Ibeyi
 

Diretamente de Paris, pelo Skype, as irmãs Lisa-Kaindé e Naomi Díaz em pouco pareciam a força da natureza que são em suas músicas ou no palco. As mulheres engraçadas que conversavam comigo enquanto brincavam com um gatinho formam uma das duplas mais interessantes e originais da música contemporânea, o Ibeyi.

Filhas de Anga Díaz (percussionista do Buena Vista Social Club), as irmãs gêmeas (o nome do projeto significa isso em iorubá) são francesas de ascendência cubana e sua música explora o pop alternativo misturando com sons ritualísticos e pontos de umbanda. Elas explodiram mundialmente com o vídeo de “River” e desde então estão em uma enorme tour mundial para promover seu excelente disco de estreia. Um dos nomes mais incensados atualmente, elas apareceram no visual álbum “Lemonade”, da Beyoncé. Nessa semana, se apresentaram em São Paulo e hoje sobem ao palco do Circo Voador, no Rio.

Se você não conhece, ouça e se prepare para algo diferente e surpreendente. Se você conhece e está no Rio nesse 15 de outubro de 2016, vá ao show.

Confira agora a entrevista que fizemos com elas.

TMDQA: Antes de tudo, estamos muito empolgados para ver vocês aqui no Brasil. Não sei se vocês tem noção, mas quando anunciaram seu show aqui no Rio, rolou uma correria pra comprar ingressos. Foi bem bacana!

Lisa-Kaindé: Sério? Que incrível!

TMDQA: O que vocês estão esperando desse show, do público aqui?

Lisa-Kaindé: Espero que a galera seja bem participativa, cante junto. Ouvi falar que é assim!

Naomi: Você acha que vai estar bem cheio?

TMDQA: Sim, acho!

Lisa-Kaindé: YEY! Então, eu espero que as pessoas estejam fazendo muito barulho…

Naomi: Cantando aos berros!

Lisa-Kaindé: Isso, cantando aos berros. Adoramos esse tipo de público. Ainda mais que vai ser o último show que faremos desse disco. Depois de dois anos de turnê, nós realmente precisamos que seja uma festa.

Naomi: SIM!

TMDQA: A música de vocês tem uma ancestralidade iorubá que é familiar aqui pra gente…

Naomi: Sim, candomblé!

TMDQA: Vocês acham que essa ancestralidade em comum é algo que ajuda a música de vocês a se relacionar bem com as pessoas aqui?

Lisa-Kaindé: Sim, eu realmente penso nisso. E não só aí. Sinto que a música iorubá tem algo de mágico. Você pode nunca ter ouvido, pode não entender, mas você simplesmente se conecta com aquilo, sabe? Um dos nossos objetivos é ser uma porta de entrada para a cultura e a música iorubá para as pessoas. Afinal, isso é algo tão especial pra nós e tanta gente. E acho que estamos chegando lá e esse é o maior prêmio que podíamos ter ganho com esse disco.

TMDQA: Religiões africanas sofrem muito preconceito aqui no Brasil. Desde agressões, depredações de templos até a proibição no centro ecumênico nas olimpíadas. Como vocês veem isso? Música pode ajudar a mudar essa percepção errada que as pessoas têm?

Lisa-Kaindé: Meu Deus, espero que sim. Acho que música é o último link, o maior dos links entre as pessoas. Nós somos completamente contra qualquer tipo de proibição cultural. Nós somos metade francesas, metade cubanas. E vimos de perto o bloqueio econômico de mais de 60 anos que Cuba sofreu e que não mudou nada, não mudou mentalidades. Cultura e arte podem mudar mentalidades.

Por isso subir num palco na frente de um monte de pessoas, falar pra essas pessoas as nossas verdades do fundo do nosso coração, é importante. Pode não ser a verdade dessas pessoas, mas pelo menos essas pessoas estão vendo algo diferente.

Naomi: Pessoas! (risos)

Lisa-Kaindé: Pessoas! (risos) Queremos nos conectar de um modo pacífico, que pareça legal para as pessoas, para que elas vejam sem preconceitos.

TMDQA: E sobre planos futuros? Pensam em tirar férias ou…

Lisa-Kaindé: Não, não!

TMDQA: Vão direto pro estúdio? 

Lisa-Kaindé: A gente tirou um mês agora, aí vamos para aí e depois de duas semanas…

Naomi: Disco novo!

Lisa-Kaindé: Isso aí, disco novo! Já estamos escrevendo ele!

TMDQA: Quando ouvi o disco de vocês pela primeira vez, e o disco de vocês foi um dos que mais ouvi no ano passado…

Lisa-Kaindé: Ai, obrigada!

Naomi: Obrigada mesmo!

Lisa-Kaindé: Ainda soa legal, né? Você não enjoou da gente? (risos)

TMDQA: Não, não! (risos) Mas a primeira vez que ouvi, me lembrei na hora de um disco clássico aqui chamado “Afro-sambas”.

Lisa-Kaindé: “Afro-sambas”? Hmmm, gostei desse nome. Vou procurar.

TMDQA: É um álbum que trouxe de volta a tradição africana pro samba e cada música é uma oração para um orixá. E isso também tem no álbum de vocês. Vocês conhecem algo de música brasileira?

Lisa-Kaindé: Definitivamente, vou procurar pelo disco! E sobre música brasileira, sei um pouco sim. Admiro muito o modo como as harmonias funcionam na música brasileira e o ritmo também. Já ouvimos muito Seu Jorge e eu tenho uma paixão e admiração pela Elis Regina. Quando você estuda jazz, você tem que ouvir ela. Ela é incrível.

TMDQA: Para encerrar, o nome do nosso site é Tenho Mais Discos que Amigos. E isso vem do fato que muitas vezes a música que temos e ouvimos são como amigos. Vocês tem algum disco que encaram como amigos?

Lisa-Kaindé: Isso é difícil. Mas tem uma música que só minha mãe me confortou mais, que é “Wild is the wind”, da Nina Simone.

Naomi: Eu não sei o que responder nessa…

Lisa-Kaindé: É que ela nunca ouve música, só pra trabalhar!

Naomi: Não é verdade! Às vezes eu ouço uma música e eu choro e não sei bem o motivo. Mas sou muito difícil para dizer quem é meu artista favorito, disco favorito. Eu não sei o que fazer pra escolher! (risos)