Spoon
 

Entrevista por Nathália Pandeló Corrêa

O Spoon parece ser uma daquelas bandas que sempre estiveram presentes no cenário indie. Talvez tenha a ver com o fato de que se formaram em 1994 ou então que foram escolhidos como a banda mais consistente do início dos anos 2000 pelo Metacritic ou pela presença constante de suas músicas em trilhas sonoras de séries e filmes (sdds, The OC).

Nesse meio tempo, muita coisa mudou. Inclusive a formação da banda, que ganhou mais um membro. Alex Fischel já conhecia o vocalista Britt Daniel de seu projeto paralelo, o saudoso Divine Fits. Deu match.
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Da formação original, aliás, restam Britt e Jim Eno, baterista e produtor com quem conversamos por telefone. É que o Spoon vai lançar disco novo, Hot Thoughts, dia 17 de março. Já tem single, capa, tracklist​…​ e agora uma entrevista exclusiva. ​Confira abaixo:​

TMDQA: Oi Jim! Estou muito curiosa com esse disco que vocês anunciaram. Agora o Spoon está com mais de 20 anos de trajetória e é ótimo ver que ainda tem fôlego e está seguindo adiante. Mas por outro lado, como é que vocês mantêm o frescor do trabalho – em especial, você e o Britt, que estão nessa desde o início?

Jim: Olha, não sei… Tem a ver com muitas coisas, com estar aberto a ouvir música de todo tipo. A gente consome muita música, está sempre disposto a tentar coisas novas. Algo que sempre tentamos não fazer é recriar no estúdio. Se parece que já fizemos algo, na hora dizemos “ok, estamos nos repetindo, vamos tentar outra abordagem”. É essa vontade de encontrar algo diferente. E também é muito importante dizer que a entrada do Alex na banda, nesse novo disco e no anterior, fez uma grande diferença. Primeiro porque ele é um músico impressionante, no teclado e na guitarra também. E ele é criativo, já ajudou a criar tantas partes legais nas nossas músicas. Quando você cria uma parte interessante, a partir daí tudo fica mais fácil, como numa bo​l​a de neve. É isso que tentamos fazer em todos os nossos discos.

TMDQA: Estava reouvindo os discos e notei como alguns deles traduzem bem na capa o momento da banda. É meio que a ideia, certo? Sem querer julgar o disco pela capa, mas essa dá um bom destaque para as cores. Será que é possível dizer que Hot Thoughts tem um direcionamento mais… “colorido” e alegre, com base também no primeiro single?
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Jim: Acho que sim, mas… Pra te falar a verdade, não pensamos em algo necessariamente “colorido”, sabe? Algumas palavras que usamos foram “excêntrico”, “inquietante”… Mas acho que pode ser visto por esse lado das cores também. Com um detalhe: é uma caveira. Então se pegarmos essa sua interpretação, podemos chegar a um conceito de que há algo sombrio escondido por uma camada de aparências. (Pausa)

TMDQA: Ok, acho que acabamos de chegar a uma nova perspectiva pra esse disco! (Risos) Falando nisso, vocês voltaram a trabalhar com o ​produtor ​​​Dave Fridmann. Como ele ajudou a banda a atingir a sonoridade que queria para o Hot Thoughts?

Jim: Eu sinto que chegamos a uma excelente parceria com ele. O Dave é ótimo em ter ideias para novos sons, e consegue nos fazer soar melhor também. É como trabalhar com um mago do som, porque ele simplesmente vai jogando ideias pra alimentar nosso processo criativo. Mas também é muito aberto, não fica chateado se a gente deixar de lado algum direcionamento que não está nos empolgando muito. O Dave acabou se tornando um novo membro da banda nesse sentido, contribuiu demais porque já tem em mente a forma como ele quer que a música fique no final, sabe?

TMDQA: Claro que é um longo processo, mas a forma como você descreveu essa parceria fez parecer que tudo foi bem mais fácil.

Jim: Foi, mas nunca é fácil! (Risos) Foi um ano nesse trabalho.

TMDQA: Mas falando em parcerias… 20 anos depois e cá estão vocês de volta à gravadora Matador. O que motivou essa volta?

Jim: A segunda vez dá sorte, certo? (Risos) É que ainda somos muito amigos do pessoal lá, conhecemos o Gerard e o Christopher [co-proprietários] desde 1996, quando lançamos nosso primeiro disco com eles. Mas agora as coisas estão bem diferentes, é na verdade um selo diferente. Eles estão muito mais integrados, com uma equipe maior, e o mais importante: estão motivados. O grande diferencial para lançarmos com eles foi que eles ficaram muito empolgados, simplesmente piraram com o disco! E quando você vai procurar uma gravadora pra lançar seu trabalho… se t​em uma coisa que não dá pra fingir, é entusiasmo. E isso faz toda a diferença para quem vai trabalhar com a arte que você criou. Sinto que eles compartilham da nossa empolgação com esse disco!

​TMDQA: Há dois anos, vocês relançaram o Gimme Fiction em uma edição especial. E esse ano, o Ga Ga Ga Ga Ga também faz 10 anos. Há planos de fazer algo parecido para esse disco? E como funciona esse processo de revisitar o próprio trabalho?​

Jim: Um trabalho de reedição depende muito dessas datas comemorativas se encaixarem com a nossa agenda de lançamentos de disco. Duvido que vamos conseguir fazer algo para esse disco específico, porque vamos estar na estrada. Precisamos ter ​disponibilidade pra nos dedicar a isso, leva uma quantidade enorme de tempo. Precisamos focar em cada menor detalhe, algumas faixas ​necessitam ser remixadas, outras remasterizadas. Enfim, acaba virando uma tarefa. Nossa agenda vai ser corrida agora com a turnê, então esse ano realmente não teremos tempo para um projeto assim. Estamos mais interessados em tocar e ir para o Brasil!

TMDQA: Opa​, q​uero saber disso aí! Como vai ser nessa turnê em termos de repertório? Entram as novas músicas, claro. Mas e as antigas, o que vai ter de ser cortado e o que é indispensável?

Jim: Estamos começando a ensaiar agora, então ainda não sei te dizer ao certo! Mas dessas antigas, estamos revendo “Small Stakes”, “Don’t You Evah”, “Do You”, “Underdog”. Estamos tentando novas versões, como para “You Got Yr. Cherry Bomb”. Não sei se o pessoal vai gostar! (Risos) Mas é que estamos tentando trazer algo novo para as coisas antigas, uma abordagem diferente. Isso é importante pra nos manter dedicados e também uma oportunidade para os fãs ouvirem as músicas de uma nova forma.

TMDQA: Mas espera um pouco: vocês já têm data confirmada no Brasil?

Jim: Uhm… Você está me dizendo ou me perguntando?

TMDQA: Olha, não tem nada no site de vocês, então estou perguntando! (Risos)

Jim: Agora você me pegou, nem sei onde nós vamos estar em abril! (Risos) Mas eu sei que queremos muito voltar, só não deve ter data certa, então.

TMDQA: Ok, ok, a gente já fica feliz com isso. No final de cada entrevista, sempre pedimos aos artistas para falarem dos seus álbuns favoritos. Mas com você, queria fazer algo diferente. Como te disse, fiz uma maratona de Spoon antes da nossa conversa! Fiquei pensando qual seria “O” disco da banda pra você, aquele que você põe pra tocar e te deixa orgulhoso, te faz dizer “uau, nós somos bons mesmo!”.

Jim: (Risos) Hoje eu diria que é They want my soul. Mas esse tipo de pergunta é complicado, viu? (Risos) Pra qualquer músico que você perguntar, ele sempre vai falar “ah, eu gosto mais do meu último trabalho!”. Mas então, dito isso, vamos excluir o disco atual e focar só nos anteriores. Realmente gosto muito do They want my soul, porque a gente tinha acabado de voltar de uma longa pausa e aí quando retornamos, a sensação foi de que éramos imbatíveis, estávamos com muita autoconfiança. Então eu fico feliz toda vez que ouço esse disco. Porque acho que para muitos músicos deve ser assim: as memórias da gravação afetam muito você gostar daquele trabalho. E a forma como esse álbum foi feito foi só… divertida​!​

TMDQA: Digamos que “They want my soul” não é nada pra se envergonhar.

Jim: Exatamente! (Risos)

TMDQA: Bom, Jim, nos vemos no Brasil! Posso cobrar?

Jim: Pode sim! Nos vemos aí!

   
 
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