Caetano Veloso: “A hora é das gerações mais novas, claro; o que não quer dizer que eu deva me calar”

Experimentando como artista independente, músico nos deu uma entrevista exclusiva sobre política, música, fama e até as Kardashians

Caetano Veloso
Foto por Fernando Young
 

Cresci ouvindo Caetano Veloso, já escutei todos os seus discos e tudo ainda é um mistério pra mim. Da Tropicália ao samba, do rock aos ritmos tradicionais latinos: ele foi todos. Agora, ele é indie. O último lançamento do artista foi completamente independente, com distribuição e edição próprias que podem indicar uma tendência futura para outros nomes da música. Afinal, se tem uma coisa que Caetano faz bem é abrir novos caminhos.

E ele faz isso olhando para o passado, recriando “O Quereres”, uma de suas faixas mais cultuadas, em uma roupagem ao mesmo tempo nova e fiel à gravação dos anos 80. No meio da divulgação desse novo single, que é a tema da novela A Força do Querer, tivemos a honra de trocar uma ideia com Caetano (visto acima em foto de Fernando Young) por e-mail.

Falamos de música, política e até das Kardashians. Leia nossa entrevista exclusiva após a versão de “O Quereres”:

TMDQA!: Olá, Caetano! Como grandes fãs de sua obra, é uma honra poder te entrevistar. Vamos direto ao lançamento atual: a nova versão de “O Quereres”. Essa é uma das suas letras mais impressionantes, com um teor muito literário. Como foi recriá-la, do zero, depois de 23 anos do lançamento do Velô? Você considera essa a versão definitiva da música?

Caetano Veloso: A canção foi concebida para ser tocada por uma banda de rock. E assim foi lançada. Mas obviamente é uma canção que sugere outros tratamentos. Os versos são como os de um repentista nordestino imitando um poeta barroco. Poderia ser cantada só com uma viola. Ou com uma sinfônica. Essa nova versão eu quis fazer com Jaques Morelenbaum, que já fez parte de uma banda de rock mas tem formação erudita – e já tocou comigo em muitos shows e muitos discos. Ele é um mestre. Tudo que ele faz é de extrema elegância. Por isso a gravação ficou bonita. Com Maria Gadú eu cantava em Lá, três semitons abaixo do da gravação original. Agora, voltei ao Dó maior só porque ficaria mais bonito no cello.

TMDQA!: Eu moro em Petrópolis (RJ) e recentemente vi pichada em uma parede a frase “onde queres bandido, sou herói”. Essa é uma das letras mais complexas de sua obra, ao mesmo tempo que é algo muito popular. A que você atribui isso?

Caetano Veloso: Acho que a forma de poesia, com versos de dez sílabas, tem tradição em cantares nordestinos e está arraigada no subconsciente de qualquer brasileiro. As palavras ditas são atraentes, e mesmo antes de a gente entender o que está sendo dito em cada frase a gente se interessa por “revólver”, “dinheiro”, “paixão”. A fórmula “Onde queres… sou…” cria interesse no ouvinte. O resto é com o ritmo dos versos, a melodia, os sons – e o que as pessoas que vão atrás do que é dito se se segue cada frase até o fim. Quando conheci Maria Gadú, ela me mostrou que tinha, em sua casa, a letra de “O Quereres” escrita numa porta interna. Agora ela tem parte dessa letra tatuada numa das pernas.

TMDQA!: O disco Velô, onde foi originalmente gravada a canção, tem muitos clássicos como “Podres Poderes” e “Língua”, ao mesmo tempo que muitos costumam torcer um pouco o nariz pela sonoridade oitentista do disco. Você considera esse um disco injustiçado? Hoje você faria de modo diferente?

Caetano Veloso: Acho que o som dessa época dá um charme especial a Velô. Meu filho Zeca, de 25 anos, gosta mais do disco por isso do que pelas canções em si. Na época, o BRock estava estourando. Fui à Universal gravar entrevistas para os divulgadores distribuírem por rádios e jornais e depois vi que eles não tinham usado minhas respostas: todas tratavam as faixas das canções como “rocks”. Acho que eles acreditavam que eu pertencia ao “nicho” MPB, não podia chamar minha música de rock (por um lado, não tinha o direito; por outro, não falava com “meu” público). Muita burrice pavimenta o caminho da gente.

TMDQA!: Uma coisa que me surpreendeu muito com esse lançamento foi o caráter independente dele. Saindo pela Uns, com controle total seu. Como tem sido sua experiência como artista indie? Você vê como uma possibilidade viável para outros artistas da sua geração?

Caetano Veloso: Espero que sim. Pessoalmente sempre me senti independente. Nunca nenhuma gravadora se meteu no que eu fiz ou quis fazer. Acho que aqui, Paulinha (Lavigne) e sua turma vão saber como fazer.

TMDQA!: Falando em sua geração, ela é inspiração cada vez maior 50 anos depois da Tropicália, mas dentro de um nicho. Hoje o que é a música realmente popular brasileira se ouve nos bailes, se ouve nas festas sertanejas. Do que é realmente popular hoje, algo te impressiona?

Caetano Veloso: Adoro funk. E sempre adorei axé. No rádio do carro, só ouço funk, pagode e sertanejo. Sou urbano e do litoral, portanto minha identificação com os estilos litorâneos é mais imediata. Mas os sertanejos têm, em geral, grande concentração na afinação e fazem canções sentimentais (hoje, também dançantes) com muita sinceridade e força.

TMDQA!: Todo ano a internet comemora o aniversário do dia que você estacionou o carro no Leblon e, recentemente, você demonstrou muito bom humor com o vídeo que fez com o Porta dos Fundos. Como você lida com esse lado celebridade que você tem?

Caetano Veloso: Acho graça. Fui anônimo até os 25 anos. Gostava. A fama traz experiências outras, mas é tudo parte da vida. Eu gosto. Achava que ia ser famoso de alguma forma: pintando, escrevendo, fazendo filmes, talvez canções. Ri muito quando me mostraram a “notícia” de que eu tinha estacionado o carro no Leblon. Moro no Leblon, vou a restaurantes do Leblon com frequência. Como isso poderia ser uma notícia? Mas não vejo coisas de celebridades nem online nem em revistas. Uma vez, de tanto ver o nome de Kim Kardashian na página de abertura do Yahoo!, perguntei a meu filho o que é que ela fazia. Ele riu. Por eu não saber e por que achar que ela precisava fazer alguma coisa para ser famosa. “Ela é famosa”. Rindo. Numa turnê norte-americana, liguei a TV do hotel e lá estava toda a família Kardashian, as mulheres falando com aquele som de arroto que as jovens americanas puseram na moda (acho que começou pelas modelos). Eram as vésperas do casamento de Kim com Kanye West (esse eu sabia o que fazia). Achei fascinante. Pensei que o marido da mãe parecia uma mulher (ele ainda era homem) e que Kanye sorria com muita facilidade, o que não parecia possível quando o conheci aqui no Rio.

TMDQA!: Os acontecimentos recentes – e seu histórico – não me deixam deixar de perguntar. Como você vê o futuro próximo da política brasileira? Você continuará combativo nas próximas eleições ou acha que é hora das outras gerações irem pra luta?

Caetano Veloso: A hora é das gerações mais novas, claro. O que não quer dizer que eu deva me calar. A cada dia se tem uma sensação diferente do que vai acontecer. Fernando Henrique ainda não sabe (hoje, 5 de junho de 2017) se faz tudo pra Temer ficar ou não. Eu não quero. Quero que haja paz suficiente para elegermos um presidente democraticamente em 2018. Sem Temer. Com Lava Jato e sem foro privilegiado. Mas essa turma que derrubou Dilma (de quem, politicamente, não tenho saudade nenhuma) quer emperrar o caminho do Brasil. Botaram aquele de cabeça raspada no Supremo e ele já embarreirou o lance do foro. Quero outra coisa.

Daniel - Transa - Caetano Veloso

TMDQA!: O nome do nosso site é Tenho Mais Discos que Amigos! e nós temos muitos álbuns que guardamos como membros da família. Eu, por exemplo, tenho uma cópia autografada do “Transa” em vinil que levo como um tesouro aqui da família. Você tem algum disco que você considera essencial pra você, como um verdadeiro amigo?

Caetano: Os três primeiros álbuns de João Gilberto.

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