Música é linguagem. É ritual. É o ingrediente seminal da relação impessoal entre estranhos imersos em ambientes reais ou virtuais, compartilhando uma conexão direta com uma proposição sonora. É um diálogo independente de palavras entre emissores e receptores, um conjunto assimétrico de ruídos às vezes harmônicos, às vezes representações perfeitas da desordem. Há receitas clássicas, repetidas à exaustão, de como se estabelecer essa relação – os mesmos acordes sob as mesmas melodias, estruturas, ritmos. Há, por outro lado, quem se desafie a fazer música da transgressão, do silêncio, da ausência de instrumentos ou repetições, aqueles que se propõem a fazer universos distantes colidirem e, do saldo dessa demolição, encontrar novas formas de expressão.

No segundo grupo, o dos exploradores, costumam sair os artistas que integram os line-ups do Novas Frequências, festival carioca de música de vanguarda que chega à sexta edição nesta semana. Desde o último sábado (03), o festival ocupa diversos espaços culturais do Rio de Janeiro com apresentações que vão da abstração completa às mais diversas inovações tecnológicas, e o Faixa Título esteve nos dois primeiros dias do festival, ambos realizados em um galpão na Gamboa, Zona Portuária do Rio.

O Novas Frequências não é, de forma alguma, um festival tradicional. A música é dissolvida em experiências sensoriais focadas na audição, mas não exclusivas a ela. Exemplos óbvios foram as presenças da instalação Psychotropic Electric Eel Dreams, de Rob Mazurek – icônico músico americano, reconhecido no Brasil pelos trabalhos com o São Paulo Underground – onde lâmpadas fluorescentes iluminavam-se em sintonia com os sons do choque elétrico de enguias da Amazônia, e da experiência hipnótica de Hecker, peça do austríaco Andreas Trobollowitsch onde ele e mais dois lenhadores partiam pedaços de madeira em sintonia. Ainda assim, o carro-chefe do dia aproximava-se mais da convenção que da revolução: o “pop apocalíptico” do Xiu Xiu, projeto liderado pelo americano Jamie Stewart e responsável por doses generosas de melancolia, angústia, aspereza e doçura – às vezes em uma única canção.

Psychotropic Electric Eel Dreams, de Rob Mazurek #nf2016

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Dramático ao extremo, Stewart é uma releitura pessimista da polidez dos crooners americanos dos anos 1950. Acompanhado pela tecladista Angela Seo, Stewart apostou em performances sempre inquietantes, que variavam entre a catarse, como no semi-hit “I Luv The Valley OH!” e a delicadez das versões de Plays The Music of Twin Peaks, álbum lançado no primeiro semestre onde o Xiu Xiu reinventa a saudosa trilha do seriado Twin Peaks, obra-prima de David Lynch. Uma belíssima apresentação.

Antes do Xiu Xiu, a garagem do Galpão recebeu o show dos paulistanos do Cave Wave, uma massa sonora inspirada no pós-punk, enquanto o terraço servia como palco para sets acentuados pelos graves do francês Black Zone Myth Chant e do Infusão, pseudônimo do brasileiro João Milet Meirelles, um dos responsáveis pelas bases e samples do BaianaSystem. Depois do Xiu Xiu, o eletrônico tomou a frente do primeiro dia do Novas Frequências, e apesar da curiosidade pelos sets da americana Elysia Crampton e os mashups bizarros sueca Toxe, o instinto sugeria descanso para o segundo dia. Ainda bem.

Catarse e celebração

Inicialmente marcado para acontecer em um espaço aberto no Méier, o segundo dia de Novas Frequências foi transferido para o Galpão Gamboa, mesmo lugar do primeiro, por causa da (acertada) previsão de chuva. A garagem serviu de casa para uma segunda noite nitidamente mais violenta que a primeira. De cara, um trio inédito: o noise do Godpussy se aliou à sujeira lo-fi de Lê Almeida para abrir espaço à verborragia insana de Tantão, lenda viva da cena experimental carioca. Um terremoto de samples, barulhos incompreensíveis e microfonias que, em uníssono, tornavam-se um espelho perfeito do caos. Experiência semelhante à do show seguinte, do duo húngaro Céh, uma versão contemporânea da agressividade mecânica do rock industrial.

Nada disso, no entanto, preparou os presentes para as duas performances finais do domingo, talvez as mais impressionantes do festival até então. A primeira foi a do trio paulistano Rakta que, embalado pelo excepcional III, lançado em julho deste ano, lotou o espaço. O vulto das três integrantes da banda, fixos contra um paredão de luzes vermelhas, serviu como única referência visual do grupo durante o show, marcado pelo carisma mântrico das canções do Rakta. Foi uma apresentação impecável, de uma violência sutil e, justamente pela sutileza, ainda mais tocante. Em tempo: leia aqui a entrevista exclusiva que fiz com o trio, instantes após o show.

Para encerrar o segundo dia de Novas Frequências, os cineastas Vincent Moon e Priscilla Telmon se juntaram ao produtor libanês Rabih Beaini para Cosmogonia, uma performance hipnótica que misturou cinema, música e religião. Moon misturava imagens de rituais religiosos gravados em diversas partes do mundo, enquanto Telmon e Beaini produziam ou manipulavam os sons em tempo real. Ali, o ponto final surgiu através de uma verdadeira celebração extrassensorial e dois intensos dias dedicados às margens mais distantes do que nos acostumamos a chamar de música. Emocionante.

A sexta edição do festival Novas Frequências segue no Rio de Janeiro até a próxima quinta-feira. A programação completa, com informações sobre as atrações e ingressos, está disponível no site do festival.

 

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