Discos, amigos, representatividade: conversamos com Tegan And Sara

Dupla vem ao Brasil pela primeira vez para tocar no Lollapalooza

Tegan And Sara
 

Entrevista por Nathália Pandeló Corrêa

Nem parece, mas Tegan and Sara têm 19 anos de carreira – isso se você não contar os três anos de trabalho que antecederam o primeiro disco. De lá para cá, flertaram com sons que remetem ao folk, ao indie pop e rock e ao pop/punk, sem se comprometerem de fato com nenhum deles. Sabe aquele verso de “BWU”, “we don’t need a white wedding”? É isso.

A partir de Heartthrob, disco que lançaram em 2013, as influências pop ficaram mais evidentes. Com o mais recente trabalho, Love You To Death, elas não só ganharam mais força, como também consistência. Mas as irmãs Quin continuam escrevendo sobre relacionamentos com a mesma vulnerabilidade e intensidade que fez delas vozes relevantes lá no início dos anos 2000 e continua presente nos seus trabalhos mais recentes.

Também permanece a vontade de ir além da música e propor debates sobre diversidade e representatividade. Em dezembro, lançaram a Tegan and Sara Foundation, com a missão de lutar pela igualdade econômica, saúde e representação de mulheres e meninas LGBTQ​. Foi​ o resultado de trocas com fãs, ativistas, pesquisadores e legisladores ao longo da última turnê e uma resposta direta à administração de Donald Trump.

Na terça-feira (07/02), após receberem três indicações ao Juno Awards, prêmio da academia canadense para artes e ciências, Tegan e Sara se pronunciaram em seu site oficial. Reconheceram a importância de já terem ganhado o prêmio em 2014, indo na contramão da falta de inclusão da comunidade LGBTQ entre os trabalhos mais valorizados. Neste ano, a ausência ou pouca presença de mulheres em categorias mais técnicas, como produção e engenharia de som, foi vista pelo duo como “desencorajador”.

No meio disso tudo, Tegan e Sara vêm ao Brasil para tocar no Lollapalooza, que acontece em São Paulo nos dias 25 e 26 de março. Falamos sobre isso ​e mais ​com Tegan por telefone. Confira abaixo:

 

TMDQA!: Oi Tegan! Estamos empolgados por finalmente receber vocês no Brasil. Quero falar desse show, mas também sobre o ​álbum. Porque desde a capa até às músicas e aos clipes, dá pra notar uma abordagem um pouco mais pra cima em relação aos discos anteriores. E já foi dito bastante sobre essa mudança no som de vocês, em especial desde o Heartthrob, comparando com quando vocês começaram. Mas me parece que isso foi muito natural e, ao mesmo tempo, nem foi uma mudança completa do que vocês faziam antes. Tudo bem que agora vocês estão mais pop do que nunca, mas queria falar sobre o que não mudou! (Risos)

Tegan: Concordo com você, não foi uma mudança completa e sim uma evolução natural. As pessoas às vezes dizem que o nosso disco está muito diferente, mas tinha que estar mesmo. Sinto que elas não lembram que a gente já está nessa desde 1998, então se você arredondar, são quase 20 anos fazendo música. Claro que se formos comparar, vai ser bem diferente (risos). É isso que você falou, muitas coisas não mudaram. Nós fazemos o que sempre fizemos, que é escrever um monte de música. Eu faço mais na guitarra, a Sara prefere o piano. Aí a gente ​faz umas demos bem brutas, de umas 30 ou 40 músicas, e senta com um produtor e grava algumas delas. As músicas continuam sendo uma tentativa de explorar e investigar o amor, os relacionamentos, aquela dificuldade que é você se ligar a uma pessoa que tem uma bagagem diferente da sua. Somos bem consistentes nessas mensagens. Acho que foi a Sara quem disse… Na verdade, não lembro qual de nós duas falou numa dessas entrevistas: não importa que tipo de música estamos tocando, pois há algumas coisas das quais não podemos escapar e que sempre vão estar presentes no que fazemos.

TMDQA!: Pra divulgar o Love You To Death, vocês fizeram clipes para todas as músicas! Foi uma tentativa de explorar as letras de forma mais visual?

Tegan: Foi sim! Nós tínhamos essas músicas bem exuberantes, queríamos aproveitá-las ao máximo. Eu amo a ideia de, ao invés de pedir à gravadora uma tonelada de dinheiro pra fazer um clipe, dividir essa grana e fazer logo dez! E aí convidamos um time de mulheres, pessoas da comunidade LGBTQ, pessoas negras para trabalharem nessas concepções. ​E eles toparam! ​Nós queríamos mesmo ver a diversidade das suas visões e abordagens para todas as músicas do disco. Também pensamos que seria uma forma de dar aos fãs a oportunidade de vivenciar o disco por completo, ao invés de focar só em uma ou outra música. Com Heartthrob, nós fizemos uma turnê inteira em cima de “Closer”, e não queríamos fazer isso dessa vez.

TMDQA!: Essa onda pop não mudou o fato de que vocês abordam temas complexos nas letras. Por exemplo, vocês falam de seu relacionamento ​às vezes difícil ​como irmãs e sobre sua homossexualidade. As cantoras, em especial, têm abordado cada vez mais assuntos como esses. Você acha que o pop hoje tem assumido seu lado mais “sério” pra dar visibilidade a tópicos que estamos debatendo enquanto sociedade?

Tegan: Ah, com certeza. Se você olhar a música pop de uns 30 ou até 40 anos atrás, já víamos traços disso. Nomes como David Bowie, ​​Annie Lennox, Madonna, George Michael… Sendo LGBTQ ou não, eles nunca tiveram medo de mostrar o diferente, de serem ousados e estar à frente. O pop sempre foi um gênero de muito coração e alma, mas como todo tipo de música, ele muda. Tanto que se você pensa nos anos 90, o grunge e o rock é que foram os líderes dessa mudança de postura, de uma mensagem mais politizada. Mas independente disso, o que eu gosto no pop é que se você quer curtir, tudo bem. Mas se quer ir mais profundo, também não há nada que te impeça.

TMDQA!: Mas fora das músicas, vocês também abordam falta de diversidade de gênero, em especial no caso do Juno Awards, e começaram uma fundação para se dedicarem a direitos LGBTQ. E agora vocês vêm para o Brasil, um país que infelizmente tem um histórico sério de violência contra a comunidade LGBTQ. Será que mais do nunca, é hora de dar voz e visibilidade e esses ​tópicos?

Tegan: Nós sempre sentimos que tínhamos de falar mais sobre esses assuntos, apesar de que nosso objetivo era principalmente chamar a atenção das pessoas para as músicas, mais do que tudo. Mas de certa forma, algumas pessoas passaram a nos ver como exemplos, então sempre tentamos espalhar essa mensagem de inclusão e também destacar todo o progresso que já foi conquistado. Claro que há muito a ser feito, mas é importante destacar os passos que foram dados. Se você pegar os 8 anos do governo Obama, foi um período de grandes avanços em alguns assuntos, mas é claro que vai surgir um movimento contrário, tanto que isso nos levou ao Trump, a um partido republicano ​dominante ​representado na maioria por homens brancos​ e acredito que também seja o que acontece no Brasil, no mundo​. É uma reação imediata, um discurso que ganha mais força, que alimenta o racismo sistêmico e outras questões que não vamos resolver da noite pro dia. Então acho que o nosso papel é continuar pressionando para que não haja retrocesso. Por isso estamos muito empolgadas com a fundação, que é uma forma de concentrar nossas forças para ver o mundo melhorar. A questão do Juno Awards foi um exemplo, mas é muito maior do que isso. Nossa manifestação foi com uma indústria inteira. Nossa esperança é passar uma mensagem, especialmente para as garotas, empoderá-las para que saibam que elas podem ser o que quiserem ser.

TMDQA!: Mas falando de coisas um pouco mais leves…

Tegan: (Risos) Sim, vamos!

TMDQA!: Primeira vez aqui no Brasil! Como vai ser o show do Lollapalooza?

​Tegan: ​Verdade, nós estávamos esperando há tempos pra ir ao Brasil! No dia que anunciamos o show aí, foi uma loucura, viramos trending topic no Twitter por um minuto, porque do nada surgiram 4.000 tweets sobre nosso show (risos). Mas como sempre dizem do público do Brasil, espero que os fãs sejam intensos! E como nunca fomos aí, precisamos tirar o atraso e tocar as músicas antigas também. Nós temos um repertório que usamos em festivais, então vamos unir as novidades e as principais músicas da nossa discografia. Vamos estar com a energia lá no alto!

TMDQA!: ​Uau, já está acabando nosso tempo! Só mais uma coisa. ​Não sei se comentaram com você, mas o nome do nosso site é Tenho Mais Discos Que Amigos.

Tegan: Sério? (Risos) Que legal!

TMDQA!: Sério! E tem muito a ver com o fato da música que a gente tem em casa ser como um amigo mesmo, presente nos bons e maus momentos.

Tegan: Nossa, isso é muito verdade!

TMDQA!: Não é? A gente pensa mesma coisa, daí me bateu a curiosidade de saber qual é esse disco pra você. Sabe aquele que você só dá play e melhora seu dia na hora?

Tegan: Nossa, sei sim! Olha, ao longo dos anos, se tem uma coisa que me deixa feliz, é ouvir Bruce Springsteen. Qualquer coisa dele, sério! Porque me lembra muito da minha infância, tocava sempre na nossa casa. Com certeza, ele foi uma grande influência pra mim, é um grande artista!

TMDQA!: Algum disco específico dele?

Tegan: Tem um que se chama Live/1975-85, que é de uma energia muito boa! Eu sempre coloco, porque parece uma conversa com ele. Entre uma música e outra ele vai contando histórias e você vai conhecendo um pouco dele. E ainda é com a E Street Band, que é incrível! Só que são 3 discos, então tem que tirar um tempo pra ouvir!

TMDQA!: Tipo um show do Bruce, três horas depois ​e ​você sai de alma lavada.

Tegan: Exatamente isso!

TMDQA!: Então muito obrigada por conversar com a gente, Tegan! O Brasil te espera!

Tegan: Não vejo a hora!

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