BRAZA
Foto por: Gui Caielli
 

Há um ano, o Forfun realizou os últimos shows da sua carreira. Alguns meses depois, os ex-integrantes Vitor Isensee, Danilo Cutrim e Nicolas Christ surgiram com sua nova banda, Braza.

Com um disco homônimo que tem feito sucesso, três videoclipes lançados e o projeto Obra Utopia a caminho, o grupo mantém a base forte de fãs antigos, sem deixar de conquistar novos.

O trio esteve em São Paulo e conversamos a respeito do fim do Forfun, dessa nova fase com o Braza e os novos projetos, além da relação com o público.

TMDQA!: Em que momento vocês se reuniram e resolveram formar uma nova banda?

Vitor: Acho que foi em meados de 2015 – o último show do Forfun foi em dezembro do ano passado. Em junho, a gente começou a chegar a conclusão de que era hora de partir pra outra. Conversamos com o Rodrigo, claro, e não só com ele, mas com todas as pessoas envolvidas, empresário, equipe e tudo mais. A gente chegou nesse ponto de querer encerrar o ciclo com o Forfun e eu, o Danilo e o Nicolas conversamos e vimos que ainda tínhamos muita afinidade musical, muitas ideias em comum e uma intenção muito parecida na proposta artística. A gente quis continuar, bolar outra parada e foi aí que a gente começou a idealizar o Braza e começou a compor.

TMDQA!: Rolou alguma preocupação ou insegurança com o que os fãs do Forfun achariam quando lançassem o Braza?

Danilo: Cara, num certo nível sim. Não adianta falar que faz arte só pra você porque você acaba fazendo e tendo um feedback, então é claro que a gente se importa e tenta prever o que vai acontecer, como as pessoas vão reagir. Mas eu acho que a gente descobriu que o “sucesso” na arte e na música tem que ser sincero. Essa sinceridade se traduz num disco, se traduz no palco e ninguém é bobo, todo mundo percebe. Acho que ser honesto, ser transparente, ser sincero com a gente mesmo é o imprescindível e é o que tem que acontecer. Se alguma coisa estiver maquiada, se alguma coisa estiver sendo empurrada com a barriga, as pessoas vão perceber e vai ser um declínio. A gente resolveu parar num lugar muito bacana, no auge. Então é isso, a gente se importou um pouquinho, mas o que a gente mais se importa é com a gente mesmo, como a gente tá se sentindo, com o processo de criação, a união e a sinceridade.

Vitor: E não ia adiantar nada querer seguir fazendo uma historia só pelos fãs da história. Com todo respeito aos fãs, porque nada existiria sem o público, mas como Danilo falou, tem uma hora que a sinceridade fala alto e a gente tem que fazer aquilo.

TMDQA!: Como foi o processo de composição do disco? Com o último trabalho do Forfun vocês haviam feito mais separados, como foi com o Braza?

Vitor: Com o Braza a gente resgatou um pouco o método de composição mais do começo do Forfun. Porque é diferente também, não da pra comparar. É outra bagagem, a gente já compõe de outra forma, já tem outros macetes e formas de fazer a música, mas a gente fez de uma forma mais coletiva, se comparado ao último disco do Forfun, o Nu. E eu acho que também foi uma experiência muito valida, compor separadamente, a la Los Hermanos, e depois juntar. Com o Nu a gente fez núcleos criativos e juntou tudo num disco.

Danilo: Até porque os núcleos criativos surgiram, eles emergiram de uma maneira muito louca.

Vitor: Mas com o Braza já é uma vibe bem mais coletiva com todo mundo interferindo. É aquela coisa de só dar o ok final se todo mundo estiver satisfeito, é uma forma muito interessante de trabalhar, por mais que seja difícil. Trabalhar coletivamente nunca é fácil, mas também é uma forma muito rica, você pode se surpreender muito, positivamente

Danilo: A gente põe um expediente, digamos assim. Se a gente se encontra 16h, vai até 21h, e então esse encontro até força um pouco o “fazer coletivamente”. Tem vários caminhos por onde a música surge, pode surgir individualmente no seu quarto, quando você começa a letra, mas as primeiras pessoas a quem você mostra são as da banda. Cada um diz o que achou, o que não achou e aí no encontro a gente destrincha a letra e vai desenvolvendo ela com todos juntos.

Foto por: Gui Caielli

TMDQA!: Em relação ao público, shows e rotina, o que muda em relação ao que vocês já viviam antes?

Vitor: Eu realmente sinto como uma nova etapa. A maioria do público que vai aos shows já conhecia o Forfun, mas a gente tem se surpreendido bastante com muita gente que não ouvia a banda e tá conhecendo o Braza. Independente de onde vem esse público, é uma etapa nova na nossa vida, até pela sonoridade que a gente tá propondo. É uma outra forma de interação com o público, de comunicação, de forma de cantar, expressão corporal, identidade visual… isso tudo entra no pacote. A grande diferença é ser outro projeto, outra banda, outro momento, e a gente tá descobrindo isso tudo agora. O próprio público tá descobrindo como se comportar no show do Braza, porque às vezes já foi no show do Forfun e chegou esperando uma coisa parecida agora e não é. Por mais que tenha sim um ponto em comum, é outra historia. A gente também está se adaptando e entendendo. Não tem bola de cristal nessa hora, você chega achando que a música vai funcionar de um jeito no show e acaba funcionando de outro. Assim como nós, já em outra fase de vida, tem uma galera mais velha, e acho que isso fica perceptível nos shows, até pelos artistas que a gente tem se envolvido, tem tocado junto. Acho que tem rolado muitas novidades nesse sentido.

TMDQA!: Vocês lançaram recentemente o clipe de “Segue O Baile”. Como surgiu a ideia e como foi a gravação?

Danilo: Esse foi o terceiro clipe do Braza. O primeiro foi “Embrasa”, que foi completamente dentro do estúdio. O segundo foi “Oxalá”, que já conta uma historia, tem um enredo e é metade em estúdio e metade externo. Então, esse a gente quis fazer completamente externo, tudo na rua. A gente quis trazer um pouco da cultura do sound system jamaicano, que não é mais exclusivamente jamaicano e aqui no Brasil tem se espalhado numa velocidade forte, principalmente aqui em São Paulo. É essa maneira peculiar de fazer, tocar e lançar as músicas. Começou na Jamaica há muitas décadas, onde a população menos favorecida que não possuía rádio tinha como a única forma de escutar música correr pra esquina quando passava um sistema de som. Isso acontece no mundo inteiro e acaba tendo um caráter mais inclusivo porque não precisa pagar ingresso pra estar ali e nem ser de alguma tribo.

A gente escolheu um lugar muito emblemático pra essa mistura e essa pluralidade existe de uma forma bem aguda na região da Vila Mimosa, no Rio de Janeiro. É um reduto de tudo que você pode imaginar, desde rock and roll mais pesado até funk. A comunidade lá é muito importante e a gente teve um approach ali com muito carinho, conhecemos os moradores e todos deram o aval e rolou uma identificação muito bacana. A gente quis fazer uma festa, mas que não fosse só uma festa, que fosse gravação; e uma gravação que não fosse só gravação. Isso foi o mais difícil de fazer no clipe, saber até onde é festa e até onde é gravação. Não adianta fazer algo todo rígido e não conseguir a espontaneidade das pessoas e a vibe do momento, a alegria da celebração, mas também só uma festa sem se preocupar com a gravação acaba não captando nada. Acho que a gente conseguiu acertar, funcionou bastante essa união. A gente chamou uma galera do reggae, da música e da dança. O principal foi mostrar que essa cultura da festa de rua não é exclusiva do reggae ou do carnaval, ela é de quem quer estar junto, celebrando a música. Tem o lance dos MCs, do DJ comandar a festa e de quem quiser chegar, chegou. Tem que ser na paz e dançando bastante. Isso traduz um pouco a nossa essência, a nossa alma. A gente é festeiro, a gente é inclusivo e é um pouco a proposta que o Braza apresenta também.

TMDQA!: Numa outra entrevista, o Danilo comentou sobre o projeto Obra Utopia. Já está pronto? Tem lançamento definido?

Vitor: Sim, o lançamento vai ser em fevereiro, no dia 7, se não me engano. Ainda falta um tempo, mas a gente já agendou. É um outro projeto audiovisual do Braza, um pouco diferente porque não é exatamente um vídeo de uma musica, um clipe. São cinco músicas da gente tocando totalmente ao vivo, mas sem plateia, num lugar que se chama Armazém da Utopia, por isso o nome Obra Utopia. Lá no Rio esse é um lugar bem representativo, assim como esse clipe de “Segue O Baile” que a gente fez no Porto Pirata, que é uma região da zona portuária do Rio também. Essa região onde a gente gravou Obra Utopia sofreu uma transformação muito grande nos últimos anos por causa dos eventos olímpicos. Quem esteve no Rio recentemente deve ter visto que era uma área muito degradada da cidade no sentido urbanístico e rolou essa revitalização, cheia de contradições porque um monte de gente foi despejada dali pra dar lugar a um local totalmente turístico.

A gente escolheu gravar ali até pelo contato que a gente ja tinha com o pessoal do Armazém da Utopia e ficou um trabalho super legal. Foi dirigido pelo Wilson Domingues, um videomaker muito talentoso. A gente vai lançar esse projeto em fevereiro, mas a nossa ideia era que ele tivesse saído já há um pouco mais de tempo, mas como a gente foi acertando algumas coisas pro lançamento com televisão e tal, a gente preferiu aguardar. Mas a ideia é justamente apresentar o Braza ao vivo, é bem pra quem curte assistir performance de banda. E tem uma fotografia muito legal também, vai valer a pena o tempo que a gente esperou.

TMDQA!: Vocês já estão pensando no próximo disco?

Vitor: Sim, já estamos compondo. Ainda numa etapa mais do começo, mas já tá rolando. Já começando a pensar repertório, com algumas músicas mais adiantadas, alguns arranjos bem encaminhados e a gente pensa em gravar no começo de 2017 pra lançar logo. A gente vem numa pegada de trabalho bem intensa.

Danilo: Se parar dá cãibra né.

TMDQA!: De que forma vocês resumem esse quase um ano de Braza?

Vitor: Uma estratégia que a gente quis fazer foi gravar tudo, inclusive o primeiro clipe, sem divulgar nada. Pessoas que ja acompanhavam a gente pelo Forfun não imaginavam o que a gente ia fazer e tal. O Braza nasceu realmente 10 de março de 2016, uns nove meses atrás, mas da pra gente arredondar pra um ano. Rolou muita coisa legal, muitos desafios que a gente não imaginava, um recomeço. A gente teve que enxugar a nossa estrutura, em vários sentidos, desde tocar em casas menores, diminuir a equipe técnica, voltar a se envolver com aspectos da produção que a gente se dava a liberdade de não precisar se envolver tanto. Mas é isso, quando você está a fim de fazer tem que arregaçar a manga mesmo, botar a cara e é o que a gente vem fazendo. Ao mesmo tempo que surgiram muitos desafios nesse um ano, surgiram muitas coisas legais, o reconhecimento do público tá numa crescente, acho que tá dando pra perceber isso nos shows. Nas cidades em que a gente já tocou mais de uma vez o segundo show tá sendo sempre mais legal que o primeiro, que já tinha tido um astral maneiro. É um momento de muito trabalho porque não é do dia pra noite que se cria uma banda ou uma marca, mas a gente tá amarradão de fazer. Modéstia a parte, acho que a gente conseguiu um volume grande de produção pro tempo de estrada que o Braza tem. Em um ano a gente já tem três clipes, um projeto ao vivo, vários shows, vamos tocar em vários festivais legais no inicio do ano, muita coisa legal rolando e o saldo tá bem positivo.

Foto por: Gui Caielli

TMDQA!: Como é ter que repensar o formato de show, já que vocês estavam acostumados a ter um grande repertório e agora estão incluindo alguns covers?

Nicolas: Além de um repertório reduzido tem o fato de termos apreço por alguns artistas. A gente escolheu alguns específicos que a gente gosta muito, como Gabriel O Pensador, Sabotage, Bob Marley e Sublime. É o gosto por esses artistas e a importância deles pro Brasil, pro mundo e pra gente. E também a necessidade de preencher um espetáculo porque a gente ainda ter poucas músicas.

Vitor: O bom também de ter um repertório menor nesse momento é que a gente pode se dar a liberdade de fazer um tempo maior de jam, de improvisos, a gente estende algumas músicas ou faz a introdução de uma música. Acaba que o show fica mais livre.

TMDQA!:  E como vocês tem visto a evolução dos shows ao longo desses meses?

Nicolas: Vai encaixando, né. Quando a gente grava um disco, ensaia pra fazer o primeiro show, mas só com o tempo de estrada vai acertando a mão. Vai percebendo que quanto mais pro final da turnê, já deu mais liga. A gente já conhece as músicas e como o público responde, apesar de cada cidade responder de uma forma. É interessante ver essa evolução e vai ficando cada vez melhor por isso também.

Danilo: Fica mais natural.

Vitor: E em contrapartida, a mesma coisa acontece com o público. Assim como a gente vai se adaptando e se ambientando ao repertório, o público vai conhecendo melhor as letras e é natural que depois de alguns meses do trabalho iniciado a galera hoje seja mais entrosada.

TMDQA!: Obrigada! O espaço final é de vocês!

Vitor: Gostaria de mandar um grande abraço pra galera do Tenho Mais Discos Que Amigos!. A gente fica muito agradecido pelo espaço e esperamos produzir muitos discos e muitos amigos nessa vida.

Nicolas: Queria agradecer também pela resenha do nosso show, ficou muito maneira.

Danilo: Emocionante, obrigado!

   
 
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