fazer um disco novo”. Aí eu escrevo: “é, mas aí não sei se você vai gostar mais dos antigos” (risos). O pior é que talvez até desse pra pegar um monte de sobras e fazer um disco novo, mas cara… Reunir com os caras é uma parada muito difícil.

Você tem contato com eles?

Tenho, tenho. Mas assim… Reunir pra fazer um projeto, nossa… Eu não vejo nem como.

O que você acha do segundo disco do Little Quail? Você mesmo mencionou que gosta mais das versões da demo que saiu no compacto, e muita gente diz que ele não capturou bem a “energia” da banda.

Eu acho os dois discos diferentes porque um é mais porrada, o primeiro, e o segundo a gente tentou fazer de um outro jeito. Já que a primeira não tinha dado certo, a gente não ia ficar dando murro em ponta de faca. Então a gente fez um disco mais bem tocado, todo mundo cuidou muito mais dos timbres da produção, e colocamos na rua. Mas aí não fez nem um décimo do barulho que o primeiro tinha feito, apesar da gente ter achado que o primeiro não tinha dado certo. Foi um erro nosso de avaliação. No primeiro todas as músicas têm uma produção só, é a mesma coisa do início ao fim. No segundo, cada música tem um cuidado especial, foi pensada de um jeito. Eu não sei dizer se é menos energia. Acho que músicas tipo “Mau Mau”, “Composição de Sucesso” têm uma puta energia. Tem música que a gente usou naipe de metais… Aliás, várias bandas que vieram depois da gente se basearam nessas músicas pra começar a usar isso também, sabe? Ó, tem uma coisa muito engraçada sobre o segundo disco: foi a primeira vez que o Marcelo Camelo gravou em um estúdio, sabia disso?

Não.

Então, o Camelo era o maior fã do Little Quail no Rio de Janeiro. Ele ia nos ensaios, nas gravações, nos shows, nos camarins, toda vez com um caderninho pedindo autógrafo e coisa e tal, super menino, assim. Muito fã, sabia tudo, perguntava tudo. Aí a gente chamou uma galera das bandas do Rio pra gravar o coro na música “Rachel’s”. E aí ele morava do lado do estúdio, ali na Barra. Ele já tinha ido ao estúdio umas sete vezes, todo dia ele ia. E a gente chamou: “ó, vem aqui gravar”. Eu me mudei faz pouco tempo, aí na mudança achei uma pasta de contratos com a autorização dele, pra voz dele estar no disco (risos). E aí um ano depois ele veio falar: “estou com uma banda! O nome é Los Hermanos“.

Isso na época em que o Los Hermanos ainda tinha alguma coisa de hardcore no som, por ali?

É, e isso foi até lançarem o segundo disco. Eles gostavam pra caramba, estavam ali sempre. Era o Camelo e o Alex Werner, melhor amigo dele, que foi produtor do Los Hermanos naquela época. Eram os dois, sempre. A duplinha. Eles bem magrinhos, altos, pareciam irmãos. Vai ver que é por isso que é Los Hermanos, não sei (risos).

Então dá pra dizer que o Little Quail influenciou uma geração inteira de bandas, tanto pelo som quanto por todo o modus operandi do independente, né?

Eu não posso dizer isso. Quem foi influenciado é que poderia dizer. Mas a gente fez muita coisa por aí. É uma doideira. As pessoas falam pra caramba e eu fico só ouvindo. Cada um tem sua história com a banda. A minha foi… intensa.

E baseado nas suas experiências com o Little Quail e com o Autoramas, como você vê o cenário brasileiro, hoje? Vale a pena ser independente?

Hoje é muito bom ser independente. O mercado do rádio, as coisas mais populares, nunca esteve tão fechado, tão monopolizado. Nunca houve isso. Eu nem ligo pra essas coisas “pop número 1 da parada”, nunca me liguei. Mas quando eu era criança eu via o [programa do] Chacrinha e tinha tanto Plebe Rude quanto Alcione, Elymar Santos ou sei lá quem. Eu ligava o rádio nos anos 90 e ouvia o É o Tchan, o Raimundos, ouvia o Pearl Jam, tudo ali. Hoje em dia só tem um determinado gênero de música rolando, você vê todo tipo de músico reclamando pra caramba. Tá uma loucura. A gente tá vivendo uma época em que você às vezes não sabe nem qual é o sucesso lá fora, porque não toca nem música estrangeira mais, é uma loucura. É uma parada muito doida. É um monopólio, é uma ditadura que sangra os ouvidos. E tá todo mundo achando legal, o público nem sabe que existe outra coisa. O Brasil é um supermercado musical, tá todo mundo fazendo coisa, mas só o açougue tem vitrine (risos). Eu fico só olhando, porque a gente não depende dessas coisas pra viver. Nunca dependeu. É uma loucura. É foda (risos).

 

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