O texto a seguir é sobre Sleep (2015), álbum do compositor alemão Max Richter, e foi publicado originalmente no Chupa Manga Zine #2, lançado em abril de 2016 pelo selo Chupa Manga. O Chupa Manga é tocado pelo Estêvão Vieira, a.k.a. Stêvz, homem multitarefa que atua como ilustrador, escritor e músico (no Chapa Mamba, no Quadrúpede Orquestra, e em outros projetos como o temer\/\/ave). Pra comprar o zine, que tem vários textos muito bons, é só clicar aqui.

São 10h26. 19 minutos atrás comecei a ouvir Sleep, o mastodônico álbum de Max Richter, composto em parceria com o neurologista David Eagleman para acompanhar as oito horas de um sono perfeito. São oito horas ininterruptas de música instrumental flutuante entre a produção erudita contemporânea e a ambient music, supostamente ideais para embalar o sono e os ciclos do subconsciente notívago.

Não é meu primeiro contato com o disco. Ouvi algumas vezes a versão resumida do álbum, From Sleep, que tem apenas uma hora de duração. Tentei ouvir a obra completa outras vezes, mas dormi em todas. Todas. Esta é a primeira vez que ouço a obra completa, do raiar do meu dia ao início da noite. A experiência, mal sabia eu, seria minimamente traumática.

O primeiro reflexo, talvez desperto pelas experiências anteriores, é bocejar repetidamente. A essa altura o cérebro entende a melodia de “Dream 1 (Before the Wind Blows It All Away)” como deixa para mergulhar em sono profundo, dadas as tentativas anteriores. Passada essa fase, o que resta é uma meditação subliminar constante, efeito da estrutura hipnótica das composições, claramente inspiradas pelos inventos de Brian Eno – cuja clássica parceria com Harold Budd, Ambient 2: The Plateaux of Mirror, escolha frequente em minhas noites insones, é uma referência nítida. Os mantras são evocados em temas: o leitmotif surge em “Dream”, recorrente ao longo do álbum em alternância a “Path”, “Patterns”, “Return”, “Space” e “Aria”, temas intercalados por outras faixas que permitem o diálogo entre os temas.

As primeiras horas do álbum são intensas, um fluxo ininterrupto de melodias lindíssimas, mas muitas vezes angustiantes. Sleep não é um indutor de sonhos leves estruturado em acordes maiores, e foge dos vícios da new age com passeios frequentes pelas sombras da consciência e da inconsciência ao alternar momentos de foco e tranquilidade com trechos vigorosos e densos, como “Return 2 (Song)”, peça de quase meia hora que por si só dificilmente induziria alguém ao sono. Dentro do processo, no entanto, faixas como essa correspondem ao padrões mais agitados e ativos do sono, e ilustram as idas e vindas de mente incauta.

Ignorada a pretensão do álbum, Sleep é musicalmente primoroso, e dá gosto ouvi-lo a qualquer hora do dia, com qualquer intenção. Mas é um exercício complicado. O disco relaxa insistentemente, e precisei de algumas xícaras de café para me manter desperto mesmo ao exercer funções simples como responder e-mails, cozinhar – pesquei descascando uma abóbora – ou cumprir ações simples de trabalho, dada a impossibilidade de dedicar um dia útil exclusivamente ao transe provocado pelo álbum. A languidez entre “Moth-like Stars” e a forte “Non-Eternal”, em um intervalo de mais de três horas, chega a ser desesperadora, e precisei dar uma volta na rua para recobrar o foco. O problema aí foi outro: a interferência externa passou a atrapalhar a absorção do álbum, com ênfase na resistência à interação social. Hibernei novamente, e dediquei o resto da tarde à convivência com Sleep.

Passava das 18h quando “Dream 0 (Till Break of Day)” acabou, e o silêncio causou estranheza. Deu até uma onda, para falar a verdade. Depois de tanto tempo ouvindo música, mesmo que suave, meu cérebro estava esgotado, e insistia em reproduzir o tema de “Dream”, que não parava nem por baixo do single de Justin Bieber que um anúncio no YouTube insistia em reproduzir. Até tentei “Individual Thought Patterns”, do Death, para quebrar a pasmaceira instalada, mas eu não conseguia ouvir mais nada. Desisti e fui tirar um cochilo.