O cantor e compositor André Mussalem revisita a música brasileira clássica, em especial o samba de raiz no seu novo disco No morro da minha cabeça. O álbum é um carinho estético que só quem já ouviu muita música e tem mais discos que amigos é capaz de fazer.

Logo no começo, um trecho de uma entrevista de Madame Satã dá o clima do projeto, que une bom humor com lirismo. Conversamos rapidamente com o artista sobre o trabalho, que você consegue ouvir no fim do post e que é o primeiro de uma trilogia sobre os elementos de identificação nacional.

TMDQA: O No morro da minha cabeça traz um lirismo novo para o samba tradicional. Como surgiu a ideia para esse disco?

André Mussalem: A partir da afirmação de Chico Buarque que a “canção havia acabado no Brasil” começamos – insistentemente – a buscar saídas musicais para valorizar a complexidade das canções, tanto a partir das letras, quanto a partir dos arranjos. Buscamos instrumentos que não eram usualmente utilizados no samba, como o fagote e o oboé. Nosso objetivo era mostrar que, apesar de todas as desconstruções pelas quais o samba vem passando, a sua forma clássica é ainda essencial.

TMDQA: O álbum parece habitar um imaginário do samba que todos tem, muito familiar. Brincar com a memória afetiva das canções foi algo proposital?

André Mussalem: Sim. A idéia central do disco é dialogar com os “standarts” do cancioneiro brasileiro. Com Zé Keti, Chico Buarque, Candeia, Vinícius e Baden, Caetano Veloso. Para isso, precisávamos criar uma atmosfera em que o ouvinte sentisse a evocação desse passado e olhasse para o futuro, ao mesmo tempo.

TMDQA: O disco parece ser uma coletânea de memórias desde a capa. Como surgiu a ideia da arte?

André Mussalem: O nome do disco é No Morro da Minha Cabeça. Ele faz referência a esse morro quase mítico que existe no imaginário coletivo do brasileiro. Ao mesmo tempo é sobre as minhas influências musicais. Quando Guilherme Luigi (o designer) pensou na capa, ele quis fazer uma radiografia da minha cabeça. A idéia era deixar visível todos os elementos que, ao longo dos anos, foram essenciais para a formação do repertório. Cada objeto ali disposto tem uma ligação afetiva comigo.

TMDQA: Na capa já tem o disco do Cartola e você diz logo no começo do álbum que sua “formação foi ouvindo disco na vitrola”… Então você também tem mais discos que amigos?

André Mussalem: Amigos, eu conto nos dedos da mão. Já os discos, não existem dedos suficientes para conta-los. Sou consumidor voraz de discos desde menino. E não adianta música digital. Sou daqueles que têm que segurar o encarte e sentir o cheiro da tinta.