Google Tradutor, despedidas e Transilvânia: tour da Labiritinto quase no fim

Este post é o quarto post de uma série que a banda Labirinto fará no TMDQA enquanto viajam em turnê pela Europa durante o mês de maio e junho. A banda paulista de post-rock/metal instrumental fará 13 shows passando pela Alemanha, Bélgica, França, Portugal, Espanha, Itália, Romênia, República Checa e Eslováquia.

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É a terceira vez do grupo na Europa e eles irão contar os bastidores da viagem nesta série de quatro posts. Este foi escrito por Marcos Felinto, que entrou na banda temporariamente para substituir o guitarrista Luis Naressi durante a turnê.

Só o Google Tradutor Salva

27 de Maio, Dia 17 – Acordamos em um bom hotel em Barcelona e preciso frisar, que, desde que saímos da Alemanha, temos chuveiro todos os dias. Engraçado também que em cada um dos dias temos que reaprender como usar um chuveiro ou uma descarga e saber se o papel higiênico é jogado no vaso ou no lixo.

Estrada desde cedo seguindo para a Itália. Pulmões inflados cheios da natureza da paisagem, pedágios caros, música boa na van, muitas paradas para usar WiFi de postos de gasolina e dar andamento no check-in do hotel que nos receberia na Itália. Aliás, o check-in as vezes cria uma corrida contra o tempo, pois dependendo do local aonde se hospeda há um limite de horário para entrada. No geral temos passado um dia na estrada, e este dia nunca tem sido o suficiente para chegar no destino da apresentação. Dirigimos por 10 ou 11 horas e pousamos em algum lugar que fique há duas ou 3 horas da cidade aonde tocaremos.

No fim do dia, aliás, no meio da madrugada chegamos em Piacenza, cidade pequena, com o ar preenchido por um doce cheiro de flores, muito doce. No hotel uma mulher que disparou no italiano como se estivéssemos entendendo tudo, Muriel tentava dizer algo e ela continuava no italiano veloz, só podíamos rir e rimos muito. Antes, na estrada, Muri teve a ideia de traduzir o que desejava falar para o italiano e falar com o pessoal do hotel. O texto que ela traduziu iniciava-se com “não falo italiano, e estou usando tradutor, por favor me responda com apenas yes ou no para as minhas perguntas”. Assim conseguimos fazer a reserva.

O Hotel era antigo, um tanto medonho, excessivamente cristão e havia um rádio tocando uma reza assim que entramos, uma reza organizada no formato pergunta e resposta. Todos lembramos de O Exorcista. Pelo hotel, imagens cristãs e espelhos para todos os lados. Subimos para o quarto e fomos trancados no hotel. Na recepção um cachorro foi solto. Ela, a mulher, tinha uma cara de vampira. Erick acordou no meio da noite com o barulho de uma briga familiar, abriu a porta e deu um toque para que parassem.

O último show com Tom

28 de Maio, Dia 18 – Fomos para Cordenos, que estava a pouco menos de 3 horas da Piacenza. Chegamos no local, uma vila muito, mas muito pacata. Rock Town Pub era o nome do local. Já na entrada encontramos o pessoal da banda que dividiria a noite conosco, Thalos. Gente adorável. Em seguida conhecemos um cara meio mala com feições que muito lembrava Johnny Deep, brincalhão, meio sério, tipo um hard rocker, um bad boy. Era o técnico da casa.

A casa era total hard rock, roqueira, um varal de sutiãs, uns fliperamas, pranchas de surf, trucks de skate, uma bandeira do Bad Religion, um arcade com Metal Slug. Um pouco americano, um pouco faroeste, não pude deixar de lembrar do bar de Um Drink no Inferno, ainda mais depois de termos dormido no hotel meio creepy na noite anterior.

Por algumas razões este show foi peculiar. Foi o último de Tom, o novo amigo, belga, que fez percussão para a banda durante esta tour. Todxs de coração apertado e já com saudades dessa figura tão carismática. O local era também um restaurante e o público não fazia exatamente nosso perfil. A playlist da casa apresentava Creed, Green Day, Evanescence e por aí vai.

O rolê começou tarde, mas muitíssimo pontual, como em todos os outros países. Thalos inicia, empolgados, o mesmo bom humor que eles apresentaram nas conversas eles conseguiram traduzir para sua música, que era algo bastante pop, eletrônico e com os pés ligados ao shoegaze. Lembram muitas bandas da cena indie, dream pop, post rock. Tocavam no metrônomo com perfeição e suas projeções eram também sincadas com o bpm das músicas, bom gosto para os timbres de teclado, loopings bem controlados, guitarras limpas com uma sonoridade bem dream pop. Aqui todas as bandas com as quais dividimos palco são muito, muito profissionais, bem como os técnicos, incluindo o Deep.

Entramos e fizemos nossa apresentação mais estranha, no que se refere ao público, houve pouco contato, a casa esvaziou um tanto e isso foi sinal de que estávamos em um espaço um tanto mais voltado ao pop, ou um canto mais voltado para refeições breves, uma cerveja, um happy hour.

Os que ficaram permaneceram atados as acomodações do espaço, cadeiras e mesas, o que não apresentava para nós da banda muito espaço para a conversa. O público era diverso e parecia mesmo estar no local aonde todos os roqueiros da região iam, então tínhamos gente com jaqueta do Exodus até gente mais no visual stoner ou mesmo a roqueira gótica Evanescence. A interação foi estranha, friso, mas ao fim da apresentação tivemos alguma resposta favorável. O celular de Muriel sumiu, isso mexeu um pouco com o humor em nossa preparação.

Mais 11 horas de estrada até a Romênia

29 de Maio, Dia 19 – Já estamos na reta final da tour e faltam poucas apresentações agora. Parte desta sensação nos veio com a despedida de Tom, que já se iniciou ao acordarmos. Tomamos café na casa de uma mulher muito simpática que nos abrigou.

Fomos na estação deixar Tom, com dorzinhas de saudades. Este foi um grande amigo que fizemos na tour, uma figura carismática, bom mediador e excelente músico.

Fomos torrar pneu no asfalto. Caminho longo, mais 11 horas de estrada cruzando a Eslovênia e a Hungria até chegar em Romênia, uma incógnita desde o início da tour.

Vento, sol, sons, paradas, fotos, refeições, piadas e espirito aberto, bem decidido e entregue para a novidade. Pedágios e mais pedágios e finalmente a fronteira com a entre Hungria e Romênia. Nos pararam, pediram passaportes, conferiram e como de costume tem sido o guarda pergunta “banda? de quê?, – De post Metal !!! – “POSTE WHATTA???”. E nos liberam.

Chegamos em uma pequena vila, há 3 horas de Cluj Napoke, segunda maior cidade da Romênia, na qual tocariam no dia seguinte. Entramos em nosso quarto e formos nos preparar para descansar, sabendo da mudança de fuso que nos sugou duas horas. Estávamos duas horas a frente, em relação a Alemanha, nosso ponto de partida na Europa e seis horas de diferença em relação ao Brasil. Fomos dormir 6 da manhã para acordar 12h.

Transilvânia, Ciganas e muito amor na Romênia

30 de Maio, Dia 20 – Kiko e eu (Felinto) acordamos antes, queríamos fotografar enquanto os outros dormiam, ver a região com a luz do dia. Vimos igrejas ortodoxas e logo que paramos diante da primeira igreja encontramos uma espécie de frontão no qual estava escrito JESVS HRISTOS, HRISTOSSSSS!! Com letras de death metal. Descoberta chocante, guardamos e registramos para contar para Hristos.

Em seguida fui interceptado por uma família de ciganas que me pediram para tirar fotos delas ao nos verem com maquinas nas mãos. Enrosco total, só conseguimos sair dali 15 minutos depois, uma chamava a mãe, que chamava a irmã, o avô e os netos, e tiravam a máquina da minha mão, viam as fotos, gritavam em romeno. Conseguimos sair, me deram um Facebook para que eu enviasse as fotos.

A língua Romena por incrível que pareça não tem nada a ver com a de seus vizinhos, na verdade por serem historicamente conectados com a Itália e terem sido parte do Império Romano, na antiguidade, sua língua se aparenta surpreendentemente muito com o português, a ponto de dar para entender partes de conversas ou ler coisas na rua sem se confundir a respeito do significado. Na Van um tributo ao Cradle of FIlth, música para a Transilvânia, não tínhamos Darkthrone.

Pouco distante da vila na qual dormimos a paisagem se alterava completamente, muitos vilarejos marcadamente ciganos, mulheres com lenços na cabeça. Camponeses, muita lenha, montem de feno e gente com a mão na terra. As casas ciganas entram engraçadas exuberantes e um tanto kitsch, tinham sua beleza.

Quando nos demos conta, estávamos rodeados por uma imensa floresta de pinheiros. Eram os montes Cárpatos, que muito lembram caminhos de Minas. O lugar era lindo, hipnótico, ponto alto na estrada, palmas para a natureza mais uma vez. Estávamos cortando a Transilvânia, saber disso tornava tudo muito especial.

A sugestão que o caminho nos fazia era a de que chegaríamos em uma vila de beira de estrada para tocar em um bar de caminhoneiros ciganos, o que seria massa demais, mas por outro lado sugeria que tocaríamos em uma vila, na beira da estrada para dois bangers ou para a outra banda apenas. Soubemos que tocaríamos com uma banda de post grunge e o tilt era inevitável.

Horas depois a Transilvânia nos revelava a cidade Cluj Napoca, grande, cheia de gente, bastante moderna e descolada. Chegamos nas vésperas do festival internacional de cinema da Transilvânia (adoro escrever este nome), dito isto dá para imaginar que existe lá uma cena artística rolando. A cidade tem características de cidade universitária, muita gente jovem, destoando da população do campo.

Chegamos no local, The Shelter, uma portinha no coração da cidade. Estávamos exatamente no centro, muito bem localizados. A curiosidade nos revelou boas surpresas e a noite prometia ser ótima.

21h30 a casa está bastante cheia e a primeira banda sobe, era a banda do dono do local, Sky Swallows Challenger. Descobrimos que o pós grunge é simplesmente a leva pop que vem depois do grunge, Foo Fighters, Silverchair, etc. A banda dialogava com formatos convencionais do rock comercial, mas rompia com o mesmo em diversos momentos.

Todas as pessoas, sem exceção eram muito amorosas, muito gentis e tinham vontade de fazer contato conosco. A Romênia nos ofereceu uma experiência muito genuína de troca e nunca esqueceremos. Ao lado de Porto, Romênia ocupa um lugar muito especial em nossas memórias desta tour. A produção da casa foi surpreendentemente receptiva e nos acolheu como irmãos de longa data.

Subimos no palco em seguida e tocamos o nosso melhor. Gente batendo pés, balançando cabeças, uma mina xamã bangueando transcendentalmente e ao fim tivemos alguns bons relatos de experiências de êxtase vindas de pessoas que nos viram tocar.
Romênia no coração.

Fomos dormir em um mocó / abrigo para bandas no centro da cidade.

Dormir tarde, acordar cedo.

Próximo destino, República Tcheca.

 
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