Poucos grupos no planeta podem se gabar de ser tão influentes quanto o Kraftwerk. Fruto do encontro entre exploração artística e inovações tecnológicas da Alemanha pós-Segunda Guerra, o quarteto ajudou a popularizar o que hoje percebemos como as bases da música eletrônica, e abriu um novo campo de possibilidades na criação musical.

Formado no fim dos anos 60, o Kraftwerk ajudou a ditar os rumos da música do futuro, e influenciou gerações inteiras com álbuns como Autobahn (1974) e The Man Machine (1978), com desdobramentos claros até na produção contemporânea.

É claro que a sonoridade essencialmente digital tornou-se a marca registrada do Kraftwerk com o passar dos anos. Mas por baixo dos blips e bloops repousam composições admiráveis, adaptáveis a qualquer tipo de gênero musical. Inclusive o post-rock.

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Com três álbuns no currículo, o Herod é um dos grupos mais conceituados do cenário de rock instrumental do Brasil. Há alguns meses a banda trabalha em releituras de clássicos do Kraftwerk apenas com guitarras, baixo e bateria, influenciados não por produtores eletrônicos, mas por bandas como Mogwai, Sunn O))) e Godspeed You! Black Emperor.

O tributo já estreou em palcos pelo estado de São Paulo, mas retorna à capital paulista na próxima quinta-feira (13) para apresentação no SESC Pompeia. Elson Barbosa, baixista do grupo, falou ao Faixa Título sobre as diferenças entre as versões e as originais, os trunfos do Kraftwerk e os encontros cada vez mais frequentes entre o rock e a eletrônica. Confira abaixo, logo após a versão da Herod para “Kometenmelodie 1 & 2”:

Ao destrinchar as canções do Kraftwerk para arranjar o tributo, o que mais te chamou a atenção na obra deles?

Elson Barbosa: Acho que foi o quanto as músicas são estruturalmente simples – poucos acordes, melodias acessíveis, letras diretas e curtas. Acho que dá pra dizer que é quase um “pop minimalista”. E o fato de terem vindo de uma escola experimental e terem convertido tudo aquilo em pop eletrônico torna o trabalho deles ainda mais incrível.

E como as músicas se transformaram nas novas versões? O que elas ganharam ou perderam, na sua opinião?

EB: Uma das decisões desse projeto era manter os arranjos e estruturas da forma mais fiel possível. “Radioactivity”, por exemplo, tem exatamente a mesma estrutura da original, com os efeitos reproduzidos nas guitarras – até o código morse está lá. Depois da tradução literal, começávamos a ter ideias para entortar e cobrir com uma camada de peso e barulho, trazendo o resultado mais próximo do que fazemos com a Herod. Acho que as músicas ganharam bastante em peso e dinâmica. “Radioactivity” e “The Hall of Mirrors” são dois exemplos de como aproveitamos a repetição das originais pra investir em dinâmica e crescendos de peso. São nossas duas favoritas.

Apesar das fronteiras cada vez mais turvas desde a popularização de álbuns como Kid A, do Radiohead, ainda há puristas que se incomodam com o diálogo entre a música eletrônica e o rock. Como você vê essa questão, especialmente após o tributo?

EB: Bobagem se incomodar. O rock nasceu por definição pra chutar a canela dos conservadores – impor limites no que é rock “de verdade” é uma contradição engraçada. Acho que o grande valor que o Radiohead trouxe (e traz até hoje) é apresentar o experimentalismo e a vanguarda para as massas. É um caso bastante raro ser uma das maiores bandas do mundo fazendo um trabalho desafiador e esquisito. Isso é muito mais rock do que espremer a mesma fórmula de sempre.

Se alguém não conhece o trabalho da Herod ou do Kraftwerk tão bem, que álbuns você indicaria para apresentar obra das duas bandas?

EB: Do Kraftwerk acho que eu indicaria dois: o Autobahn por ser a transição exata entre o experimentalismo e o pop eletrônico, e o Radio-Activity por eles refinarem ainda mais a fórmula “canção” e gerarem hits atemporais. É o meu álbum favoritos deles. Da própria Herod acho que eu indicaria o nosso último disco full, o Umbra. É o que melhor reflete a fase atual da banda, investindo mais em peso e barulho.

Serviço: Herod toca Kraftwerk

Onde: SESC Pompeia – Rua Clélia, 93 – São Paulo, SP
Quando: 13/10 (quinta-feira), às 21h30
Quanto: de R$ 6 a R$ 20, nas unidades SESC SP ou online, neste link