The 1975
 

Fotos por Marina Santana

O The 1975 é, sem sombra de dúvida, uma das bandas mais divisivas dos últimos anos. Poucos ficam no meio-termo e, quem não os detesta, considera-os uma das maiores revelações da década. Transitando por inúmeros gêneros, desde o pop até o post-rock, o quarteto de Manchester começou a ganhar notoriedade com uma série de EPs lançados a partir de 2012: Facedown, Sex, Music for Cars e IV, dos quais saíram os singles “The City”, “Sex” e “Chocolate” – todos repercutiram nas rádios britânicas e seriam relançados no álbum de estreia, The 1975.

Já em seu segundo disco de estúdio, I like it when you sleep, for you are so beautiful yet so unaware of it – recebido com opiniões tão extremas quanto o debut –, Matt Healy e cia ocupam um estranho espaço na cultura popular: o de queridos de parte da crítica, piada de outra parte dela, e capazes de lotar arenas pelo mundo apesar de ainda incapazes de produzir hits em sequência (nenhum top 10 em seu país de origem e apenas uma breve aparição na americana Billboard Hot 100).

Já acostumados a grandes públicos, os garotos foram escalados para a edição brasileira do Lollapalooza deste ano e fizeram, no meio da tarde paulistana, um show mais íntimo que o tamanho dos palcos sugeria. Dois dias depois, pisaram no Audio Club para uma das chamadas Lolla Parties – shows paralelos de bandas que se apresentaram no festival.

Os mais de dois mil fãs que encheram a casa de shows no coração de São Paulo na segunda-feira passada vivenciaram 80 minutos carregados das mais variadas emoções. A sequência bombástica de sintetizadores, guitarras dançantes e eletricidade de “Love Me”, “UGH!” “Heart Out” fez contraste direto com a trinca seguinte – “A Change of Heart”, “Robbers” e “Loving Someone” -, que levou lágrimas aos rostos de mais que algumas dúzias no local.

Pudera: até quem estava longe do palco conseguia enxergar as expressões dramáticas de Healy e sentir a leveza com que a banda carregava sua voz durante o momento. O tamanho da casa potencializou o valor sentimental do show, oferecendo espaço suficiente para os gritos do público encobrirem voz e instrumentos quando a situação convinha e quase extinguindo a distância entre banda e público, a ponto de Healy fazer uma observação sobre a facilidade com que conseguia ver os rostos de cada um – algo que sente falta nas grandes arenas aos quais foram obrigados a se habituarem.

Embora a maioria das músicas fosse extraída dos dois populares discos de estúdio, o quarteto presenteou fãs mais fervorosos com a execução sequencial de “Me” “fallingforyou” – que, mesmo um pouco mais obscuras, ainda foram cantadas a plenos pulmões por boa parte do público. Desde seu início, o The 1975 caminha com leveza a linha tênue entre “banda de rock” e “boyband pop” e, como recompensa, construiu uma das bases de fãs mais fiéis da atualidade.

“Somebody Else” “Paris”, facilmente dois dos destaques da carreira da banda até aqui, foram seguidas pelos bombásticos, dançantes e um tanto imaturos hits “Girls” “Sex”, e demonstraram o quanto os rapazes já evoluíram em termos de lirismo e composição melódica. Então, as luzes se apagaram e alguns se perguntaram se aquele já era o fim. Os mais assíduos, embora soubessem que o show não acabaria sem dois dos maiores sucessos (“Chocolate” e “The Sound”), devem ter se dado conta de que aquela era uma situação muito frustrante: já era hora do bis e percebia-se a total ausência dos longos intervalos instrumentais que elevaram I like it when you sleep… de patamar em relação a outros álbuns pop.

O 1-2 de “Please Be Naked” e “lostmyhead” funcionaria magnificamente em um setup como o daquela noite de segunda-feira: público inédito à banda, banda inédita ao público, público receptivo a qualquer coisa que lhe fosse oferecida no momento e disposto a criar a melhor atmosfera possível em um dos shows mais íntimos da carreira do quarteto nos últimos anos. Estes intervalos foram executados nas últimas apresentações do grupo no Reino Unido antes da viagem à América do Sul, então por que não aqui também?

Deixando de lado as hipóteses de limitação de horário da casa e preferências da banda, o setlist seria protocolar se não fossem as b-sides bem no meio. “Chocolate” e a incrível “The Sound” fecharam a noite da única maneira possível: muitas luzes, gritos e tremores de terra. Mas que ficou um gostinho de “quero mais”… ah, ficou.

Setlist:
1. The 1975
2. Love Me
3. UGH!
4. Heart Out
5. A Change of Heart
6. An Encounter
7. Robbers
8. Loving Someone
9. She’s American
10. Me
11. fallingforyou
12. Somebody Else
13. Paris
14. Girls
15. Sex

Bis:
16. If I Believe You
17. Chocolate
18. The Sound

     
 
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