Clássico atrás de clássico: a visão artística impecável de Kendrick Lamar

Em seu novo álbum, Lamar se restabelece como um artistas mais interessantes da última década

Kendrick Lamar
Foto via Shutterstock
 

Foto de Kendrick Lamar via Shutterstock

Se você ainda não sabe quem é Kendrick Lamar, vá atrás.

Pelos últimos cinco anos, o rapper vem se estabelecendo não somente como um dos maiores artistas do hip-hop, mas também como um dos maiores artistas do novo milênio. Trazendo uma visão refrescante em um gênero dominado pelo apelo comercial e sentimentos megalomaníacos, Lamar pôs seu nome no mapa na virada da década, com algumas mixtapes, um álbum de estúdio — Section.80 — e colaborações no mínimo interessantes.

Por anos, o hip-hop vinha ameaçando encerrar um ciclo e começar um novo. O gênero estava passando por um período de transição — após o domínio do gangster rap ter dado vez a estilos cada vez mais baseados em uma direção “sentimental”, artistas como Drake, J Cole e o próprio Lamar começaram a aparecer no mapa como futuros expoentes da nova face do hip-hop norte-americano.

E tudo isso culminou em 2011: durante um show que ficará pra sempre na história do hip-hop, Dr. Dre, Snoop Dogg e The Game “passaram a tocha” para um jovem Lamar, coroando-o como o “rei do hip-hop” na costa oeste dos Estados Unidos.

É curioso imaginar que um evento desses se passou numa época em que o músico ainda era “desconhecido” pelo grande público. Embora Lamar já fosse um rapper em ascensão, ele não puxava grandes números no mainstream, não recebia a devida atenção da crítica e seus shows eram assistidos por um número criminalmente pequeno de pessoas.

Mas dois anos foi tudo o que o músico precisou para revirar toda a cena.

2013 foi o ano de Kendrick Lamar. Com seu segundo disco, good kid, m.A.A.d city, o rapper moveu as barreiras do hip-hop de uma maneira incrível, ousada — e até mesmo ofensiva.

De forma genial, as músicas do disco criavam uma narrativa completa, uma história envolvente de um jovem de Compton que sonhava em ser rapper mas que, de forma infeliz, acabava se entrelaçando demais na cultura de gangues de sua cidade. Através de suas letras, Lamar questionava alguns padrões e costumes da cultura ao seu redor, passando por assuntos como alcoolismo, depressão e violência.

Mas o grande destaque da obra era sua produção. Afinal, a bandeira do “rap consciente” é carregada por inúmeros artistas, mas muitos deles falham em alcançar o mainstream por conta de um instrumental denso, de difícil acessibilidade ao público geral — faltando aquela famosa “melodia grude”. E é aí onde Lamar triunfa: GKMC não era somente um disco consciente, mas também um disco popular. Canções como “Poetic Justice”, “Swimming Pools (Drank)” e o hit “Bitch Don’t Kill My Vibe” foram grandes sucessos comerciais, sabendo aliar com maestria as letras conscientes com ritmos feitos à mão para grandes festas.

E, no final das contas, esse é o maior desafio que um artista pode enfrentar: como você pode manter a sua visão artística sem comprometer o apelo comercial? Esse é um debate fervoroso que data desde a época dos Beatles: a dualidade caótica do White Album conquista muitos fãs, mas foi a acessibilidade do Sgt. Pepper’s que definiu a carreira da banda. E do mesmo modo que, naquela época, o quarteto britânico não tenha sido obrigado a comprometer a sua direção musical para criar um álbum popular, Kendrick Lamar também conseguiu encontrar o balanço perfeito entre todos os tipos de públicos. Tinha um pouquinho para cada fã ali, e a mágica foi na medida certa para elevar o rapper ao topo da sua cena.

A partir daí, a carreira do músico não apresentou limites. Enquanto muitos céticos duvidavam que o rapper conseguisse superar seu segundo disco, o incrível To Pimp A Butterfly serviu como um soco no estômago para qualquer um que o ouvisse.

2015 foi mais um ano de Kendrick Lamar. Fugindo da trajetória daquele jovem de Compton que sonhava em ser um rapper, agora Lamar era o centro das atenções — para o bem ou para o mal. Em TPAB, Kendrick começava a visualizar o “grande jogo”, entendendo os defeitos do mundo e canalizando sua energia para provocar mudança — tanto na sua comunidade como em si mesmo. Enquanto hits como “Alright” viraram hinos de movimentos sociais nos Estados Unidos, canções como “u” mostravam um nível de introspecção assustador; era uma oportunidade do ouvinte entrar na mente do músico, entender os conflitos e “demônios” que assolavam sua mente.

Mas o disco foi um comprometimento: nele, o músico precisou “sacrificar” o seu lado mais popular para entregar a mensagem que queria. As melodias baseadas no jazz, embora incríveis, impediram o disco de alcançar os mesmos números que alguns de seus colegas de trabalho. O álbum foi um sucesso com a crítica e, principalmente, um sucesso com o público do hip-hop, mas isso não era o suficiente para ele. E após compartilhar as “sobras” do disco (através do álbum untitled unmastered) para seus fãs terem um pequeno passatempo, Lamar se concentrava no seu próximo trabalho, a sua nova direção.

Guardado a sete chaves, o novo álbum do músico foi uma das surpresas mais bem-vindas do ano. Embora já estivesse em desenvolvimento por algum tempo, um excelente artigo do New York Times nos deu algumas pistas sobre o que o músico estava tramando.

“To Pimp a Butterfly era sobre endereçar o problema. Eu estou em uma posição agora onde eu não falo mais sobre o problema”, disse, completando que o álbum era “muito urgente.”

E afinal, o que mais restava na sua carreira? Ao invés de entrar na onda de outras vertentes do estilo (como o trap) desde cedo e aproveitar sua popularidade, Lamar continuamente se comprometeu a entregar a sua visão única do jeito que queria e sem se preocupar com os resultados. Sobreviver a um hype imenso e tentar fazer um trabalho mais ousado que To Pimp A Butterfly seria algo basicamente impossível — e é por isso que em DAMN., seu novo álbum de estúdio, o rapper contorna esse problema sem necessariamente tropeçar em suas obras passadas.

“Urgente” é, definitivamente, a melhor palavra para classificar o disco. Lamar não está mais expondo os mesmos problemas sociais, e também não precisa mais contar sobre as rivalidades entre gangues na sua cidade natal. Em vez disso, o rapper chama os holofotes para si e conta, ao longo de quatorze músicas, uma história arrogante e grosseira sobre seus desejos, erros e desconfianças.

No geral, o disco soa muito mais desarticulado do que os trabalhos anteriores. Damn, a princípio, não aparentava ter um grande tema central permeando as músicas do disco — algo presente nos últimos dois álbuns de Lamar.

Mas isso não fez as músicas soarem menos interessantes. Mesmo com Damn utilizando de vários colaboradores de longa data, como Sounwave e DJ Dahi, o rapper trouxe alguns nomes novos que tiveram muito o que acrescentar nas batidas — o principal sendo Mike Will Made It, responsável por “DNA”, “XXX” e a extremamente popular “Humble”, três faixas pesadíssimas.

E o resto dos convidados também trouxeram suas melhores contribuições. Kaytranada e o BadBadNotGood fazem um ótimo trabalho em “Lust”, Rihanna soa fenomenal (como sempre) em “Loyalty”, e vamos ser sinceros — a participação do U2 em “XXX” é grandiosa, não é mesmo? Desde que a lista de faixas do disco foi revelada, muitos fãs ficaram amedrontados com a possibilidade de uma parceria com uma banda que, em um primeiro momento, não tem absolutamente nada a ver com o hip-hop. Mas, de alguma forma, Kendrick Lamar fez isso funcionar.

Olhando para trás, isso não somente faz sentido, como também foi uma decisão genial. Por muito tempo, o U2 ficou marcado como uma das maiores bandas políticas do mundo, contando com uma série de álbuns incríveis que vão a fundo na sua relação de amor-e-ódio com os Estados Unidos. Ao (brevemente) cantar sobre uma revolução social, Bono parecia em seu habitat natural — e a mudança no instrumental para essa parte foi muito bem confeccionada por Mike Will Made It para se adaptar ao estilo drasticamente diferente do grupo.

Esse é apenas um exemplo da impecável direção artística de Kendrick Lamar; o talento que o músico possui para saber o que funciona (e o que não funciona) em um disco. Embora tenha um histórico duvidoso de colaborações com artistas pop, o rapper nunca comprometeu sua visão em seus próprios discos, e mesmo as parcerias que parecem completamente desconexas acabam funcionando por um simples motivo: ele sabe o que faz, e é muito bom nisso.

E qualquer pessoa que tivesse dúvida disso provavelmente foi convencido com “Fear” — o carro-chefe de Damn, a cola que uniu todos os temas apresentados no disco. Kendrick começa comentando sobre seus maiores medos aos 7 anos (violência doméstica dos seus pais), 17 (medo de morrer por conta das brigas de gangue na sua cidade) e, finalmente, aos 27 — o medo de perder a vida que construiu pra si mesmo, de perder a sua “habilidade” e deixar de ser um dos melhores rappers da atualidade.

No fim da música, o artista junta todos os temas das canções anteriores e os alia à religião. O medo de Kendrick Lamar é manifestado na forma de um medo de Deus, citando uma passagem bíblica de Deuteronômio que explica as recompensas que o povo israelita hebraico receberia caso seguisse os mandamentos de Deus. Caso isso não acontecesse, o povo seria amaldiçoado a “ser vendido para seus inimigos” e sofrer — infelizmente, o mesmo destino sofrido pela população negra na época da escravidão.

Esse é o começo da jornada de introspecção que permeia as três últimas faixas do disco. Apesar de reconhecer seus medos e pecados, Kendrick compara a si mesmo com Deus em “God”, avaliando o sucesso que conquistou e comparando isso com as ambições que tinha quando era menor. E, de uma forma cumulativa e genial, esses elementos voltam a complementar o disco — dessa vez, na faixa de encerramento “Duckworth”.

Kendrick Lamar - DAMN

Nela, Kendrick Lamar conta a história mais surreal de sua vida: há 20 anos, Anthony “Top Dawg” Tiffith, o dono da TDE (gravadora do músico), planejava assaltar Ducky, um humilde funcionário do KFC local e pai de Kendrick, que havia se mudado recentemente para Compton com sua esposa. Como a gangue de Top Dawg já tinha o costume de assaltar aquele estabelecimento, Ducky costumava dar comida de graça para Anthony deixá-lo viver durante os assaltos — decisão que viria a mudar para sempre a vida dos dois em vinte anos.

Ou, nas palavras do próprio rapper:

Preste atenção, essa decisão mudou ambas as vidas deles
Uma maldição de cada vez
Revertendo o manifesto e o karma positivo, e eu vou te dizer por quê
Você pega dois estranhos, e os coloca em situações aleatórias; dá alma a eles
Vinte anos depois, você faz os dois estranhos se encontrarem de novo
Dentro de estúdios de gravação onde eles estão colhendo seus frutos
E então você começa a lembrá-los daquele incidente com os frangos
Quem adivinharia que o maior rapper surgiria de uma coincidência?
Pois se o Anthony matasse Ducky
Top Dawg poderia estar preso para sempre
Enquanto eu iria crescer sem um pai e morreria em uma troca de tiros.

E o álbum se encerra com um tiro, voltando até o início — onde o músico recomeça a contar a sua história. A coesão acontece de maneira impecável, e esse é o modus operandi de um artista como Kendrick. Em uma entrevista, Sounwave comentou sobre o processo árduo de organizar um álbum com Lamar:

O álbum é metade da batalha. A verdadeira luta é fazer tudo ser coeso. Essa é a parte mais desafiadora, mas [também] a parte mais divertida para mim e Kendrick. Nos sentamos por horas eliminando músicas — que são sensacionais — porque elas não se encaixam. Elas precisam fazer sentido. Um círculo perfeito. Precisam se conectar.

Essa conexão é palpável; ela recompensa os ouvintes assíduos e agrada os fãs do músico que, a esse ponto, já sabem o que esperar de um artista como ele. 2017 pode (ou não) ser novamente o ano de Kendrick Lamar, mas o que realmente importa é que estamos vivenciando, em primeira mão, as obras de uma mente brilhante — e que ainda tem muito a oferecer.

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