Gehenna, o segundo álbum do grupo paulistano Labirinto, saiu na última sexta (09), e expande em potência, densidade e tensão o eloquente Anatema (2010), álbum de estreia do grupo paulistano.

Produzido por Billy Anderson, reconhecido pelo trabalho em clássicos da música agressiva e experimental como Dopesmoker (Sleep), California (Mr. Bungle) e até Carniceria Tropical (Ratos de Porão), Gehenna é uma verdadeira epopeia obscura, e rivaliza em qualidade com a discografia do próprio quinteto, coroada pelo excelente split lançado com o thisquietarmy em 2013.

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Para marcar o lançamento, o Faixa Título conversou com o guitarrista e tecladista Erick Cruxen e com a baterista Muriel Cruz sobre os bastidores do álbum, o trabalho com Anderson e a cena de música obscura no Brasil atual. Leia a seguir, logo após o teaser trailer de Gehenna:

Gehenna soa ainda mais denso e pesado do que os trabalhos anteriores da banda e sai seis anos depois de Anatema, primeiro álbum da Labirinto. Como vocês comparam os dois álbuns?

Erick Cruxen: Certamente, o Gehenna acabou se tornando muito mas pesado e denso que o Anatema. Foi um processo natural, nada que forçamos. Existe uma diferença de 6 anos entre os dois álbuns, e esse processo foi consequência inevitável das coisas que ouvimos e gostamos. O Anatema é muito mais idílico e uniforme. Já o Gehenna é épico também, mas muito mais direto, agressivo e infernal.

Muriel Cruz: Sim, como um amigo mencionou esses dias, se você parar para escutar todos os últimos lançamentos (Anatema, depois o EP Kadjwynh, o split com thisquietarmy, o single Masao e agora o Gehenna), há uma lógica de desenvolvimento do nosso som bem clara… Dá pra perceber que as músicas vão ficando cada vez mais e mais densas e as guitarras cada vez mais pesadas e distorcidas (risos), mas sem perder a essência do Labirinto.

Entre os dois discos, vocês lançaram EPs, splits, fizeram turnês pelo Brasil e pelo mundo. Como essa experiência adquirida influenciou a produção de Gehenna?

EC: Essa experiência nos ajudou muito nesse processo. Pudemos tocar e conviver com diversas bandas que admirávamos, e outras que passamos a fazê-lo. Tocar em festivais e shows maiores nos possibilitou entrar em contato com muitas coisas novas; foi um aprendizado muito grande.

MC: Sim, e ao longo dos últimos anos, termos produzido os EPs/split foi algo ótimo… Toda gravação resulta em acúmulo de experiências importantes, que certamente, terão um reflexo nas composições e formas de pensarmos as gravações seguintes.

O novo disco tem a produção técnica de Billy Anderson, conhecido pelo trabalho com diversos artistas de música torta/e ou pesada. Como a banda chegou a ele?

EC: Conhecíamos e admirávamos muito o trabalho do Billy em discos maravilhosos como Through Silver in Blood e Enemy of The Sun do Neurosis, e Mass V do Amenra.

MC: E conversando com o Mathieu [Vandekerckhove, guitarrista], do Amenra, ele sugeriu o Billy. Estávamos entre alguns engenheiros de gravação, e no final o Billy acabou sendo o escolhido e ficamos felizes que ele demonstrou interesse em nos gravar, ficou bem animado, inclusive de voltar ao Brasil (a única vez que veio antes foi para gravar o Ratos de Porão, nos anos 90). Foi um processo bem simples, na verdade; algumas trocas de email, apresentamos o som a ele, ele curtiu e acertamos detalhes e pronto, alguns meses após isso, cá estava ele chegando…

E como foi o processo de produção do disco com Billy? Ele deixava a banda mais livre ou teve participação mais intensa no processo?

MC: Trabalhar com o Billy foi muito bom! Ele cuidou da parte técnica da gravação enquanto estava aqui, enquanto a parte conceitual e da produção musical em si, nós mesmos já tínhamos em mente o que buscávamos. Todas as composições estavam prontas, timbres de cada instrumento bem definidos… Isso, junto ao conhecimento técnico dele, em especial no momento de captação das bases (bateria, guitarras e baixo) com certeza contribuiu para o disco alcançar em um resultado que nos agradou bastante.

O disco ainda tem participação do Mathieu Vandekerckhove, guitarrista do Amenra, que vocês trouxeram ao Brasil para uma turnê no fim de 2014. A participação dele foi gravada naquela época? Como rolou esse convite?

EC: Não, o Mathieu gravou recentemente e nos mandou a estrutura da “Locrus” [quinta faixa de Gehenna] pela internet. Após a vinda dele para o Brasil, tocamos em dois shows com o Amenra em 2015 na Europa, e nos tornamos mais admiradores, tanto deles, como do Syndrome (projeto solo do Mathieu). Fizemos o convite para a faixa colaborativa, e ele topou. Quando ouvimos a gravação que ele nos mandou, nos apaixonamos na hora. A Muriel fez todo o trampo de percussão, e eles foram desenvolvendo a música. Depois fizemos os sintetizadores, efeitos e baixo, e a finalizamos.

MC: Sim, e ele deve vir ao Brasil, em breve, para que possamos tocar ao vivo a “Locrus” juntos, e ele divulgar o novo álbum do Syndrome por aqui, que acabou de ser lançado também.

A banda vai sair em turnê para divulgar o disco? Há planos de novas turnês internacionais?

EC: Acabamos de fazer o lançamento digital do disco (Spotify, Deezer, Bandcamp entre outros), e fisicamente no festival internacional Overload Music Festival. Iremos realizar uma série de shows por aqui, e planejamos sair para turnê na Europa em meados de 2017.

MC: Adoraríamos tocar mais pelo Brasil, mas inicialmente devemos tocar apenas em algumas capitais que já visitamos anteriormente, tipo Belo Horizonte, Curitiba e Rio de Janeiro, e possivelmente outras cidades do estado de São Paulo. Já estamos trabalhando em datas para a turnê Europeia de lançamento do disco (que sairá em vinil também), para ano que vem.

Além do trabalho na Labirinto, vocês tocam o selo Dissenso Records e o Dissenso Studio, onde o disco foi gravado. Como é tocar, produzir, gravar e publicar música experimental no Brasil hoje? A cena mudou muito desde o início da banda?

EC: Certamente. Mudou bastante coisa desde que começamos há mais de 10 anos. Atualmente, o tipo de música que tocamos tornou-se mais aceita e disseminada pelas pessoas, principalmente, devido à internet. Surgiram mais bandas, público e espaços de shows dedicados a tal nicho. Contudo, aqui no Brasil, ainda estamos muito carentes em relação a isso.

Tanto o selo, como o estúdio surgiram para poder atender às nossas necessidades de músicos. Hoje administramos, em parceria com outros sócios, um estúdio profissional, e um espaço multifuncional destinado a diversos tipos de eventos (shows, palestras, lançamentos e filmagens de publicidade/filmes etc..), que é o Dissenso Lounge.

MC: E a Dissenso Records, atualmente, funciona mais para lançarmos nosso próprio material (do Labirinto) – eventualmente conseguirmos apoiar algum projeto que gostamos bastante, seja ajudando na divulgação digital ou até em cópias físicas em pequenas tiragens em CD. Recebemos material praticamente todo dia, de alguma banda nova, algum projeto legal, queríamos poder lançar todos! (risos) Mas exatamente por essa deficiência da infra-estrutura que o Erick mencionou (em especial o da música mais alternativa, experimental), acaba dificultando um pouco as coisas… shows, venda de CDs, aumento de público… Hoje as bandas que estão começando tem que se empenhar, da mesma maneira como 10 anos atrás, mas talvez de uma maneira até mais intensa; tem que sempre ter novidades na internet, shows aqui e ali para circular notícias, o ritmo de tudo está cada vez mais acelerado… Mas, por outro lado, fazer pesquisas, iniciar novos contato, tudo é mil vez mais fácil. Hoje é possível alinhar uma turnê inteira ao exterior ou buscar um selo do outro lado do continente somente por emails, não se precisa trocar mais cartas para isso…. é um imenso avanço!

Que outros artistas brasileiros merecem atenção atualmente, na opinião de vocês?

EC: Para gente, tudo que há de mais significativo, sincero e criativo está no underground, no “faça você mesmo”. São muitas e muitas bandas boas, seria injusto mencionar apenas algumas. Várias bandas de metal alternativo, experimental, shoegaze, hardcore e indie lo-fi. É só dar uma boa procurada nas mídias sociais, como o facebook da Dissenso Records; que sempre que possível escrevemos sobre outros selos, bandas e eventos que achamos que merecem atenção.