Abordando os muitos modos como música pode fazer parte de um processo de auto-cura, o músico brasiliense Kelton anuncia seu segundo álbum, Lacunar, que encontra-se em processo de financiamento coletivo.

Conhecido na cena brasiliense como guitarrista, compositor e intérprete, Kelton tem dois EPs e um álbum (Distraído Concentrado, de 2015) Como produtor, ele assinou, por exemplo, Wahyoob, de Beto Mejía, presente na nossa lista dos melhores álbuns do último ano.

Seu novo álbum  é descrito pelo artista como seu disco mais pessoal até hoje, fruto de um “surto criativo” vindo de um ano difícil quando chegou até a perder a vontade de fazer música. Com o amparo emocional dos amigos, tirou a guitarra do armário começou a compor novas músicas que encontrou as forças para entrar em uma nova fase na vida e, por consequência, na carreira.

 

Conversamos com Kelton sobre esse novo momento na carreira dele, sobre o projeto de financiamento coletivo e sobre ter mais discos que amigos. Confira abaixo a entrevista aqui a a campanha no Catarse.

TMDQA: O modo como você descreve o disco é muito bonito e o nome tem muitos nuances que podem ser imaginados, não é? Parece tanto que algo está se quebrando como também está se focando nos cacos. Como surgiu o nome?

KELTON: Compor e gravar esse disco foi uma experiência de mergulho em mim mesmo. Esse mergulho foi pesado, mas também libertador. Daí me parece interessante a sua leitura, de algo que está meio que desfeito, em pedaços, mas que também permite reconfigurações. Pra mim, a ideia da lacuna é potente pra descrever o que senti nesses últimos tempos justamente por representar, ao mesmo tempo, um espaço vazio e a possibilidade do seu preenchimento. É uma forma de se enxergar o copo meio cheio.

TMDQA: Você acha que música é um modo de terapia?

KELTON: Com certeza. Talvez seja por isso que eu parei de compor quando estava realmente muito machucado emocionalmente. Em regra eu sempre estou com alguma melodia na cabeça e, se o violão estiver por perto, pode virar uma música. Esse disco também serviu pra me colocar de volta nos trilhos da composição.

TMDQA: O último disco do Beto Mejía, que entrou na nossa lista dos melhores do ano passado, foi produzido por você. Seu trabalho como produtor afeta o modo de criar?

KELTON: Com certeza. Quando componho, quase sempre tenho uma ideia pré-concebida de arranjo pra canção, que tipo de textura eu gostaria de imprimir a ela etc. O lance é que, depois de algum tempo produzindo discos e vendo outros amigos produtores trabalhando, percebi que muitas vezes a ideia mais legal surge do outro, do imprevisível, do acidente. Então, embora eu sempre tenho algo em mente, estou sempre me policiando pra deixar as ideias das outras pessoas envolvidas no processo atravessarem a minha composição. Não por acaso esse foi o primeiro disco inteiramente arranjado como uma banda, com os amigos que me acompanham ao vivo.

TMDQA: Como surgiu a ideia de fazer um crowdfunding?

KELTON: Fazer um crowdfunding sempre esteve nos meus planos, mas sempre achei que não tinha audiência suficiente pra justificar um esforço desses. Depois de cinco anos fazendo discos, pensei que era hora de tomar coragem e colocar essa engrenagem pra funcionar. Também quis que os amigos que acompanham o meu trabalho estivessem mais próximos desse parto musical. Estou bem feliz com o resultado e bem animado nessa reta final!

TMDQA: Uma das recompensas que mais me surpreendeu foi a de compor uma música para alguém, pois é um belo desafio criativo. Como surgiu a ideia de incluir isso?

KELTON: A primeira vez que fiz uma música de encomenda aconteceu no meu segundo EP, Todo Amor do Mundo, de 2014. Uma amiga minha de nome Bianca se queixou de que não existia no cancioneiro popular uma música com o nome dela, de modo que ela estava impossibilitada de cantar no trânsito como tantas Carlas, Renatas e Carolinas. Na hora eu levei na brincadeira, mas alguns dias depois era aniversário dela e resolvi dar a música de presente pra ela. Ela adorou e depois disso muita gente começou a me pedir canções de encomenda. Com o crowdfunding à vista, pensei que era uma forma legal de atender esses pedidos e de quebra viabilizar a continuidade do meu trabalho.

TMDQA: E pra finalizar: você também tem mais discos que amigos?

KELTON: Eu ia responder que sim, mas tô em dúvida. Embora tenha muitos discos, tenho andado cercado de muita gente querida. Bem capaz dessa gente ser maior que as bolachinhas que guardo em casa.